Em
Portugal (pelo menos na minha região), uma "Noite de Lamego” é uma noite mal
dormida. Sabe aquela noite em que a gente rola na cama e parece que o dia nunca
vai amanhecer...
O
por quê da noite em Lamego ter ganhado essa fama? Bem, vamos aos fatos:
Era
uma vez... Dois rapazes, um nascido em Lamego e o outro em Coimbra.
Eles
se conheceram quando ambos foram servir o exército no quartel militar do Porto.
Lá ficaram muito amigos e combinaram que o primeiro que tivesse um filho, o
outro seria padrinho. E assim foi. A primeira criança que nasceu, o outro
batizou e eles ficaram sendo compadres e amigos.
Tão
amigos que o compadre de Lamego de quando em quando arreava o seu burrão e
vinha passar uma semana na casa do compadre em Coimbra. E sempre ele
falava:
-
Ó compadre, vós tendes que ir me visitar também. Só eu que venho cá, só eu que
venho cá.
E
o outro respondia:
-
É muito longe compadre. E eu não posso ficar muito tempo fora de casa. Mas o
dia que eu tiver um tempinho, pode o compadre ficar certo que eu lá lhe
apareço.
Depois
de uma semana o compadre se despediu e disse:
-
Agora sou eu que lá o espero compadre.
Um
dia, quando o compadre coimbrão, ou coimbrês como queiram, estava com todo o
tempo disponível, arreou sua burrinha e preparou-se para a viagem.
No
caminho notou que a burrinha estava no cio. Levou-a para cruzar e quando chegou
a um lugar chamado Vouzela, viu numa casa de arreios um seirão pequeno todo
enfeitado. E pensou:
-
Vou comprar este seirão. Quando voltar da casa do meu compadre, o ponho em cima
do filhote e venho com ele asseado.
E
continuou a viagem. O compadre, que não esperava por ele, ficou todo contente ao
receber a visita de seu compadre de Coimbra. Foi ajudá-lo a guardar a burra no
curral, mas notou que trazia um seirãozito e perguntou-lhe:
-
Ó compadre? Por que vós trazeis este seirãozito?
O
outro respondeu:
-
Sabeis compadre, no caminho acheguei minha burrinha. Quando voltar para
Coimbra, vou aparecer em casa com o burrito todo asseado de seirão.
O
compadre de Lamego ficou a matutar:
-
Ele achegou a burra na vinda pra cá. São doze meses para a burra parir, mais um
ano para o burrito crescer. Quanto tempo meu compadre vai querer ficar aqui?
Ele
tratou muito bem o compadre. Ofereceu-lhe um jantar digno de rei e quando anoiteceu,
preparou-lhe uma cama na adega do porão. Deixou-lhe uma lamparina e falou:
-
Aqui tens esta caneca de litro, uma cesta de frutas, um saco de amêndoas e broas
de meada (feitas de farinhas de milho e de centeio). Se tiveres fome à noite é
só ir à pipa, tirar o vinho e comer com broa. Ah! Se quiseres fazer suas
necessidades, tendes aí essa selha que é para isso mesmo, pois as noites aqui
são muito compridas.
A
adega era escura e sem janelas, só tinha uma porta larga de entrada por onde
entravam e saiam as pipas de vinho.
O
compadre visitante estava muito cansado da viagem e falou que ia deitar-se mais
cedo, que o compadre não precisava preocupar-se em acordá-lo. A sua
burrinha era o seu despertador. Era ela que zurrava de manhã e o acordava
sempre cedo.
Ele
deitou-se na cama e logo adormeceu.
O
compadre de Lamego tinha uma lona grande para cobrir os cereais em dia de
chuva, e colocou-a a tapar a porta pelo lado de fora. Não queria que o compadre
visse nenhuma luz externa. Encheu a manjedoura da burra de trevo e foi se
deitar também.
O
compadre coimbrão dormiu até se fartar... e aquele dia que não clareava nunca,
e sua burrinha não o chamava. Era mais um litro de vinho e um pedaço de broa
meada que ele consumia. E ia para a cama mais um pouquinho. Levantava
novamente, mas continuava tudo em silêncio. Tomava mais uma caneca de vinho e ia
dormir outra vez. A selha já estava quase cheia e sua burrinha que não o
chamava. Mais um bocado de broa e mais uma caneca de vinho. A lamparina
continuava acesa, mas quanto azeite ela ainda teria para queimar? Já estava a
ficar desesperado. Aquela noite não terminava nunca? A selha estava cheia, a
lamparina já dava sinais que iria se extinguir a qualquer momento, mas até que
enfim amanheceu.
Depois
de três noites e dois dias, o compadre de Lamego abriu a porta da adega todo
sorridente e falou:
-
Bom dia compadre. Não estranha eu te chamar assim tão cedo. É que a gente aqui acorda
cedo mesmo.
E
o outro todo aflito:
-
Mas, então compadre! As noites aqui em Lamego são assim tão compridas?
-
Pois são compadre! E olha que ainda vão crescer mais, mas para a gente parece
que passam num instante.
-
Ai! - dizia o outro. - Eu é que não vou passar aqui mais uma noite dessas.
Arreou
a burrinha que estava até redonda de tanto comer. O compadre deu-lhe cinco
litros de vinho, uma broa, um cabaz de figos e ele foi embora. Mas, no meio do
caminho, parou em Viseu para dormir.
Lembrando-se
da noite que passou em Lamego, perguntou ao dono da casa se as noites ali em
Viseu eram tão grandes como as noites de Lamego.
-
Pois são - disse o homem. - As noites aqui em Viseu são iguaizinhas às noites
de Lamego.
Ele
montou na sua burrinha e falou:
-
Eu é que não vou ficar aqui num lugar destes. Vou tocar direto para Coimbra que
as noites lá são muito mais pequenas!
Moral:
“O conhecimento é a maior riqueza que podemos adquirir”.
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