A tarde estava fria para um dia de verão.
Ondas encrespadas, mar irritado. Um
paraíso, para os surfistas, é claro. Estes sim, pareciam adorar. Porque a Maria
José só reclamava. Foi à praia só para andar? Nem podia entrar na água?!
Mariazinha, pequena ainda, era bem
franzina, mas como andava! Coitado do avô José Maria! Não que ele fosse frouxo,
mas para acompanhá-la precisaria ser no mínimo vinte anos mais moço. Entendida,
era sabida. E o que não sabia perguntava. Ainda bem que tinha olhando o mar. À
sua frente, Maria brincava. E vovô a repreendia:
- Ò Maria, sai da água que o tempo está
frio.
- Que frio, que nada. Este vô tem cada
uma!
Carregava punhados e mais punhados de
espuma, mas não entendia por que o seu baldinho continuava vazio.
Foi então que, olhando o mar, viu tanta
espuma que a fez pensar:
- Por que será que há tanta espuma na
água do mar? Vou ao vovô perguntar.
E seu avô meditava; olhava distante o
horizonte, tão pensativo. Naquele momento, seu pensamento buscava no tempo um amor
perdido.
Ficou até surpreendido com o susto que
levou. Estava tão distraído quando o vovô Zé. Esse sim, sabia tudo.
Já exausto, cansado de tanto andar, o bom
velhinho descansava, sentado na areia a menina perguntou. Ela, de tanto
entusiasmo, até seu nome trocou:
- Zezé vô! Por que tem tanta espuma na
água do mar?
- Por que o que? O que foi que você me
perguntou?
- Ora, ora, vovô Zé. Que absurdo! Não vá
dizer que o senhor não escutou. O senhor está surdo?
Surdo não, ele apenas ouvia mal. Porém
isso na sua idade não chega a ser novidade. É caso quase normal.
Até que ele escutara a pergunta da
garota. Todavia, não queria acreditar e pensava na resposta que deveria lhe dar.
- Esse é um outro conto do qual agora
lembrei. Eu te conto ponto por ponto, entretanto, só à noite contarei.
E começou o desafio para o vovô. Tão
pouco tempo que tinha, para um novo conto inventar.
Para a menina o tormento; tanto tempo que
esperar.
Porém chegou o momento de começar a
contar. E o conto começou:
- “Era uma vez: - Na terra dos sem
dinheiro...
Tinha esse nome tal terra por causa de um
feiticeiro que naquele mundo reinava. Seu nome era Rodavlas, homem muito mau,
sem coração. Fingia que era bom, mas a todos enganava.
Terra de pescadores, lá não havia mais
nada, era do mar que tiravam, o sustento da família.
Pescavam o dia inteiro para conseguir
algum dinheiro, porém, pouco lhes valia, porque era o feiticeiro quem comprava
a mercadoria.
Pagar, até que ele pagava. E muito bem!
Mas também... era tudo fantasia. Depois tudo lhes tirava com sua feitiçaria.
Orimar era um dos pescadores que moravam
por lá, com sua esposa a bela Ana e sua filha Mariá.
Pobres, muito pobres, como os outros do
lugar. Viviam em um casebre, numa rocha em frente ao mar.
Em seu pequeno barco, todo o santo
dia Orimar saía para pescar.
Em casa, sua filhinha passava o dia a
rezar, pedia para Possêidon, o deus do mar, mantê-lo sempre bom, até seu
paizinho voltar.
Quando seu barco aparecia, voltava com
ele a alegria daquele humilde lar. Com o coração em chama, abraçava a bela Ana
e sua filha Mariá.
O tempo ia passando e Mariá ia crescendo.
Com dez anos, a menina estava ficando mocinha. E Orimar, que na terra só tinha
o amor da família, era no mar que sentia o quanto aquele amor valia. Sentada na
praia, Mariá rezava e com as ondas conversava. No entanto ao que parece, o mar
escutava sua prece e vinha seus pés beijar. Mariá corria para ele, que lhe
fugia.
Possêidon, ou deus Netuno, que das águas
via tudo, de lá gritava:
- Vai para a terra, Mariáááá.
E Mariá obedecia, pois o mar a entendia,
ele era seu amigo e a avisava do perigo.
Contudo, apesar de bondoso, o mar não era
nada generoso. Já fazia muito tempo que seu pai pouco pescava. Trazia apenas o
sustento da família e nada mais lhe sobrava.
logo agora que precisava de uma boa
pescaria, pois queria comprar um vestido para presentear sua filha.
