Era
uma vez... Um ferreiro muito pobre que tinha muitos filhos. Era tão pobre, mas
tão pobre que seu apelido era “Ferreiro da Maldição”, pois quando não lhe
falta o ferro, falta-lhe o carvão. E era assim mesmo... O dia que tinha ferro
para trabalhar, não tinha carvão. O dia que tinha carvão, não tinha ferro. E
assim passava os dias sem trabalhar.
Sem
ter o que comer, os filhos morrendo à fome, um dia saiu de casa disposto a por
um ponto final em toda aquela miséria. Faria o que fosse necessário para
arranjar pão.
-
Roubar? Só em último caso - pensava ele, mas até isso estava disposto a fazer,
só para não ouvir os seus filhinhos a chorar de fome.
Pedia
esmola a todos que encontrava. Andou o dia todo mas, pelo jeito, devia ser
maldição mesmo, porque nem um pedacinho de pão conseguiu.
Já
fazia o caminho de volta quando encontrou com um sujeito estranho, mas muito
bem trajado, ao qual pediu esmola. O sujeito perguntou-lhe por que ele andava a
pedir esmolas se naquele lugar tinha tanto trabalho para toda a gente.
Ele
contou a sua vida e a sua desgraça. Andava a pedir esmolas porque tinha os
filhos a morrer de fome e havia alguma coisa estranha que o impedia de
trabalhar.
O
ferreiro não sabia, mas o tal sujeito que encontrara no caminho era o diabo. Este
disse que lhe daria tudo o que precisasse mas, em troca, ele devia lhe dar três
gotas de sangue do seu dedo mindinho da mão esquerda (o diabo não gosta de nada
que é direito) e que depois deveria obedecer a qualquer chamada que ele
fizesse, fosse aonde fosse, estivesse onde estivesse.
O
ferreiro da maldição não tinha outra alternativa senão aceitar a proposta do
”bondoso senhor”. Deixou o diabo tirar as três gotas de sangue do dedo mindinho
e saiu mais animado, na esperança de conseguir dias melhores para ele e sua
família.
Ao
chegar em casa contou para a sua esposa o encontro que teve com o dito cujo e o
excelente negócio que havia feito (o bem estar de sua família por três gotas de
sangue).
A
esposa logo reconheceu que aquilo era coisa do diabo e falou para o marido:
- Ah
home! O que é que tu foste fazer! Olha que isso é coisa do diabo! Tu vendeste a
tua alma para o satanás.
E o
ferreiro respondeu a esposa:
-
Tenho fé em Deus que eu ainda hei de me salvar.
Daí
por diante nunca mais lhe faltou coisa alguma. Sempre lhe aparecia ferro,
carvão e serviço. Ganhava muito dinheiro, tinha muita saúde e já se considerava
um homem rico.
Um
dia estava ele a trabalhar na forja quando apareceu um garoto com um recado:
- O
homem que encontrou há tempos e que negociou com o senhor três gotas de sangue
de seu dedo mindinho da mão esquerda manda-o chamar.
O
ferreiro da maldição continuou a malhar o ferro e disse para o garoto:
- Óh
rapaz. O teu pai fica mandando crianças para falar comigo. O meu trato foi com
homem, não com criança.
Como
o garoto disse que não ia embora sem uma resposta, o ferreiro da maldição
começou a malhar o ferro com mais força e espalhar faíscas para todos os lados.
Logo
o garoto saiu de lá todo chamuscado com os salpicos de ferro em brasa e foi
contar para o diabo tudo o que acontecera.
O
diabo então mandou um homem:
- O
meu patrão, que é o homem com quem o senhor negociou três gotas de sangue do
seu dedo mindinho, mandou avisar que é para o senhor ir falar com ele.
-
Não vês que não posso sair daqui? - dizia o ferreiro da maldição. - Tenho a
minha forja quente e não tenho tempo a perder.
Como
o homem teimava, o ferreiro começou a malhar ferro com toda a força. As faíscas
salpicaram e queimaram o homem, que sacudia a roupa por todo o corpo. Voltou
correndo para o inferno e contou para o diabo os apuros que tinha passado.
Então
o diabo decidiu-se:
-
Pois agora vou eu. Quero ver se esse Maria-mijona (por causa do avental de
couro, largo e comprido que ele usava) vai ter coragem de me enfrentar.
Quando
encontrou o ferreiro o diabo foi curto e grosso:
- Eu
venho aqui para te buscar.
Mas,
o ferreiro da maldição não estava disposto a se entregar assim tão facilmente.
Ele iria usar de todas as suas armas para se defender.
Como
estava com o ferro em brasa, jogou-o no satanás. O cheiro de pelo queimado deu
para ser sentido até lá no inferno. Até os diabitos falaram lá:
-
Pelo cheiro, o nosso patrão foi bem chamuscado!
Depois
de ser queimado o diabo desapareceu.
Durante
uns bons anos, o nosso bom amigo ferreiro da maldição, bateu muito ferro, sem
ninguém mais o perturbar. Porém, como todo ser vivo, um dia ele morreu. E foi
bater às portas do céu.
São
Pedro perguntou quem era e ele respondeu:
-
Sou o ferreiro da maldição.
São
Pedro olhou nos seus arquivos, mas não encontrou seu nome, pois ele havia
vendido a sua alma ao diabo. Então São Pedro lhe falou:
- O
teu endereço é mais abaixo.
O
ferreiro da maldição desceu mais abaixo e encontrou as portas do inferno. Bateu
à porta e uma vós perguntou lá de dentro:
-
Quem é?
-
Sou o ferreiro da maldição.
E o
satanás que nem podia ouvir falar nesse nome lá no inferno, gritou:
-
Fora daqui - e não lhe abriu a porta.
A
pobre alma voltou ao céu e bateu na porta novamente.
-
Quem é? - pergunta São Pedro.
- É
o ferreiro da maldição, que nem no inferno me aceitaram.
São
Pedro abriu-lhe as portas e disse-lhe:
-
Pode entrar meu filho. O teu lugar já estava aqui guardado, porque sempre foste
um cidadão de boa fé.
Moral:
“O lobo ataca com os dentes e o touro com os chifres. Cada um se defende com as
armas que tem”.
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Gostei da historia, meu pai gostava de contar ela pra mim, quando era pequeno.
ResponderExcluirMas acho que na versão que ele contava,tinha alguma variação pra essa do blog, eu ando pesquisando com os amigos dele, e fazendo um esforço da memoria, mas eu acho que em determinado ponto da historia, o ferreiro engana o diabo e pede pra ele entrar dentro do forno pra aumentar o fogo, e quando ele faz isso o ferreiro prende ele la dentro e começa a bater nele como se tivesse forjanto uma ferramenta, bate nele com a marreta, mete ele na agua, como se tivesse temperando uma lamina, o diabo leva uma surra e vai embora, desistindo de levar a alma do ferreiro.
ResponderExcluirEu tenho um pequeno blog, sera que posso usar sua historia pra reescrever a historia que meu pai contava so que numa versão diferente ?
ResponderExcluirhttp://proftextos.blogspot.com.br/ esse é meu blog se quiser me visitar, obrigado.
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