sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Fábulas - O Pastor e os Lobos


Era uma vez... Um menino que trabalhava como pastor. Todos os dias, de madrugada, ele levava seu rebanho para pastar nos montes que margeavam o grande rio. Desde sempre ouvia falar de lobos, mas até então nunca tinha visto um. Um dia ele resolveu fazer uma brincadeira e começou a gritar:
- Looobos! Looobos! Looobos!
Logo apareceu um enorme número de agricultores com enxadas, engaços, forcados, foices, forquilhas, cajados e tudo que tinham à mão. E o menino começou a cantar:
- Enganei os bobos, com a pegada dos lobos... Enganei os bobos, com a pegada dos lobos... Enganei os bobos, com a pegada dos lobos...
Os agricultores xingaram o pastor e foram embora muito bravos. O pastor gostou da arte que tinha aprontado e, cheio de prosa, foi contar para seus colegas.
Durante muitos dias ele continuou em seu fadário, lembrando da arte que tinha aprontado e regozijando-se de prazer.
- Já está na hora de eu enganar eles de novo – pensava ele.
Começou ele novamente:
- Looobos! Looobos! Looobos!
Desta vez apareceram uma meia dúzia de agricultores, alguns que não sabiam do caso. E o menino começou a cantar novamente:
- Enganei os bobos, com a pegada dos lobos... Enganei os bobos, com a pegada dos lobos... Enganei os bobos, com a pegada dos lobos...
E lá se vão mais agricultores loucos da vida.
O pastorzinho, lá em cima da montanha, gargalhava de rachar o bico.
O tempo passou... Alguns dias, alguns meses, talvez. O certo é que um dia os agricultores escutaram o menino que gritava lá de cima:
- Looobos! Looobos! Looobos!
Eles nem ligaram:
– Deixa esse boboca gritar até se esgoelar...
Só que desta vez eram lobos de verdade. Uma grande matilha.
E o menino continuava gritando:
- Looobos! Looobos! Looobos!
Desta vez não apareceu vivalma. E os lobos fizeram a festa e tiraram a barriga da miséria.


Moral: “ Coitado do mentiroso mente uma vez mente sempre, ainda que fale a verdade, todos lhe dizem que mente. ”

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Contos Antigos - O Beato

Esta é uma estória contada pela minha mãe nas longas noites de inverno, no borralho ao calor da fogueira. Os arranjos são meus, a panorâmica é a minha terra. Ela contava mais ou menos assim:


Era uma vez... Um senhor chamado Joaquim, que era um homem muito religioso.
Ele e sua família iam à missa todos os dias, faziam jejum, abstinência, pagavam o dízimo religiosamente e liam a Bíblia com fé e fervor.
Conheciam a Bíblia em seus mínimos detalhes e era nela que buscavam a luz para iluminar seus caminho. E seguiam com devoção todos os atos recomendados pela igreja.
Joaquim possuía uma área de terra mais alta na frente, aonde construiu uma boa casa. A parte de trás era de terra mais baixa, onde fez uma valeta em toda a extensão da divisa para escoamento das águas e para enxugar o terreno. Ao fundo do quintal tinha um valado de árvores nativas que faziam um verdadeiro tapume de ambos os lados. Servia, também, para quebrar a força do vento e impedir a entrada de animais.
O senhor Joaquim plantou muitas árvores frutíferas e cultivava uma horta. Era de lá que tirava o sustento da família e pagava suas obrigações. Ali era um paraíso para os passarinhos que cantavam alegremente nas árvores e depois iam matar a fome comendo lagartas, minhocas, pulgões e folhas de algumas plantas, principalmente aquelas recém – nascidas nos canteiros. E isso incomodava muito o senhor Joaquim.
Como bom cristão, ele colocou lá um espantalho para espantar os pássaros. Mas estes também se acostumaram ao espantalho e até pousavam em cima dele.
Então pôs um cata-vento barulhento, que a princípio parecia ter resolvido o problema, mas dias depois incomodava mais o senhor Joaquim do que os passarinhos.
Em volta do valado, eles faziam seus ninhos, cantavam seus hinos e criavam seus filhotes.
Senhor Joaquim rezava, pedia a Jesus Cristo que o ajudasse nessa tarefa difícil de conviver com os passarinhos.
Um melro*, que tinha feito seu ninho bem escondidinho no meio do valado, enquanto sua fêmea chocava os ovos, cantava alegremente em cima do espantalho. Aquele era o seu lugar favorito.
Joaquim, o bom cristão que conhecia a Bíblia desde o gênese ao apocalipse, que conhecia todos os mandamentos da lei de Deus, reclamava:
 - Estás a cantar é! Estás a cantar justamente em cima do meu espantalho? Ficas aí a estragar os meus canteiros, a comer minhas verduras e ainda estás a fazer pouco caso de mim? Mas quem paga o dízimo sou eu. O dia que eu te agarrar, tu vais cantar, mas é dentro de uma gaiola.
O homem só prestava atenção no melro macho, mesmo porque, a fêmea é mais discreta, não canta e não é tão vistosa. E agora ela ainda está ocupada na choca dos ovos, sendo que só saia do ninho para se alimentar.
E o senhor Joaquim fazia as mais estranhas armadilhas: arapucas, laços e redes. Muitas aves ele pegou e a todas ele soltou. Era apenas uma que o desafiava, era apenas essa que ele queria.
Os filhotinhos nasceram. E o melro pai logo de manhãzinha já tinha cavoucado com o bico os canteiros novos em busca de larvas, insetos e minhocas.
E o senhor Joaquim pensava:
- Até quando meu Deus? Até quando vou ter que aturar esse melro.
E o melro carregava o dia todo, pois tinha uma família para sustentar. Seus filhotes cresciam e o melro cantava feliz.
Joaquim começou a prestar atenção e viu que o pássaro levava comida no bico sempre para o mesmo lugar no valado. E para lá se dirigiu. O que encontrou foi o que esperava. Um ninho com três filhotinhos já começando a empenar. E pensou:
- Está na Bíblia: “Se os pais não pagarem, que paguem os filhos pelos pais, isso é justo”.
Pegou uma grande gaiola, colocou lá dentro as avezinhas e foi embora com elas.
Quando o melro chegou e viu o ninho vazio, ficou desesperado. Começou a procurar seus filhinhos por toda parte e foi encontrá-los dentro de uma gaiola, pendurada no espantalho. Foi lá onde o senhor Joaquim os deixou para que fossem tratados pelo pai.
O melro atirou-se contra a gaiola heroicamente, debateu-se, mas não conseguiu libertar seus filhotes. Viu que era inútil sua luta, mas não permitiria que seus filhotes sofressem. Saiu dali e foi em busca da liberdade.
Pouco depois ele voltava com algumas sementinhas no bico e colocou-as nos biquinhos de seus filhotes. E assim eles comeram a última refeição que seu pai lhes dava. Logo depois, estavam todos mortos dentro de uma gaiola e o pai jazia no chão.
Quando senhor Joaquim chegou ao quintal e deparou-se com aquela cena, pegou a avezinha na mão, levantou os braços para o céu e gritavou:
- Óh Bíblia! O que sabes tu da vida? A Bíblia és tu... Ó Natureza.


