quarta-feira, 20 de março de 2013

A Senhora Eulália e o Sr Dr. Juíz




Era uma vez... Uma senhora bem velhinha chamada Eulália que, todas as manhãs, ficava ao sol, sentada em um banquinho, em frente de casa. Costumava ficar ali a pentear seus belos cabelos cor de neve. Esse hábito ela tinha desde quando era mocinha.
Por ali passava todos os dias o senhor Dr. Juiz João José da Rosa Pinto. Era o caminho que ele fazia nas suas caminhadas matinais. Passava pela praça, ia até à fonte da bica e voltava pela rua da forja. E ele cumprimentava:
- Bom dia senhora Eulália.
A velhinha respondia:
- Bom dia senhor Dr. Juiz João José da Rosa Pinto. Que Deus o conserve por muitos e muitos anos.
No outro dia, lá estava a bondosa senhora a pentear seus cabelos. E o juiz cumprimentava:
- Tenha um bom dia senhora Eulália.
Senhora Eulália respondia:
- Bom dia senhor Dr. Juiz João José da Rosa Pinto. Que Deus o conserve por muitos e muitos anos.
E o juiz saía todo envaidecido. Dava sua volta costumeira e esperava ansioso o novo dia.
- Bom dia senhora Eulália.
- Bom dia senhor Dr. Juiz João José da Rosa Pinto. Que Deus o conserve por muitos e muitos anos.
O cumprimento da senhora Eulália deixava de fato o juiz bem mais humorado. Se por algum motivo, um dia não encontrava a boa senhora virava o capeta em sua repartição.
- Bom dia senhora Eulália.
- Bom dia senhor Dr. Juiz João José da Rosa Pinto. Que Deus o conserve por muitos e muitos anos.
E assim passaram os dias, até que o juiz resolveu conversar com sua amiga de cortesia.
- Bom dia senhora Eulália.
- Bom dia senhor Dr. Juiz João José da Rosa Pinto. Que Deus o conserve por muitos e muitos anos.
- Faz tantos anos que nós nos conhecemos e a senhora sempre a pedir que Deus me conserve por muitos e muitos anos. Pelo visto a senhora gosta muito de mim, não é minha senhora?
- Não, senhor Dr. Juiz João José da Rosa Pinto. É que desde os tempos em que eu era novinha, sentada aqui no meu banquinho, vi passar por esta rua três juízes: O primeiro era dez mil diabos. O segundo era vinte mil diabos. O terceiro, que é o senhor meritíssimo juiz, é trinta mil diabos. Por isso desejo que Deus o conserve por muitos e muitos anos, pois não quero chegar a conhecer o próximo.
O juiz saiu dali inconsolado, continuou a fazer seus passeios matinais, mas nunca mais passou naquela rua.


Moral: “Depois de mim virá, quem de mim bom fará”.
        

Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

domingo, 3 de março de 2013

O Lobisomem



Era uma vez... Um homem que saía todas as noites e só voltava altas horas da madrugada. E sua mulher sempre a lhe perguntar:
- Por onde tu andas homem? Por onde tu andas que não paras em casa nem de noite, nem de dia?
O marido, que era mulherengo e não podia dizer por onde andava, sempre arrumava a mesma desculpa:
- Eu ando a correr a minha sina, Deus te livre de teres uma sina igual à minha.
Mas a mulher que andava desconfiada respondeu:
- Pois a noite que vem quero ir ver essa tal de tua sina. Quero ver se ela é tão ruim assim.
Na noite seguinte o marido se aprontou para sair e chamou a esposa:
- Então Maria... não disseste que querias ir comigo? Vamos. Te arruma que está ficando tarde.
A Maria pôs um lenço na cabeça, uns tamancos nos pés e lá saíram os dois andando lado a lado. O marido apressava o passo e dizia:
- Vamos, vamos que não podemos perder tempo.
Andaram por ruas e caminhos que a mulher nunca tinha andado, subiram morros, desceram morros, atravessaram campos e florestas e ainda tinham de fazer o caminho de volta. Então a mulher lhe perguntou:
- Mas tu fazes isto? É isto que vens fazer todas as noites?
- Pois faço mulher. Eu faço isto todas as noites. Esta é a minha sina.
Responde a mulher:
- Então é por isso que tu chegas tão cansado em casa!
O marido ainda deu mais algumas voltas com a esposa e quando chegaram em casa já estava amanhecendo.
Na noite seguinte, o marido se preparou para sair e chamou novamente a esposa:
- Vamos Maria, vamos que está na hora.
Ao que a mulher se apressou em responder:
- Eu? Deus que me livre! Numa dessas, tu não me pegas mais. O fadário é teu, paga tu por ele.
E depois daquela noite nunca mais a esposa perguntou aonde o homem ia.


Moral: “É como o homem do contrabando: Com a verdade a vai  
             enganando”



Nota: Em Portugal o lobisomem, assim como as bruxas, era uma pessoa que nascia predestinada a cumprir essa sina. Em noites de lua cheia ele saía de casa à meia noite e rolava no rasto do primeiro animal que encontrasse. E ali se transformava nesse animal.


Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

sexta-feira, 1 de março de 2013

Fábulas - Os Dois Gatos



Encontraram-se dois bichanos numa tapera um dia.
De um deles o consolo era dormir no borralho. O outro em leito de madame tinha conforto e agasalho.
Ao primeiro o dono humilde, apenas espinhas dava. Com esquisitos manjares o outro se engordava.
O primeiro miou ao ver a casta. Este com repúdio dele se afasta.
- Gato vil e pobre como tens semelhante ousadia? Eu sou oponente e nobre. Julgas que sou como tu? Asneirão como te enganas. Pensas que eu me sustento de espinhas e barbatanas?
- Ui! - responde o gatorro com ar de estranheza. - Que distinção pôs em nós a natureza? Se tu és mais valente que eu estamos em tempo de o provar.
- Não! Não! Acode o cavalheiro. Eu não costumo brigar.
Então voltou enfadado o nosso vilão ruim:
- Se não és mais valente que eu, em que tu és superior a mim? Tu não mias?
- Mio.
- E sentes prazer em caçar algum rato?
- Sim.
- E o comes?
- Oh! Se como.
- É logo! Não passas de um gato. Abate, pois esse orgulho, intratável criatura. Não tens mais nobreza que eu. O que tens é mais ventura.


Moral: “A razão do mais forte é sempre a melhor”.

Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem.