segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Fábulas - O Bicho Homem



Era uma vez... Um leão em plena juventude, forte, valente e destemido. Um dia insinuou a seu pai o desejo de conhecer outras terras, sair em busca de aventuras. Mas seu pai o avisou:
- Escuta o conselho que eu te dou, meu filho: “De todos os bichos zombarás, só do bicho homem, não”.
O jovem leão, prepotente e estouvado, declarou:
- Saiba meu pai, que eu não tenho medo de nada, nem de ninguém.
Seu pai respondeu:
- Quem avisa amigo é.
Imediatamente o leão saiu à procura do tal bicho homem. Depois de alguns dias, já fora de seus domínios, encontrou com um cachorro que era só pele e osso, e perguntou:
- Você é que é o tal do bicho homem?
- Eu não sou o bicho homem - disse o cachorro - mas foi ele que me deixou assim. Quando eu era jovem, eu o ajudava em suas caçadas. Agora que sou velho e não aguento mais correr, ele me pagou com o abandono.
O leão rugiu:
- Se ele fez isso contigo, comigo há de pagar tudo o que vos fez.
E saiu à procura do bicho homem. Mais adiante viu um burro muito magro, que era só pele e osso, e perguntou-lhe:
- Você é que é o tal do bicho homem?
- Não, eu não sou o bicho homem, mas foi ele que me deixou assim. Quando eu era novo, trabalhava para ele o tempo todo. Ele me dava comida e muito trabalho. Agora que sou velho, me tocou de suas terras e me deixou ao abandono.
Estava o leão já pensando:
- Esse tal de bicho homem deve ser perigoso.
Continuou, então, em busca do bicho homem. Mais adiante encontrou um boi tão magro, mas tão magro, que nem para o açougue o quiseram.
O rei dos animais perguntou:
- Você é que é o tal do bicho homem?
- Não, eu não sou o bicho homem, mas foi ele que me deixou assim. Quando eu era novo e forte, trabalhava para ele. Era eu que arava a terra, que andava o dia todo a puxar o carro carregado, da casa para a fazenda e da fazenda para casa. Quando eu fiquei velho e não servia mais para nada, ele me abandonou. Nem na terra que eu tanto cultivei, não posso entrar.
Irado o leão pensava:
- Esse tal de bicho homem deve ser um animal muito perigoso.
Não muito longe dali...
- Acolá anda um bicho bem diferente! Será ele o tal de bicho homem? Se for aquilo, não vai dar nem para começar a brigar. Aquilo não aguenta um tapa no pé do ouvido.
O leão para lá se dirigiu. Quando o homem viu o leão não dava mais para correr. Então pensou:
- Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Como estava com uma enxada na mão,  não teve outro remédio a não ser enfrentar a fera. Andava a carpir as suas terras e a carpir ficou, fazendo de conta que não vira o leão.
O rei das selvas se aproximou e perguntou;
- Você é que é o tal do bicho homem?
Já raciocinando melhor, o homem respondeu:
- Sou eu sim, real senhor. Em que posso ajudá-lo?
O leão agora mais manso confiando nas palavras do homem, pensava: " O bicho homem não tem garras nem dentes. Não pode ser tão perigoso assim".
- Por uma questão de honra, quero ter uma luta contigo - rugiu o leão.
- Eu gostaria muito, alteza. Mas hoje é impossível, tenho uma empreitada muito importante a terminar. Venha amanhã a esta hora, que estarei à sua espera, neste mesmo local.
Convencido de que venceria a luta facilmente, o leão foi embora. Já o homem foi afundar mais o poço de onde tirava água para regar a plantação, que a aquela altura do ano, estava quase seco. Depois cortou umas varas finas e atravessou-as na boca do poço, cobriu-as com um pedaço de pano que tinha para lhe servir de abrigo, jogou um pouco de terra por cima e umas folhas de mato. Ficou lá de guarda, a noite inteira para que nenhum outro bicho lhe estragasse a caçada.
No dia seguinte, na hora marcada, apareceu o leão rugindo alto, pondo de orelhas em pé todos os animais das redondezas.
Já o bicho homem, do outro lado, esperava calmamente. Seu medo era que o leão aparecesse sem avisar. Assim avisando, sabia em que lado do poço devia se colocar.
O leão chegou sem grandes rodeios, não fez como faz para caçar outros animais, se arrastar sorrateiramente para dar o bote. Aquela luta havia sido contratada com antecedência. Ele iria rugir bem alto no fim da batalha e saborear sua presa.
O bicho homem esperava tranquilamente o leão que avançava. O animal avançou, avançou, avançou até cair dentro do poço. E lá ficou, sem comida, pouca água mas de sede não morreria. Ficou sem comida por muitos dias, tantos que já nem rugia. Tantos que nem conseguia ficar de pé, de tão magro que estava.
Um dia, quando o homem percebeu que podia com o leão, desceu lá em baixo, amarrou-o a uma corda e puxou-o para cima. Deu um tapa na traseira daquela montoeira de ossos e falou:
- Agora vai lá para a savana e conta tua aventura para os teus amigos.
O rei dos animais ia cambaleando quando encontrou o boi, que lhe perguntou:
- Tu encontraste o tal do bicho homem?
- Foi ele que me deixou assim - respondeu.
Encontrou outros animais que lhe perguntavam:
- Encontraste o bicho homem?
E ele sempre respondia:
- Foi o bicho homem que me deixou assim.
Ao chegar a casa, seu pai, quando finalmente o reconheceu, disse-lhe:
- Meu filho! Mas o que fizeram contigo?
- Foi o bicho homem que me deixou assim, meu pai.