Moral: “A Bíblia és tu... Ó Natureza”.


* Melro – pássaro típico de Portugal, onde ocorre em todo o território.


Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

Veja também:


Contos Antigos - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/02/contos-antigos.html

Contos Antigos - Canção das Rosas - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/08/contos-antigos-cancao-das-rosas.html

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Contos Antigos - O Carneirinho Branco - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2012/12/contos-populares-o-carneirinho-branco.html

Contos Antigos – O Linho e a Água - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/09/contos-antigos-o-linho-e-agua.html

Contos Antigos - O Milagre das Rosas http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/08/contos-antigos-o-milagre-das-rosas.html

Contos Antigos - Bruxas e Diabos - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/02/contos-antigos-bruxas-e-diabos.html

Contos Antigos - A Nau Catrineta - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/04/a-nau-catrineta.html

Contos Antigos - A Procissão dos Anjinhos - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/05/contos-antigos-procissao-dos-anjinhos.html



 

domingo, 15 de setembro de 2013

Contos Antigos - O Linho e a Água

O linho dizia á água
muito baixo num lamento:
“ - Quisera ser como tu...
ter asas como as do vento...
correr montes, correr vales,
batido nas penedias,
ir contando minhas mágoas...
num rosário de agonias.”
Diz-lhe a água num sussurro:
“ - Vais ser feliz vou jurar...
rica toalha de mesa,
branca toalha de altar.
Enquanto eu coitadinha,
aqui vivo desprezada...
Não invejes minha sorte,
não a queiras nem por nada.”
Responde o linho apressado:
“ - Que sina tão bela a tua,
que missão te destinaram,
não te esqueças de correr,
olha...
os campos secaram.”
Agora que estão amigos
fartinhos de conversar...
Tiraram o linho da água
e ele saiu a chorar.                                                                                       


Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Contos Antigos - O Milagre das Rosas

Era uma vez... uma rainha que se chamava Isabel. Ela era muito caridosa e todos os dias saia para alimentar os pobres.
Não que o rei fosse mesquinho, mas um dia, quando ela ia com o regaço cheio de pão para dar aos pobres, o rei lhe perguntou:
- Que levas em vosso regaço senhora?
A rainha lhe respondeu:
- São rosas, meu senhor.
O rei muito admirado, porque era inverno e o gelo caia sem parar, lhe respondeu:
- Rosas? Rosas em janeiro? É caso muito estranho...
Isabel abrindo o avental, lhe mostrou o que havia em seu regaço.
E o que o rei viu, foram as mais belas e cheirosas rosas.

Moral: “Quem trabalha e mata a fome, não come o pão de ninguém. Quem ganha mais do que come, come sempre o pão de  alguém.”


Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

Contos Antigos - Canção das Rosas

Em tempos que já lá vão,
rainha Izabel de Aragão,
senhora de dotes bem nobres,
o milagre realizou,
em rosas ela transformou,
o pão que dava aos pobres.

Quando a mãe de Jesus,
chorava aos pés da cruz,
a morte de um filho seu,
em suas chagas dolorosas,
brotaram pétalas de rosas,
abençoadas no céu.

Peço a Deus quando um dia,
numa campa profunda e fria,
eu repousar afinal,
que depositem sobre mim,
as rosas do meu jardim,
cujo nome é Portugal.


Moral: “Elevai-vos devagar, chegareis ao alto sem cansar.”



Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Contos - Noites de Lamego

Em Portugal (pelo menos na minha região), uma "Noite de Lamego” é uma noite mal dormida. Sabe aquela noite em que a gente rola na cama e parece que o dia nunca vai amanhecer...
O por quê da noite em Lamego ter ganhado essa fama? Bem, vamos aos fatos:

Era uma vez... Dois rapazes, um nascido em Lamego e o outro em Coimbra.
Eles se conheceram quando ambos foram servir o exército no quartel militar do Porto. Lá ficaram muito amigos e combinaram que o primeiro que tivesse um filho, o outro seria padrinho. E assim foi. A primeira criança que nasceu, o outro batizou e eles ficaram sendo compadres e amigos.
Tão amigos que o compadre de Lamego de quando em quando arreava o seu burrão e vinha passar uma semana na casa do compadre em Coimbra. E sempre ele falava:
- Ó compadre, vós tendes que ir me visitar também. Só eu que venho cá, só eu que venho cá.
E o outro respondia:
- É muito longe compadre. E eu não posso ficar muito tempo fora de casa. Mas o dia que eu tiver um tempinho, pode o compadre ficar certo que eu lá lhe apareço.
Depois de uma semana o compadre se despediu e disse:
- Agora sou eu que lá o espero compadre.
Um dia, quando o compadre coimbrão, ou coimbrês como queiram, estava com todo o tempo disponível, arreou sua burrinha e preparou-se para a viagem.
No caminho notou que a burrinha estava no cio. Levou-a para cruzar e quando chegou a um lugar chamado Vouzela, viu numa casa de arreios um seirão pequeno todo enfeitado. E pensou:
- Vou comprar este seirão. Quando voltar da casa do meu compadre, o ponho em cima do filhote e venho com ele asseado.
E continuou a viagem. O compadre, que não esperava por ele, ficou todo contente ao receber a visita de seu compadre de Coimbra. Foi ajudá-lo a guardar a burra no curral, mas notou que trazia um seirãozito e perguntou-lhe:
- Ó compadre? Por que vós trazeis este seirãozito?
O outro respondeu:
- Sabeis compadre, no caminho acheguei minha burrinha. Quando voltar para Coimbra, vou aparecer em casa com o burrito todo asseado de seirão.
O compadre de Lamego ficou a matutar:
- Ele achegou a burra na vinda pra cá. São doze meses para a burra parir, mais um ano para o burrito crescer. Quanto tempo meu compadre vai querer ficar aqui?
Ele tratou muito bem o compadre. Ofereceu-lhe um jantar digno de rei e quando anoiteceu, preparou-lhe uma cama na adega do porão. Deixou-lhe uma lamparina e falou:
- Aqui tens esta caneca de litro, uma cesta de frutas, um saco de amêndoas e broas de meada (feitas de farinhas de milho e de centeio). Se tiveres fome à noite é só ir à pipa, tirar o vinho e comer com broa. Ah! Se quiseres fazer suas necessidades, tendes aí essa selha que é para isso mesmo, pois as noites aqui são muito compridas.
A adega era escura e sem janelas, só tinha uma porta larga de entrada por onde entravam e saiam as pipas de vinho.
O compadre visitante estava muito cansado da viagem e falou que ia deitar-se mais cedo, que o compadre não precisava preocupar-se em acordá-lo. A sua burrinha era o seu despertador. Era ela que zurrava de manhã e o acordava sempre cedo.
Ele deitou-se na cama e logo adormeceu.
O compadre de Lamego tinha uma lona grande para cobrir os cereais em dia de chuva, e colocou-a a tapar a porta pelo lado de fora. Não queria que o compadre visse nenhuma luz externa. Encheu a manjedoura da burra de trevo e foi se deitar também.
O compadre coimbrão dormiu até se fartar... e aquele dia que não clareava nunca, e sua burrinha não o chamava. Era mais um litro de vinho e um pedaço de broa meada que ele consumia. E ia para a cama mais um pouquinho. Levantava novamente, mas continuava tudo em silêncio. Tomava mais uma caneca de vinho e ia dormir outra vez. A selha já estava quase cheia e sua burrinha que não o chamava. Mais um bocado de broa e mais uma caneca de vinho. A lamparina continuava acesa, mas quanto azeite ela ainda teria para queimar? Já estava a ficar desesperado. Aquela noite não terminava nunca? A selha estava cheia, a lamparina já dava sinais que iria se extinguir a qualquer momento, mas até que enfim amanheceu.
Depois de três noites e dois dias, o compadre de Lamego abriu a porta da adega todo sorridente e falou:
- Bom dia compadre. Não estranha eu te chamar assim tão cedo. É que a gente aqui acorda cedo mesmo.
E o outro todo aflito:
- Mas, então compadre! As noites aqui em Lamego são assim tão compridas?
- Pois são compadre! E olha que ainda vão crescer mais, mas para a gente parece que passam num instante.
- Ai! - dizia o outro. - Eu é que não vou passar aqui mais uma noite dessas.
Arreou a burrinha que estava até redonda de tanto comer. O compadre deu-lhe cinco litros de vinho, uma broa, um cabaz de figos e ele foi embora. Mas, no meio do caminho, parou em Viseu para dormir.
Lembrando-se da noite que passou em Lamego, perguntou ao dono da casa se as noites ali em Viseu eram tão grandes como as noites de Lamego.
- Pois são - disse o homem. - As noites aqui em Viseu são iguaizinhas às noites de Lamego.
Ele montou na sua burrinha e falou:
- Eu é que não vou ficar aqui num lugar destes. Vou tocar direto para Coimbra que as noites lá são muito mais pequenas!