Moral:  “A astúcia vale mais que a força”.

         " É melhor correr atrás ou correr na frente? 
           Depende do que vem atrás da gente. "



Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada a fonte de origem. 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Contos Antigos - A Velha e o Vento

 

Corria lá pela aldeia, ditado que Deus mantenha: “A quem Deus quer ajudar, o vento lhe apanha a lenha”.
Certa velha preguiçosa que nessa aldeia morava, ouviu, gostou da sentença e nela se sentenciava.
Não queria saber se merecia ou não que Deus a ajudasse, foi à lenha para o monte e disse ao vento que lhe a apanhasse.
Ora o vento ao que parece tinha lá seu pensamento, em vez de juntar, espalha-a, no que demonstrava ser o vento.
E a preguiçosa da velha o sol de inverno lhe valha, voltou para casa à noitinha sem trazer uma navalha.
Já se vê não fez fogueira naquela noite de invernia, e sentada à lareira quase de frio morria.
No outro dia lá volta ela ao monte, mas lembrando da lição, não diz ao vento que lhe a junte, junta por sua mão.
E diz a velha depois de consolada ao borralho: 
- O vento que Deus ajuda? Mais seguro é o trabalho.

Moral; “Quem quer, faz. Quem não quer, manda”.



Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada a fonte de origem. 

domingo, 21 de outubro de 2012

Conselheiros do Rei



Era uma vez... Um rei que, para experimentar o juízo dos seus três conselheiros, convidou-os a passear com ele.
Manhã bonita, dia de sol, rei e seus convidados se distanciaram do palácio, conversando sobre variados temas, como política, festas e economia. Ao passar por um campo cultivado, o rei encontrou um velho camponês e saudou-o:
- Muita neve vai na serra!
- Já Senhor é tempo dela - respondeu o camponês.
Os três conselheiros ficaram a olhar uns para os outros, porque era verão, sol brilhante logo cedo e eles não entendiam o que aquela conversa queria dizer.
Então o rei fez outra pergunta ao camponês:
- Quantas vezes te ardeu a casa?
- É Senhor! Por duas vezes.
- E quantas contas ser depenado?
- Ainda me faltam três vezes.
Mais boquiabertos ficaram os conselheiros. Agora eles estavam completamente perdidos.
- Pois se aqui te aparecerem três patos, depena-os tu - avisou o rei.
- Depenarei sim, Real Senhor. Pois assim me mandas - respondeu o camponês.
E continuaram em seu passeio. Ao chegar ao palácio, o rei disse aos conselheiros que iria tirar uma soneca e à noite os esperava para que lhes explicassem a conversa que teve com o camponês.
É claro que os conselheiros não entenderam nada do que sua majestade e o velho haviam conversado. Mas não querendo passar por ignorantes, combinaram  que, enquanto o rei dormia, eles iriam perguntar ao camponês.
Chegando lá, pediram-lhe para que explicasse a conversa que cedo tivera com o rei.
Disse o homem:
- Contarei sim, inteligentíssimos senhores. Mas terão que me dar toda a roupa, o calçado e o dinheiro que trazem consigo.
Os três, se queriam aparecer bem ao seu Senhor, não tiveram outro remédio senão entregar todos os pertences.
E o velho camponês começou:
- Quando o nosso rei me saudou: “Muita neve vai na serra!”, quis disser que eu estou cheio de cabelos brancos. Como já estou com mais de setenta anos, eles não vieram fora do tempo. Quando ele perguntou “Quantas vezes te ardeu a casa?” eu respondi duas vezes, porque já casei duas filhas. E “Quantas contas ser depenado?” lhe respondi que ainda me faltam três vezes. É que eu ainda tenho três filhas para casar. Como diz o ditado, se vocês não o sabem, quem casa filhas depenado fica. Os três patos, que ele me mandou depenar, são vossemecês, que me deram todo o dinheiro e roupas para eu vos contar a conversa que tive com o rei. Agora já podem ir dar explicações a vossa majestade, que ele deve estar à vossa espera.
E lá saíram os três reais conselheiros, só em ceroulas, até chegarem ao palácio.

Moral: “Quando o intelectual aponta o céu, o imbecil olha para o dedo.”



Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada a fonte de origem. 



sábado, 20 de outubro de 2012

Fábulas - A Justiça dos Homens



Era uma vez... Um pescador que andava pela beira da praia e encontrou um tubarão preso a uma rede.
Ele aproximou-se do tubarão que lhe pediu para que o soltasse. O homem ficou com pena do animal e libertou-o. 
Mas o tubarão que estava há muitos dias preso e com muita fome, assim que se viu solto, atirou-se sobre o homem e segurou-o para o comer. 
O homem muito aflito gritava:
- Mas isso não pode ser. Ainda agora te salvei da rede e tu queres me comer?
O tubarão respondeu:
- Vou-te comer para não morrer de fome.
- Pois não me comas sem antes escutarmos três conselhos dos três primeiros fôlegos vivos que encontrarmos. Se todos falarem por uma boca, está o julgamento aprovado. Mas se falar um por uma boca e dois por outra, a maioria é que vence.
Eles chegaram perto da terra, avistaram um burro velho e perguntaram:
- Óh burro! Por bem fazer, mal haver?
Respondeu o burro:
- Sempre foi e há de ser.
- E por que tu dizes isso? - perguntou o homem.
- Porque quando eu era um burro novo, meu amo até numa rede me trazia por causa das moscas. Quando ele ia montado, eu ia alegre e saltitante. Agora que sou velho, ele desprezou-me, deixou-me às moscas. Pagou-me o bem com o mal.
- Como vês, homem, um já está a meu favor - disse o tubarão.
Pouco depois passa um galgo velho em pele e osso.
Pergunta-lhe o homem:
- Por bem fazer, mal haver?
Responde o galgo:
- Sempre foi e há de ser.
- Por que tu dizes isso? 
- Por que quando eu era galgo novo, meu amo ia comigo para o monte à caça e eu corria aquela serra toda atrás de caça para ele. Tinha-me tanto amor que não dava um passo sem mim. Hoje que estou velho abandonou-me, deixou-me aqui ao Deus dará, que nem forças para procurar comida não tenho mais. Pagou-me o bem com o mal.
O tubarão já se preparava para comer o homem quando este disse:
- Alto lá, ainda falta um.
Apareceu então uma raposa e o homem perguntou-lhe:
- Por bem fazer, mal haver?
E a raposa respondeu:
- Não. Eu não posso lavrar a sentença sem antes ver o crime.
Pergunta o homem:
- Então como se há de restabelecer a cena do crime?
Responde a raposa:
- Volte o tubarão para a rede. Só assim nós teremos condições de reconstituir tão nobre causa.
O tubarão não gostou da decisão da raposa, mas por uma questão de justiça, foi para a rede.
O homem assim que o viu na rede, enroscou-o mais do que estava antes.
A raposa então falou:
- Agora que venha o homem cá para a terra.
Quando o homem chegou a terra, a raposa voltou-se para o tubarão e proferiu a sentença:

“Por bem fazer, mal haver.
Sempre foi e há de ser.
Quem quiser fugir que fuja.
Que eu assim vou fazer.”

O homem fugiu para um lado, a raposa para o outro e o tubarão ficou preso na rede.
Logo mais adiante, a raposa fingiu-se de morta, no caminho, à frente do homem. O homem chegou até ela e disse:
- Ai! Coitadinha da raposa. Ainda agora me salvou e já fizeram uma maldade destas com ela.
Pegou a raposa, tirou-a do caminho e disse:
- Descansa em paz amiga - e foi-se embora.
A raposa levantou-se e foi outra vez colocar-se no caminho à frente do homem a fingir-se de morta.
Novamente, o homem teve pena dela e tirou-a do caminho. Mas a raposa voltou pela terceira vez e deitou-se à frente dele. Achando que a raposa estava a fazer pouco caso, pegou uma vara e deu-lhe umas boas varadas.
A raposa se levantou e falou:
- Vês homem! Como me pagas o bem com o mal? Por bem fazer, mal haver.
Irritado o homem correu atrás dela. A raposa correu à frente, foi a casa do homem e comeu-lhe as sete galinhas que tinha na capoeira. Mas a porta da capoeira se fechava sozinha e só abria por fora. E a raposa ficou trancada lá dentro.
Quando o homem chegou a casa, viu a raposa trancada na capoeira e não viu as galinhas. Então pegou um pau e começou a correr atrás da raposa, que gritava:
- Perdoe-me, senhor juiz, que eu sete lhe comi, mas quatorze lhe darei, nem que eu à fome morra. Eu só não quero sentir, o peso da sua cachaporra.

Moral: “Onde não há justiça, não há direito”.
        “O juiz é condenado quando o culpado é absolvido”.




Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada a fonte de origem. 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Contos Infantis - O Pescador e o Lavrador

 

Dizia o Martim pescador para o João lavrador:
- Meu tetravô morreu no mar. Meu tri avô morreu no mar. Meu bisavô morreu no mar. Meu avô morreu no mar. Meu pai morreu no mar. E eu sei que também vou morrer no mar.
Indaga o João lavrador:
- Mas se seu tetravô morreu no mar! Se seu tri avô morreu no mar! Se seu bisavô morreu no mar! Se seu avô morreu no mar! Se seu pai morreu no mar! Por que você vai para o mar?
Retruca o Martim pescador:
- E os seus? Onde morreram?
Responde João lavrador:
- Meu tetravô morreu deitado numa cama. Meu tri avô morreu deitado numa cama. Meu bisavô morreu deitado numa cama. Meu avô morreu deitado numa cama. Meu pai morreu deitado numa cama. E eu sei que também vou morrer deitado numa cama.
E conclui o Martim pescador:
- Se seu tetravô morreu deitado numa cama! Se seu tri avô morreu deitado numa cama! Se seu bisavô morreu deitado numa cama! Se seu avô morreu deitado numa cama! Se seu pai morreu deitado numa cama! Por que você se deita na cama?

Moral: “É viver e aprender.”


Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada a fonte de origem. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Contos Infantis - O Menino e o Gato



Era uma vez... O menino Abel Faisão, que era bondoso, gentil e moço, estava sentado no chão a comer as papas* do almoço.
Dele se aproxima o gato, acompanhado do filho, ambos se atiram ao prato, lambendo as papas de milho.
Mostra Abel sorrindo os dentes, o seu olhar panteia, por ver os gatos contentes, com a barriguinha bem cheia.
Por seu turno, os dois bichanos, em paga de tais carinhos, vão da despensa aos arcanos, fazer caçada aos ratinhos.
Mostrando não ser ingratos, voltam a casa em tropel. E postiçaram quatro ratos, no prato do menino Abel.
Ao vê-lo chorar porém, volve-lhe o gato aprumado:
- Cada um dá o que tem, ninguém é mais obrigado.

Moral: “Cada um dá o que tem”
            “Só damos aos outros, o que de melhor temos no coração”

* Papas são um prato típico da culinária portuguesa.



Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada a fonte de origem. 


Contos Infantis - Aprendiz de Feiticeiro



Era uma vez... Um homem chamado Narciso, que era carvoeiro e tinha quatro filhos, Quidinho, Lilico, Nézico e Pitico. 
Seus dois filhos mais velhos seguiram a profissão do pai. Quando o terceiro ficou mocinho, disse que ia correr mundo, pois não desejava ser carvoeiro. E Nézico partiu.
Depois de andar algum tempo, chegou a uma terra estranha, viu uma casa grande muito bonita e pensou:
- Esta deve ser casa de gente rica! Quem sabe, talvez estejam precisando de um criado.
Foi falar com o dono do lugar, que lhe disse que estava precisando sim de criados. E perguntou se ele sabia ler e escrever. Nézico respondeu que sim, que sabia ler e escrever muito bem. Imediatamente homem mudou de idéia e disse-lhe que não, que não precisava de ninguém, que já tinha criados até demais.
O rapaz voltou para casa e contou a seu irmão Pitico, do tal homem que encontrou em tal terra, em tal casa. E falou para o irmão ir lá, que naquela casa estavam precisando de gente para trabalhar.
- A mim só resta ser carvoeiro - disse ao irmão.
Orientado por Nézico, Pitico partiu para a terra até então por eles desconhecida.
Sabia ler e escrever muito bem, mas quando o dono da casa lhe perguntou, disse-lhe que não, que não conhecia uma letra sequer. E foi contratado por uma temporada (ali só se admitia gente em época de colheita). Agora ele era o mais novo criado da casa.
Seu amo era um feiticeiro e guardava seus livros debaixo da cama. Por isso não queria criados que soubessem ler. Era um homem muito ocupado e andava tranqüilo, pois em sua casa só havia analfabetos. Pitico entrava e saía daquele quarto à hora que queria e começou a ler todos os livros.
Quando chegou à hora de acertar as contas, seu amo, que já não precisava mais de seus serviços, descontou de seu soldo despesas que não haviam sido contratadas, como moradia, cama e comida.
Partiu dali sem um tostão no bolso, mas levou consigo o melhor livro que encontrou.
Em sua casa, Pitico só lia, só lia e relia. Estudou o livro nos seus mínimos detalhes. Os irmãos que ganhavam dinheiro como carvoeiros, não queriam repartir com ele algumas moedas. E ele lhes falava:
- Vocês ainda vão se arrepender. Um dia vocês vão precisar de mim.
Quando Pitico percebeu que estava pronto para assumir responsabilidades, conversou com seu pai para que este participasse do seu negócio. Ele iria transformar-se num galgo e seu pai iria vendê-lo à feira. Mas alertou que não vendesse a coleira que o prendia por dinheiro nenhum.
E assim fizeram. Transformou-se num galgo muito bonito e na feira não faltaram compradores. Seu pai o vendeu por uma boa oferta, mas sem a coleira. O comprador não fez nenhuma objeção, pois queria mesmo era o animal. Levou-o para casa, mas no dia seguinte, o cachorro havia desaparecido. Fugira da casa do homem como um cachorro e chegara à casa de seu pai como gente.
Quando o dinheiro acabou, o aprendiz de feiticeiro transformou-se num boi e seu pai foi novamente com ele para a feira. Pediu a Narciso para não entregar a soga por dinheiro nenhum, para não complicar seus negócios. Ele não podia contar nem para o próprio pai os segredos de sua magia.
Era um boi bem grande e bem gordo, e foi vendido para o abate. Narciso tirou a soga e o aprendiz passou a ser apenas mais um boi que os negociantes haviam comprado. Mas pouco depois transformou-se num pássaro que voava do meio da manada.
O feiticeiro, que a aquela altura já dera por falta do livro, perguntava-se a qual empregado aquele livro podia interessar se eles eram todos analfabetos? Por isso, andava a procura de respostas.
O dinheiro da venda do boi acabou e o aprendiz de feiticeiro e seu pai saíram para outra feira. Ele agora se transformou em um belo cavalo branco e pediu a seu pai que não entregasse o cabresto de maneira alguma, por dinheiro nenhum.
Lá estava Narciso, com aquele belo exemplar de animal, quando dele se aproxima um comprador. Negócio fechado pelo valor pedido. Quando o homem ia pegar o animal, o vendedor disse que o cabresto não fazia parte do negócio. E o homem retrucou:
- Como eu vou levar este animal daqui? Eu gostei muito do cavalo, mas quero o cabresto também.
Não para cá, não para lá, e o homem ofereceu um bom dinheiro pelo cabresto. Mas mesmo assim, não houve acordo.
O homem dobrou a oferta e Narciso decidiu entregar-lhe o cabresto. Quem estava a comprar o cavalo era o feiticeiro, pois já fazia algum tempo que seguia a dupla, pai e filho. Sr Narciso não sabia disso, mas o cavalo branco sim. E lá saiu o cavalo branco, manso como um cordeiro, puxado pela arreata pelas mãos do feiticeiro. Não esboçou a menor reação.
Depois de andar um bom tempo pararam à beira da estrada onde havia uma venda e um pequeno rio. O feiticeiro amarrou o cavalo a uma árvore à beira do rio e foi até a venda para beber e comer alguma coisa.
O movimento de pessoas era razoável e o cavalo começou a puxar pela arreata em direção ao rio.
Passava por ali um menino que, vendo que o cavalo estava com sede, tentou desatar a arreata da árvore para ir dar de beber ao pobre cavalinho. Mas como a arreata estava fortemente amarrada, o menino não conseguia desamarrar. Então ele tirou mesmo o cabresto.
Nessa hora o feiticeiro apareceu.
Rapidamente o cavalo branco virou um peixe e mergulhou nas águas do rio. O feiticeiro virou uma fisga de aço e partiu para cima do peixe. O peixe pulou para fora d’água, virou uma pombinha branca e voou. O feiticeiro virou um gavião e danou-se atrás do aprendiz.
A pomba voava a toda a velocidade em direção ao pequeno lugar. Uma donzela, que estava à janela, viu o gavião a voar atrás da pombinha. A ave voou em direção a sua casa e entrou pela janela adentro. A moça fechou rapidamente a janela e o gavião não consegui parar a tempo e zás... foi de encontro a janela.
A moça pegou a pombinha, foi abrir a janela para ver o que tinha acontecido ao gavião e deu de cara com um homem que lhe falou:
- Ó minha simpática menina você quer me dar a sua pombinha?
- Não dou, não dou e não dou - dizia ela. - Não a dou nem por todo o dinheiro do mundo.
- Então troque a pombinha por este anel de brilhantes - e exibiu um grande anel de falsos brilhantes.
Os olhos da moça brilharam mais do que os ditos brilhantes, que respondeu:
- Então é toma lá, dá cá.
Na hora de fazer a troca, ao passar da mão da menina para a mão do feiticeiro, a pombinha virou um grão de milho e caiu ao chão. No mesmo instante, o feiticeiro virou uma galinha para comer o milho. Mas imediatamente o aprendiz de feiticeiro virou uma raposa e comeu a galinha.
Assim Pitico venceu o feiticeiro, pegou toda sua fortuna e veio para casa de seu pai. Depois casou-se com a moça da janela, tiveram muitos filhos e foram muito felizes.