Moral: “O conhecimento é a maior riqueza que podemos adquirir”.



Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sentimentos de Criança


    Um dia estava minha filha a usar uma linda camiseta que tinha estampada na frente à figura de duas crianças. A criança menor chorava e tinha a mão sobre o rosto. A segunda criança um pouco maior, tinha a mão sobre ela e dava a impressão de estar a fazer-lhe alguma pergunta. E minha filha me perguntou:
- Paizinho, o que esta menina está a dizer à outra que está a chorar?
E eu lhe respondi:
- Essa menina está a perguntar à criancinha:

“ - Por que choras tu, Anjinho?
- Tenho fome e tenho frio - respondeu a outra.
E a menina perguntou novamente:
- A tua mãe? Por onde anda a tua mãe?
- A minha mãe já não vive. Nunca a vi em minha vida, vivo triste assim perdida. Decerto, mãe... nunca tive...”

Isso despertou um sentimento tão forte e tão nobre em minha menina, que esta camiseta ganhou vida, ganhou alma. Ela jamais conseguiu se separar daquela imagem. Já se passaram mais de trinta anos, e a minha filha ainda guarda-a como a mais bela relíquia.

Moral: “Também de asas precisa a criancinha. Quem dar-lhe-as   
              souber, bendito seja”.


Nota: Saudade, uma palavra portuguesa que não tem tradução. É fácil ser entendida, difícil ser explicada.
          Um bom sentimento (uma luz que brilha em nossa mente, um desejo) causado pela dor da ausência, ao contrário da nostalgia, nos deixa saudade, não amargura.


Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 


segunda-feira, 20 de maio de 2013

Caminhos da Vida


A vida é uma estrada de mão única, cujo fim ninguém alcança. Todos nós paramos em algum ponto, porém, a vida continua.

Deixei minha casa, meu pai, minha mãe, meus irmãos. Passei minha vida em busca da felicidade, no entanto, o que eu consegui foram apenas momentos felizes.
Quando pensei ter encontrado, meus filhos saem de casa e seguem o mesmo caminho em busca da deles.

Moral: “Foi por acaso que você tropeçou na pedra que encontrou em seu caminho. Mas não foi por acaso que você chegou a esse caminho.”

sábado, 11 de maio de 2013

Contos Antigos - A Procissão dos Anjinhos


Era uma vez... Na pracinha do Casal de São Tomé, havia uma igreja. Do lado da igreja ficava o adro e, ao fundo, o cemitério. As ruas da praça e as casas em volta compunham aquele lindo cenário de um vilarejo tipicamente português.
Já havia passado da meia noite, quando a menina chamou sua mãe dizendo que queria fazer xixi. Elas moravam na rua da igreja ao lado do cemitério.
Quando mãe e filha se levantaram, elas viram um clarão na rua que lhes chamou a atenção. Apesar de ser uma noite de luar, no lugar não havia nenhum tipo de luz que ficasse acesa durante a noite. Instintivamente, as duas se dirigiram para a janela. E o que elas viram foi uma procissão de anjinhos. À frente ia uma mulher que parecia a Nossa Senhora. E os anjinhos iam atrás, todos com velas acesas.
A procissão andava em volta do cemitério. Mas o que chamou a atenção da menina, foi um anjinho que andava sempre atrás. Ele corria o mais que podia, mas nunca conseguia alcançar os anjinhos que iam à sua frente. E a menina perguntou à sua mãe:
- Mãezinha, por que aquele anjinho fica correndo atrás dos outros e não consegue alcançá-los? Ele não é mais pequenino que eles?
E sua mãe respondeu:
- É que quando ele morreu, sua mãezinha derramou muitas lágrimas sobre seu corpo. Por isso ele anda carregado com as lágrimas de sua mãe. Quando morre uma criança, a mãe não pode derramar suas lágrimas sobre ela, porque irá sobrecarregá-la com seus pecados.
- Mãezinha - disse a menina - quando eu morrer não quero que a senhora chore por mim. Eu quero andar na procissão, bem pertinho de Nossa Senhora.