Moral: “Quem nunca se aventurou, não perdeu, nem ganhou”.

Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada a fonte de origem. 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Contos Infantis - No Reino de Libelinha

                                                       
Sob os olhares do vovô, que dela não se afastava, na beira da praia, aquela menina brincava.
Toda atarefada, com seu baldinho carregava areia molhada para seu castelinho construir. Estava difícil conseguir.
Uma onda mais atrevida o seu castelo invadiu, a menina derrubou, e tudo destruiu, deixando-a enfurecida.
Quando a menina levantou, fez beicinho mas não chorou.
Correndo toda apressada para junto do vovô, passando língua nos lábios, perguntou:
Vovô, por que a água do mar é salgada?
Quem a pergunta fazia era Maria José ao avô José Maria.
O bom velhinho, que não esperava por esta, passando a mão sobre a testa e tirando o chapéu para refrescar a memória, respondeu:
- Essa é uma longa estória.
 - Oba! Uma estorinha! – comentou a menina largando o  baldinho. Conta, conta agora vovozinho.
Agora não é hora, esta hora é para brincar, estorinhas tem a noite para  contar.
O que vovô queria era tempo para pensar. Em outros tempos contaria mil estórias sem parar.
E quando a noite chegou, logo depois do jantar a menina chegou-se até o vovô em seus joelhos se ajeitou e tratou de perguntar:
- E agora? Está na hora de contar?
E quando e estória começou: “Era uma vez” ... a menina suspirou:
- Como eu gosto das estórias do vovô!

- “Há muito tempo atrás, quando tudo começou, havia um pai criador, um pai  que era inventor.
Ele é o ser supremo, Deus, Alá, Orixalá ou Jeová, para todos Ele é o mesmo.
Inventou o céu, a terra e tudo que mais existe. Inventou a natureza para tudo governar. A ela ninguém resiste, mas não sabe perdoar. E é imenso o poder que a natureza contém. Alguns dizem que ele é o Pai, outros que ela é a mãe.
Naquela época o sol tudo iluminava, mas a terra ainda era novinha, envolta em densa neblina e a luz até ela não chegava. Era a era dos vulcões, que existiam aos milhões e que a tudo destruíam. Mas seus rios de lavas se sobrepondo em camadas, a terra também construíam. E o reino mineral a natureza criava.
Foi preciso muito tempo, para a terra ficar mais serena, sua temperatura mais amena. Com os vulcões menos famintos, muitos deles já extintos, um novo reino despontava. Era o reino vegetal que a natureza nos dava. E uma enorme floresta crescia.
A mãe natureza, que a tudo assistia, declarava:
- Agora criarei meu último reino afinal. – E surgiu o reino animal.
O reino animal muito rápido se expandiu, vivendo em harmonia, uns aos outros respeitavam.
Imediatamente outras forças protestaram. Eram os demônios do mal, que por inveja ou despeito, nunca tiveram respeito, por qualquer ser que não lhes fosse igual.
Moravam nas profundezas, eram do mundo das trevas, tinham o poder da magia. Incendiavam e matavam tudo que aparecia.
E assim se iniciava o mundo da fantasia .
A natureza foi apanhada de surpresa, seus filhos estavam desprotegidos. Não estava preparada para tão terríveis inimigos.
Aqueles seres malfeitores, possuíam forças superiores a tudo que existia. E assim eles deixavam a terra quase vazia.
Depois de tanto destroço, sem fazer grande alvoroço, a natureza protesta, junta tudo que lhe resta, e lá no meio da floresta um novo reino surgia.
A nossa mãe natureza, que seus filhos não despreza criou, uma força maior, era o reino do amor, onde não entrava magia.
 Havia ali uma menina. Seu nome era Libelinha. Na verdade bem feinha, mas como era boazinha, logo os seus amigos fizeram dela rainha.
Quando os demônios souberam que esse reino existia e isso que chamavam de amor tinha mais poder que a magia, acharam que o amor era pior que a própria luz do dia. Para eles um horror! Como podia alguém, que da terra nascia, sentir esse tal de amor?
- Acabarei logo com isso! – O rei dos demônios dizia. – É só pôr-lhe um feitiço e a esse amor darei sumiço. Se for amor que ela sente e se a mim ela der todo o amor que tiver, farei dela uma serpente, nunca mais será mulher.
Com tudo já planejado, aquele demônio malvado, em príncipe se transformou. Porém, o que ele não sabia era que se como príncipe entrasse, só como príncipe sairia.
Protegida por seus amigos guardiões, tigres, onças, leões, corujas, corvos e falcões, Libelinha era guardada com muito amor e carinho.
Mas o maior perigo, o seu pior inimigo, vinha em forma de menino. Demônio destruidor, sem alma nem coração, era amante da traição e era pai do terror. Os seus amigos poderiam dar-lhe alguma proteção?
Aquela estranha criatura só andava em noite escura, aparecendo ás vezes a alguém para perguntar como poderia ele ao reino do amor chegar.
Tanto perguntou, perguntou, que um dia uma ave lhe falou:
- Vá em frente meu menino, siga as trilhas da paixão. Se for esse seu destino, não saia desse caminho, siga o seu coração. No reino que se aproxima, encontrarás luz e calor, encontrarás uma menina, é o reino do amor.
Como poderia aquela criatura mesquinha, sentir ou saber para onde ir, se nem coração ele tinha? Andou, andou, andou a esmo, perdido mesmo. Só então ele sentiu que ali nada valia o seu poder de magia.
E no momento em que viu a alegria da bicharada, os bichos dando risada, como ficou indeciso: no reino de onde vinha, não existia o riso! Não sabia como agir, mas tinha uma certeza, ele iria destruir o amor na natureza.
Numa noite escura, o nosso vilão ruim procura, tanto procura, até que acha o seu fim.
O corvo negro crocita. É o seu grito de alerta, anunciando a visita. O reino todo desperta.
 Todos chegaram para ver. Quem era? De onde vinha? Estavam prontos para defender, o reino de Libelinha.
Mas aquele ser tão só, frágil e desprotegido, a todos causava dó. Não oferecia perigo.
- Venho de um reino distante.- Dizia o estranho viajante.- Eu sou do mundo de Adan, venho em uma missão importante e sou o príncipe Satã. Quero conhecer o amor, quero saber onde mora.
A sábia coruja responde:
- Ora! Ora! Conhecer e onde mora? O amor só se sente, mora no coração da gente!
- A lebre sai pulando, aflita, gritando:
- Tem visita, tem visita. É um príncipe muito belo que mora num enorme castelo! – A bicharada nem ligava, por que as vezes a lebre exagerava.- Podem crer, não é mentira minha, venham ver. Vamos acordar Libelinha.
A menina se levantou, esfregou os olhos e acordou. – Oi! – disse ela, aquela feinha bela, ainda com carinha de sono, indo sentar-se em seu trono.
- E agora podem dizer-me o que foi que o macaco aprontou desta vez? Para eu ser acordada a esta hora da madrugada, o que de tão grave ele fez?
E a lebre assustada:
- Não majestade, não foi nada. É que tem um príncipe aí fora que quer conhecer você.
- Ora, ora! Deixe de prosa. Conhecer-me? Por quê?
- Xi! Ela não sabe. – Comentou a astuciosa raposa. – Que existe amor diferente, que para amarmos de verdade, tem que ser igual a gente.
Quando para fora olhou, Libelinha corou. Ficou vermelhinha quando avistou aquele ser esquisito, que apesar de bonito causou-lhe arrepio. Parecia vazio.
Ao cumprimentá-lo Libelinha sorriu. Satã que não sabia sorrir e disposto a seu intento conseguir, o gesto imitou. Seu cenho franziu e os seus dentes mostrou.
- Sentimo-nos honrados com a sua visita, meu nobre senhor. Seja bem vindo ao reino do amor.
E aquele menino, que de bobo nada tinha, partiu para a conquista do amor de Libelinha.
- A honra é toda minha, encantadora menina.
E foi assim que um grande amor começou. Durante todo o dia Libelinha lhe mostrou o que de mais belo possuía.
O verde da mata, o riacho de prata e a cascata na serra, que de tão alta que era, no ar se esvaía sem chegar a terra, formando um enorme véu e um arco-íris no céu.