Moral: “Tudo que é desconhecido é tido por magnífico”.
            “Enquanto houver uma criança, os anjos vão existir””.

Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

Indo Mais Além


Neste mundo de magia, onde os extremos se encontram e todas as contradições se misturam, a salvação reside no amor, mas o que a torna difícil é que ninguém pode forçar o amor, ele só chegará até nós através da compreensão e da virtude.
O homem antigo entendia o universo assim como nós o vemos nos dias de hoje. Seus conhecimentos eram visuais e tudo girava em torno da terra, assim, a terra era o centro do universo.
O esboço de história que chegou até nós, não vai além de dez mil anos antes de cristo.
Segundo Heráclito, um filósofo que viveu entre o VII e o VI século dessa mesma era, o sol nascia novo todas as manhãs (O sol se apagava todas as noites e tornava a acender de manhã). Uma semente já havia sido semeada.
O que diria esse sábio com seus conhecimentos nos dias de hoje?...
Dois mil cento e cinqüenta anos se passaram. A semente germinou, deu a árvore que deu flores e frutos... Os frutos do conhecimento.
Estamos em 1543 da era cristã. Nikolaj Kopernik (Copérnico) descobre que a terra não é o centro do universo (esta era a tese defendida pelos donos do mundo, na época, a igreja) e sim, o sol. Por esta afirmação, visto que nunca quis desmenti-la, Copérnico foi condenado a morrer queimado numa fogueira. Se bem que agora já sabemos que o sol não é o centro do universo e sim o centro de seu sistema. O universo é algo muito mais gigantesco, com trilhões e trilhões de astros, alguns em si, milhões de vezes maiores que o sol. Estes números poderão ser contestados, mas será que algum dia serão comprovados?
Discute-se também, se existe vida em outro planeta.
Com trilhões e trilhões de sóis iguais ao nosso, eu posso afirmar, sem sombra de dúvida, que a vida é própria de qualquer sistema, em qualquer corpo sólido onde haja água, luz e calor. Quanto a forma de vida, isso não se discute.
O que diriam desta minha afirmação daqui a dois mil e seiscentos anos???...

Moral: “Querer separar tudo de tudo é acabar com tudo, pois nada vive só”.
            “A flor e o fruto são apenas o começo. A semente é a vida, é o futuro”.

Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Segredo do Rei


Era uma vez... Um rei que, um dia foi à caça com amigos da corte, mas acabou se separando deles.
Ele tinha os melhores cachorros de caça do reino, o que quase sempre lhe proporcionava boas caçadas. Por se orgulhar de seus cachorros e por vaidade própria, gostava de se exibir na arte da caça.
Mas naquele dia, ele exagerou. Se o dia não estava para peixe, para caça também não. O rei andou, andou, andou, mas não encontrou nada que valesse um disparo. Andou sem rumo, pois confiava nos seus animais. Mas cachorro de caça acompanha o dono para onde ele for, mas não o traz de volta. Os cachorros entusiasmados corriam à frente, e o rei os seguia.
Enquanto o dia teve luz, foram se afastando cada vez mais. Já andavam por lugares do reino onde nunca tinham pisado antes. O rei dormiu no mato aquela noite e seus cachorros o acompanharam.
Logo bem cedo começou a labuta. Para os cachorros, a ansiedade de caçar, para o rei, a ansiedade de encontrar o caminho de volta.
Nisso os cachorros encontraram um rasto de caça e, excitados, seguiam-no afastando-se cada vez mais do dono. O rei estava cansado demais por subir e descer montanhas e acabou por perder-se dos cachorros. Então se decidiu por seguiu por um vale. Ele foi sempre em frente e pensava:
- Em algum lugar eu vou sair.
E, assim, se passou mais um dia, sem chegar a lugar algum.
Seus companheiros de caça julgaram que o rei tivesse voltado para casa, por isso nem se preocuparam. O rei era experiente em caçadas nas matas da região. No palácio também ninguém se preocupou, pois julgavam que o rei andava bem acompanhado.
O rei dormia no mato e quando seu farnel acabou e comia frutos silvestres. Não tinha como voltar. Sabia que não resistiria ao caminho de volta. A água do cantil havia acabado, mas pelo menos agora tinha um fio de água que o acompanhava vale abaixo. Seguiu aquele vale por dias que já não sabia quantos. Não sabia nem que dia da semana era.
Suas roupas se rasgaram, suas sandálias se partiram. O rei ficou descalço e sem arma, pois estava ficando cada vez mais pesada. Mal podia com o peso de seu próprio corpo e decidiu deixar a arma encostada a uma palmeira na beira do riacho.
Seus pés inchados, feridos e arranhados pela vegetação, já eram um caso mais sério. Pisar no chão era um sacrifício, mas ele também não podia parar. A fome já fazia parte do seu dia. O fim estava próximo e o rei sentia as amarguras da morte.
Cambaleante, ele viu uma fumacinha no ar que saía de uma pobre choupana. Era o primeiro sinal de civilização que encontrava depois que se perdeu. E casa onde há fumaça, há fogo. Onde há fogo, há gente. E foi cheio de esperança, que para lá se dirigiu.
Dizem que rei nunca perde a majestade. Mas quem inventou esta frase nunca deveras se perdeu.
- Òh de casa! - dizia um velho e esfarrapado mendigo que chamava aquela pobre choupana de casa. Seu palácio agora de nada lhe valia.
- Pode entrar senhor, a porta está aberta - dizia uma vós lá de dentro.
E o rei entrou, ou melhor, o mendigo entrou.
- Meu Deus! De onde vens amigo? Da guerra dos farrapos? - dizia o ilustre senhor que o recebeu.
- Que te fizeram homem de Deus, que estás tão machucado. Senta aí, que eu já vou dar um jeito nisso.
E Raimundo, era assim que se chamava o lavrador, deu seu trono para o mendigo se sentar. Um banquinho de pernas de paus do mato com uma rodela de tronco de assento.
Pegou uma panela de água quente que estava no borralho, colocou a água numa tina e temperou-a com água fria. Ajudou a despir o mendigo e a entrar dentro da tina, porque o pobre mendigo já não conseguia nem se arrastar. Lavou sua cabeça e esfregou as suas costas. O mendigo sentiu-se no paraíso. Era o melhor banho de sua vida. Muito melhor que os banhos em sua enorme banheira, com sais e essências importadas.
Lavado e enxugado, o lavrador foi buscar roupas suas no cesto de bambu e vestiu o mendigo. Foi buscar um remédio ungüento que fazia com diversas plantas de sua cultura e banha de tartaruga. Passou o remédio por seus pés e embrulhou-os em dois panos. Tentou calçar-lhe umas alpargatas que tinha, mas era impossível, pois estavam muito inchados.
- Bem, a limpeza nós já fizemos - dizia o lavrador. - Agora vamos fazer a comida. Senta aí, que te arranjo alguma coisa para comeres. Espera um minutinho que vou fazer uma torta de milho.
E lá estava um rei sentado em seu magnífico trono, quatro pernas de pau e uma rodela de tora de madeira, uma camisa de flanela velha, mas limpinha, umas ceroulas do mesmo pano. Pés amarrados, à mercê de um homem que nunca vira e esperando uma torta de milho para o jantar.
O lavrador saiu para o quintal e trouxe espigas de milho. Ralou-as, misturou com farinha, colocou sal e gordura de porco, amassou um pouco, colocou a massa em folhas verdes de aboboreira e assou a torta debaixo da cinza quente do borralho.
E o mendigo comeu, comeu como um rei. Nunca manjar algum lhe pareceu tão saboroso.
O lavrador olhava com pesar para aquele pobre mendigo e pensava:
- Que Deus me livre de semelhante infortúnio.
Depois perguntou ao mendigo:
- De onde vens? Que caminhos te trouxeram aqui?
- Eu venho de Al-Girk e meu nome é Saul - dizia o mendigo. - Eu ia para Al-Jubb, mas me perdi no caminho. Deixei minha arma cartucheira que só me servia de estorva, lá bem acima, encostada numa palmeia as margem do ribeirão.
- Estás muito longe do teu destino, mas quando estiveres em condições de fazeres a viagem, preciso ir à cidade e posso te deixar em Al-Girk.
Depois de tão exuberante jantar, o lavrador foi lhe preparar a cama: Encheu uma enxerga de folhelhos de milho, um travesseiro com a mesma palha, um lençol de pano cru, e uma manta de retalhos. E o mendigo dormiu, dormiu como um rei.
No outro dia, o lavrador lavou-lhe os pés com água morna e passou a mesma pasta ungüenta, dizendo ao mendigo que ele precisava ficar em repouso até seus pés melhorarem.
Cinco dias depois, lá ia o mendigo na boleia de uma carroça, rumo à cidade. Por muitos dias eles viajaram.
Na hora de se despedirem, o mendigo agradeceu a ajuda recebida e deu ao lavrador uma moeda de ouro, dizendo:
- Recebe esta moeda. Não é para pagar o que por mim fizeste, porque a caridade não tem preço. Mas se um dia precisares de ajuda, entrega essa moeda ao rei. Só assim saberás o quanto essa moeda vale.
E assim, o mendigo saiu pelas ruas da cidade sem que ninguém o conhecesse, deixando o lavrador embaraçado com a moeda na mão a olhar para ela e pensava:
- A imagem cunhada nesta moeda tem semelhança com alguém que já vi.
Quando o rei chegou ao palácio, nem os guardas o queriam deixar entrar. Então o rei pensou:
- Quanta diferença há neste mundo. Quando cheguei a casa do pobre agricultor, ele me mandou entrar sem mesmo saber quem eu era. E aqui não querem me deixar entrar na minha própria casa.
Foi preciso o rei falar grosso com os guardas, para depois sim, lhe abrirem os portões.
O tempo passou e uma seca muito longa assolava lá para as bandas do norte. Com a terra seca as plantas desapareceram, a água acabou e o gado morreu. O senhor Raimundo foi o último retirante da região.
Chegou à cidade e lembrou-se do que o mendigo lhe dissera:
- Procura o rei.
E foi o que decidiu fazer. Era a sua última esperança.
Mas não foi preciso procurá-lo, pois rei veio até ele. O rei vinha em comitiva com seus vassalos, quando viu a carroça e o burrinho que tão bem conhecia.
Quando o lavrador ia falar, o rei fez sinal para que se calasse. Chegou perto, mandou que subisse na sua carruagem. Deu ordem para voltarem, que levassem a carroça e o burro e que o tratassem bem.
Levou o amigo lavrador para o palácio sentou-o no seu trono e falou:
- Foi assim que me trataste. Cada um dá o que tem.
E explicou:
- Se não te deixei falar à pouco é porque quero que guardes segredo de minha aventura. É um segredo que deve ficar só entre nós. Mais ninguém pode saber. Se alguém descobrir meu fracasso será um infortúnio.
Depois perguntou:
- Trouxeste ao menos um pedacinho da torta de milho? Ou um pouco do teu bálsamo que é um santo remédio?
- Não Majestade! - falou o agricultor – mas na carroça tem uma espingarda que fui procurar na beira do riacho, encostada numa palmeira, na esperança de encontrar o dono dela. Meu senhor se eu soubesse que em minha casa vos tinha!
- O que farias tu? Melhor do que fizeste? - perguntou o rei. - E agora dize-me o que aconteceu em tua vida para chegares assim tão depenado?
- Não só a minha majestade, mas a vida de todos quantos moravam na região. Bem se vê que o mal que assola o norte não chega ao sul, porque aqui parece outro mundo.
Depois de ouvir o lavrador, o rei prometeu que iria ajudar aquela sofrida gente.
Lembrando-se daquele fio de água que o acompanhava vale abaixo... pois é... aquele fio era perene, e mais abaixo virou um regato, e mais abaixo já era um rio. E o rei resolveu mandar represar o rio e construiu uma enorme represa para os pobres do norte.
Os retirantes voltaram, cultivaram suas terras e nunca mais foram tão pobres como antes.