Subiram o monte, apanharam frutinhas para o jantar, beberam água da fonte, colheram flores, num mundo de cores, de beleza sem par.
A tardinha apreciaram o pôr-do-sol, escutaram o murmúrio do vento e a todo o momento o canto do rouxinol.
E aquela menina, que só conhecia a bondade, aos poucos era envolvida pelo gênio da maldade.
Os dias foram passando e ao príncipe encantado, agora seu namorado, Libelinha estava amando.
Era um amor profundo, amor puro e verdadeiro, era o seu amor primeiro, o primeiro amor do mundo.
Onde existe amor existe mentira, fofoca, briga, ciúme e a dor. Vence o mais forte, o destemido, o que tiver melhor sorte, o mais sabido. Perde o ingrato, o resignado, o azarado, perde o mais fraco.
A Satã só interessava todo o amor lhe tirar, mas quanto mais ela lhe dava, mais amor tinha para dar.
Tinha certeza de onde vinha; todo aquele amor saía dos olhos de Libelinha. E a menina acompanhava o seu príncipe sedutor, garota apaixonada é presa fácil da dor.
  Satã já preparava a vil e reles traição, achando que só assim terminava de cumprir sua missão.
Havia alguém desconfiado, era o falcão matreiro, que mesmo mais afastado, via o olhar traiçoeiro. Aos outros ele avisava do perigo e da ruína e a todos alertava:
- Guardem a nossa rainha.
Satã depois de ter invocado os seus poderes de magia, mandingas e bruxarias sem obter resultados, via seu trabalho frustrado, sem compreender a razão...
 E no meio da escuridão, a casa de Libelinha ele rondava. A menina coitadinha, sem perceber os perigos, guardada por seus amigos, sonhava.
Em seu sonho, pelo bosque ela corria a seu príncipe abraçada, quando acordou assustada. Fazia tempo que ela não o via.
- Por que será que ele não vem? Será que ele está doente? Ele não gosta mais de mim! E foi pensando assim que adormeceu novamente.
E ele bem perto, no meio da floresta, procurava uma brecha para na casa entrar. Mas os bichos mais espertos dormiam de olhos abertos, para o príncipe enganar.
A guarda dobrada, de garra afiada, por ele esperava. Satã era arisco, sem querer correr risco, não se aproximava.
  O tempo passava e ele tinha que agir. Foi então que pensou em usar outro meio, para a menina atrair. No outro dia bem cedo, sem grande rodeio, um mensageiro chegava. E fazendo segredo à menina contava:
- Amanhã de manhã na trilha da pedra, o príncipe Satã, por você espera.
Libelinha nem acreditava no que acabara de ouvir. É claro que iria, era o que ela mais queria. Levantou-se de madrugada, não conseguia dormir. Arrumou-se bem bonita, no cabelo uma fita de folha de mato, uma pulseira no braço, de mato também, um perfume de erva, uns sapatos de relva e o sorriso que tem. Partiu sorridente, feliz e contente ao encontro de alguém.
 Enquanto seu algoz por ela esperava, a menina corria veloz, não corria voava, coração disparado. Que felicidade! Ele era o culpado de tanta saudade.
Depois de muito correr, avistou um vulto adiante. Ficou irradiante com a imagem que via. Aquele sovina para ela acenava, seu nome chamava e até lhe sorria.
- Libelinha, Libelinha.
E o encontro amoroso, com aquele monstro monstruoso, não podia ser melhor. O príncipe todo dengoso, delicado e formoso, andava ao seu redor. Mostrando-se enamorado, da menina debochava. Passava a mão em seu cabelo e com jeito safado declarava:
- Nunca vi nada tão belo!
Coração apaixonado, sem tempo para refletir, deixava-se conduzir pelas mãos do seu amado.
- Vem comigo, minha querida! – dizia o falso galã – Comigo estarás protegida. Vamos andar, vamos correr, quero ver o sol nascer. Está tão bela a manhã!
Só depois que muito andou, com seu príncipe protetor, viu o quanto se afastou do seu reino do amor. Mas estava confiante, seu amado era brilhante, era um príncipe valente, corajoso e experiente.
Chegava a hora da decisão e aquele menino sagaz mostrava que era capaz de cumprir sua missão.
 - Sente-se aqui ao meu lado – dizia ele sorrindo – que já estou cansado. Olha, o sol está saindo.
Libelinha perto dele se sentou e era tanto amor que daquele olhar saía quando para ele olhou, que até parecia que toda a floresta incendiar-se-ia.
Mas era pouco, pouco, muito pouco. Muito mais ele almejava, muito mais. E como louco, louco, muito louco, mais louco que o pior dos animais, só pensava: ”Quero mais”.                    
Aquele ser maldito já preparara a trama. Todo amor ele queria. Só que ele não sabia que o amor é infinito no coração de quem ama.
Mas agora que descobrira onde todo aquele amor nascia, não ficaria no prejuízo. Iria tirá-lo, ou mesmo roubá-lo, se fosse preciso.
 - Feche os olhos – dizia ele para a inocente – trago aqui um presente para lhe dar. Só abra se eu mandar.
 Maldoso como ele era e ali com a nossa menina desprotegida, sozinha, ao pé da serra, era uma vez Libelinha.
Como o ressoar de um trovão, pela floresta ecoou um grito de dor. Com os espinhos da traição, os olhos de Libelinha ele furou para roubar seu amor.
Entretanto, o que deles brotou, o que aquele olhar continha, não era amor, era água.
Bem depressa uma poça se formava com a água salgada das lágrimas de uma menina.
Enquanto seu príncipe fugia, sem rumo, sem direção, sem saber para onde ia, aquela garota chorava, chorava noite e dia.
A poça virou um lago e o lago virou um mar. Seus amigos a seu lado, sem nunca a abandonar, um a um se transformaram para com ela ficar.
Peixe elefante, peixe tigre, peixe cavalo, peixe cobra, peixe cabra, peixe galo. Peixe lobo, peixe víbora, peixe coelho, peixe morcego, peixe papagaio, peixe vermelho.
Peixe javali, peixe voador, peixe macaco. Peixe escorpião, peixe toupeira, peixe sapo.
Peixe cigarra, peixe aranha, peixe gato. Peixe pombo, peixe porco, peixe rato.
Peixe soldado, peixe espada, peixe martelo. Peixe lima, peixe agulha, peixe prego.
Peixe mola, peixe pau, peixe serra. Peixe lenha, peixe lanterna, peixe pedra.
 Até o leão bonzinho virou leão marinho para ficar perto dela.
O coisa ruim estava perdido, já lamentava ter vindo. A água subindo, quase encobrindo toda a floresta e ele sem conseguir sair desta,
Não conseguia a saída encontrar, todos os caminhos o levavam ao mar. Já desesperado andava como louco de um lado para o outro, andava sem parar. Corria na direção onde o sol se escondia, fugindo para bem longe da Serra do Mar.

 Passaram-se os dias, tantos e tantos, que ele não sabia quantos. Entretanto, depois de muito correr, em algum lugar começou a ver uma enorme serra. Sabia porém que não era a mesma porque não via o mar. Enquanto para lá se dirigia pensava no que faria quando chegasse ao seu mundo da magia.
Porém percebeu que algo em seu peito batia. Era uma pancada que ele antes não conhecia. Era a maldição. Sentiu o bater de um coração.
 Sentiu  fadiga e um leve tremor, este foi o preço que pagara pelo tempo que passara no reino do amor.
 Este pequeno tropeço não acontecia a toa. Lembra o que falei no começo? A natureza não perdoa. Ele recebia a punição, não podia deste mundo sair sem sentir o amor, a dor, a paixão.
 A noite chegou e veio o cansaço. O rei dos demônios deitou-se no meio do mato onde dormiu na noite gelada. Dormia e sonhava com este mundo estranho. Mas como podia sonhar se nem era humano?
  Em seu sonho era menino, digno, crédulo e ingênuo. Andava pela floresta e para todos sorria. Todos lhe faziam festa e festa a todos fazia. Era irmão de Libelinha, corriam pela colina, faziam versos a lua.
 O seu sonho continua ainda mais complexo, está ficando sem nexo. Brincava com Libelinha, segurava em suas mãos. Não, não eram irmãos. Mas então o que ela tinha que dele só se afastava? Libelinha só chorava. De onde vinha tanta água?
- Vem para mim, minha querida. O que é que você tem? Você é tudo em           minha vida.
Sem conseguir vê-la e com medo de perdê-la, ele chorava também. A água era  tanta que de seus olhos corria, e os suspiros eram tantos, que a terra toda tremia.
O uirapuru cantava anunciando a alvorada, era o sol que ressurgia. Quando ele abriu os olhos, o garoto moribundo, viu que deles nascia o maior rio do mundo e que para o mar ele corria.
Acordado refletia:
- Mas que complicado! Que mundo é este onde tudo acontece e me deixa louco? Tem um sol que se esconde de um lado e aparece do outro. Tem flores no campo onde o amor é o encanto, tem frutos sobrando, aves cantando, tem olhos que choram onde todos se adoram. Tem lua, luar e tem mar, tinha...- Ele ia dizer Libelinha e pensando nela se pôs a chorar.
Longe do reino do amor, iria mostrar quem era o pior. Não teria mais com que se preocupar, estava livre do azar. O feitiço estava desfeito, um coração não batia mais em seu peito.
Livre para decidir, que caminho seguir. Era só se transformar e ao seu mundo voltar.
- Mas por que isso agora? Se não tenho mais coração, se já cumpri minha missão, é só sair, ir embora. Por que esta indecisão?
Por que estava angustiado? É que havia sido contaminado, pelo vírus da paixão.
Para afogar suas mágoas em peixe rei se transformou, mergulhou naquelas águas e para o mar ele nadou. Uma vez peixe, peixe sempre seria, ele das águas jamais sairia.
Nadava por esse mar imenso, procurando sem descanso alguém que tanto amava.
Depois de muito tempo, muitos anos talvez, em certo momento ele viu outra vez algo que conhecia.
Era o mesmo lugar, tinha certeza que era. Procurou Libelinha e achou a menina no meio dos escombros, em forma de pedra. Foi se aproximando, a pedra abraçou e seus olhos dois rombos ainda chorando, o menino beijou. Pedia perdão com fé e fervor e com tanto amor em seu coração que o encanto acabou. Aquela menina feia virou uma linda sereia.
A notícia se espalhou:
- Libelinha voltou, voltou Libelinha, voltou a nossa rainha.
Não querendo perder mais tempo, naquele momento, o peixe rei fazia um pedido:
- Case-se comigo.
Libelinha aceitou. E entre sorrisos seus amigos começaram os preparativos para o maior acontecimento que a terra jamais presenciou.
No dia do casamento, o narval imponente marchava à frente. Empunhando o seu arpão com a bandeira verde e amarela, no meio um coração, era este o símbolo da grande nação.
Depois vinha a grande armada com os peixes espada, os peixes serra, os peixes soldado, os peixes pedra.
Até dos confins do mundo vieram as estrelinhas da festa participar. As coitadinhas viram tudo lá do fundo, porque não sabiam nadar.
A lua, também distante, um filho seu mandou. O peixe lua ficou radiante e para casa não voltou.
Todos pararam para ver o grande balé das sardinhas e a evolução das tainhas. Sem aos outros desmerecer eram na verdade os golfinhos os melhores dançarinos.
E o grande cortejo chegava ao fim e se aproximava a hora do sim.
- Sim - disse ele.
- Sim - disse ela.
 Aquela menina estava casada com quem tanto amava.
Tiveram muitos filhinhos, encheram o mar de peixinhos. Com o amor sempre presente, foram felizes para sempre.
A mãe natureza gostou, a estória terminou.”“.
E agora, cadê o beijinho do vovô?
A menina beijou o vovô, fechou seus olhinhos e em seu ombro se debruçou.
Tão pequenina e cheia de manha, era assim que Mariazinha, todos os dias ia para a cama.
E lá chegando veio o pedido:- Conta de novo vovozinho querido.
A paciência que um avô tem é bem superior a do pai ou da mãe. Passando a mão na fronte de sua netinha, recomeçou.
- Era uma vez uma menina muito linda, muito linda!...
Mariazinha retrucou:
- Não vovô, era feinha.
Mas a estória não foi muito avante, pois quase no mesmo instante, Maria adormecia.



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