Moral: “Faça o bem sem olhar a quem”.

Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Contos Infantis - Catraia


Era uma vez. Um homem que ao nascer do sol, toda manhã, ia a catraia. E todos os dias, dizia para o filho mandrião:
- Levanta Zé. Hoje vamos mais cedo. Quem sabe a sorte está do nosso lado.
Zé levantou-se com uma tremenda má vontade e pôs-se a resmungar durante todo o caminho.
Logo ao chegar à praia, ele encontrou uma carteira recheada de notas. Pegou-a, guardou-a no bolso e voltou para casa dormir.
No dia seguinte, bem cedinho, lá vem o pai com a mesma ladainha:
- Vamos filho. Olha a sorte que tu tiveste ontem em levantar cedo. Achaste uma carteira cheia de notas
- Por isso não senhor pai - dizia o dorminhoco Zé. - Aquele que a perdeu, levantou-se mais cedo do que eu.
Nesse mesmo dia, todo o povo do lugar ficou sabendo que Zé tinha achado uma carteira cheia de notas.
O suposto dono apareceu em sua casa e falou-lhe:
- Óh Zé... eu sei que tu achas-te a minha carteira. Eu te dou cem escudos como recompensa se tu me a entregares.
Zé que era dorminhoco, mas não era desonesto, entregou a carteira, assim como a encontrou, para o suposto dono.
Este, assim que pegou a carteira em sua mão, contou o dinheiro e disse-lhe:
- Vejo que tu te adiantas-te em pegar tua parte do dinheiro, pois a minha carteira tinha seiscentos escudos e aqui só tem quinhentos.
Zé pegou a carteira da mão do cidadão e falou-lhe:
- Então espere alguém encontrar uma carteira com seiscentos escudos. Esta carteira não é a sua.
Enfiou a carteira no bolso e voltou tranqüilo para a cama.

Moral: “Para malandro, malandro e meio”

Nota: Catraia - pequeno barco de um só tripulante. Ir à catraia - ter o hábito de percorrer a praia durante a madrugada em busca de objetos arrolados pelo mar.

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domingo, 14 de abril de 2013

Contos Antigos - A Nau Catrineta


Era uma vez... Há muitos séculos passados, saía de um certo porto, uma nau e sua tripulação em busca de novos mundos, de fama e de riqueza.
Percorreram os quatro cantos da terra, pois ainda não sabiam que a terra era redonda.
- Arriba, arriba gajeiro aquele mastro real - dizia o capitão.
O gajeiro subia no grande mastro à procura de um porto seguro, mas só encontrava água. E eles navegaram, e navegaram tanto tempo que lhes faltava água e comida.
O gajeiro sempre mandava mudar o rumo, mas era em vão. Por fim,  bebiam água da chuva quando a tinham e começaram a comer até as tábuas do barco.
Na verdade, o gajeiro era o diabo que embarcara com eles e vinha a lhes enrodilhar a viagem para que não chegassem a lugar algum.
E dizia o capitão:
- Arriba, arriba gajeiro.
Mas a resposta era sempre a mesma:
- Nada à vista capitão, vamos mudar de rumo.
O desespero tomava conta dos poucos valentes marinheiros que ainda restavam.
Algum tempo depois falava novamente o capitão:
- Arriba, arriba gajeiro, que Deus te há de ajudar.
Quando o capitão pronunciou a palavra Deus, o diabo caiu ao mar. Como nunca se preocupara em aprender a nadar e com a consciência pesada que tinha, foi direto para o fundo.
A tripulação ainda tentou resgatar o amigo, mas em vão pois ele desapareceu no mar. Então o capitão nomeou o imediato para ser o novo gajeiro.
- Arriba, arriba gajeiro àquele mastro real. Vê se vês terra de Espanha ou ares de Portugal.
O gajeiro subiu ao mastro e respondeu:
- Não vejo terras de Espanha nem ares de Portugal, só vejo estarem três meninas debaixo de um laranjal.
- Essas três meninas, todas três são minhas filhas, todas três te as hei de dar. Uma é para te vestir, outra é para te calçar, a mais nova delas todas para contigo casar.
- Não lhe quero as suas filhas que lhe custaram a criar. Só quero a nau Catrineta para no mar navegar.
- A nau Catrineta não lhe a dou porque eu não lhe a posso dar. Porque ela é do rei, ao rei a vou entregar.
Assim termina a famosa viagem, embora saiba que pertence a uma grande odisséia.
E assim minha avó me contou.

Moral: “Espírito e consciência. Índole e inteligência.”
           “O bem não é essência, mas está acima dela em dignidade e poder.”

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Contos - As Aventuras do Padre Martelo


Era uma vez... Um padre que tinha o apelido de Martelo, por ter um martelinho de borracha. Nas pregações que fazia, principalmente quando ficava entusiasmado, ficava batendo com ele na grade de proteção do púlpito.
Era um grande pregador. Todos os dias trazia uma nova atração para entusiasmar os fiéis.
Também tinha o hábito de tomar um golinho de vinho antes da pregação. Dizia que era para desinibir.
E naquele dia ele estava mais entusiasmado do que nunca. Subiu ao púlpito e falou:
- Meus caros fiéis. Hoje vou fazer algo diferente. Vou fazer chover dentro da nossa igreja. Mas vocês precisam ter muita fé... Muita fé, mesmo... Senão não conseguirei realizar o milagre.
E continuou:
- Todos deverão ficar de olhos bem fechados. Se alguém se atrever a abrir os olhos, ficará cego para sempre. Lembrem-se: Nunca podemos duvidar do poder divino.
E começou a pregação: ... e Jesus disse...
No meio daqueles fiéis tinha um fiel espirituoso. Era muito religioso, mas devoto de São Tomé e seguidor de sua filosofia: “Ver para Crer”.
Depois de algum tempo o padre anunciou:
- E agora a nossa bendita benção. Fechem vossos olhos. E sentirão em vossas faces as lágrimas sagradas derramadas por Nossa Senhora no pranto de seu santo filho, Nosso Senhor Jesus Cristo.
Todos fecharam os olhos e levantaram os braços para o Céu.
Então Padre Martelo espargiu água para o mais longe que pode.
Aqueles que receberam a água gritavam:
- Milagre!
- Milagre!
- Mais um milagre do nosso Santo Padre!
O fiel espirituoso, jogando uma ducha de água gelada naqueles ânimos exaltados, gritou lá de trás:
- Foi o padre Martelo que jogou a água com o basculho.
Muitos dos fiéis não acreditaram, mas outros ficaram na dúvida. E começaram a lhe perguntar:
- Mas como é que tu viste?
- Tu não estavas de olhos fechados?
- Tu não ficaste com medo de ficar cego?
- Ah! Eu arrisquei um só olho - respondeu o fiel, o senhor Manuel português.

Moral: “O maior cego, é aquele que não quer ver.”


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