Sonhava com Mariá na primeira comunhão,
vestida de branco, acompanhando a procissão. E pedia a Possêidon que o ajudasse
a cumprir sua missão.
Entretanto o deus do mar, se o escutava,
devia ter sua razão, porque à tarde ele voltava sempre com a mesma porção.
Ao se aproximar do grande dia,
Orimar andava preocupado por não haver conseguido uma boa pescaria para comprar
o vestido.
Mariá era menina simples como as outras.
Sua roupa? Qualquer pano, qualquer chita, ela era sempre bonita, como poucas.
Sua mãe, mulher faceira, dedicada e
trabalhadeira, não se cansava de perguntar por que ela tanto ficava sentada à
beira mar enquanto seu pai pescava.
E a menina respondia:
Minha mãezinha querida, não fique
preocupada assim, que o nosso dia chegará. Escute; quão linda melodia! O mar
chamando por mim... Mariáááá, Mariáááá.
Outra vez Orimar voltava de mais uma
pescaria. E ainda não era naquele dia que seu sonho se realizaria.
Era o que ele pensava, porque de repente,
ali à sua frente, viu boiando na água o mais belo presente que Possêidon lhe
ofertava.
Via e não acreditava, um vestido para
Mariá tal e qual ele imaginara. Um longo vestido branco todo tecido em renda. E Orimar
chorando, a seu Deus agradecia, achando que não merecia tão generosa oferenda.
Ao chegar ao povoado, o seu tesouro
guardou e a ninguém ele revelou o que havia encontrado. Se o feiticeiro
imaginasse o que tinha acontecido, lhe tomaria o vestido antes que a festa
começasse.
Ainda bem que feiticeiro não adivinha;
esses ele poderes não tem, trabalha só com magia.
Depois, era quase certo, que Rodavlas
ficaria mais esperto.
Chegou o grande dia pelo pai tão
esperado. Mariá naquele vestido parecia uma princesinha, era a mais bela menina
que no povoado existia.
Havia alguém a observá-la mais a fundo.
Era Rodavlas, o terrível feiticeiro, o homem mais traiçoeiro que existia no
mundo.
Como era dia de festa, ele também fazia a
sua.
- E o que fazia Rodavlas? – Pergunta
Maria José.
E responde o vovô Zé.
- Despejava pelas ruas dinheiro às
toneladas.
Porém, o povo já acostumado, nem ligava.
Não era a primeira vez que isso acontecia. Antes que a festa acabasse ele tudo
lhes tomava, era tudo fantasia.
E os pobres, tão pobres! Só não eram
pobres de alegria. Cantavam e dançavam até o raiar do dia.
Só uma coisa Rodavlas não conseguia, era
o amor de alguém. E não foram poucos os seus desenganos. Passou dias, passou
meses, passou anos, tentando seduzir a pobre Ana. E agora, cheio de manha,
tentava a filha também.
Não seria por causa daquele vestido feio
que iria desistir. Sabia de onde o vestido veio. Iria se prevenir contra aquele
Possêidon insolente e não deixaria que acontecesse novamente. Já pouco tempo
faltava, Mariá estava ficando moça. Mas não teria com que se preocupar, ele não
era trouxa para se deixar enrolar, principalmente por aquele que vivia no mar.
Na terra, ele mandava. Possêidon? Só fazia onda, mais nada!
O tempo passava e Orimar pescava. No mar,
que era seu espelho, via-se um pouco mais velho. Não tanto pela idade, mas pela
labuta da vida, buscava a felicidade, para a filha Mariá e sua Ana querida.
Mas o destino é cruel, e também a Orimar
não perdoou. Saiu um dia para pescar em seu pequeno batel, mas do mar não
regressou, deixando a Deus dará sua esposa Ana e sua filhinha Mariá.
E Rodavlas preparava uma talentosa
armadilha. Se não conquistara a mãe, não perderia a filha.
E o presente mais belo, a ela oferecia.
Era um vestido amarelo, cravejado de brilhantes, bordado com diamantes, que até
no escuro luzia.
Encantada, a inocente aceitou e para casa
levou tão valioso presente, sendo pela mãe repreendida:
- Se amor você não sente, não aceite,
minha filha. Devolva esse vestido. Esse homem que o deu vai querer ser seu
marido.
- Meu marido?! Deus me livre! Não quero,
nem penso nisso.
Porém, aquele vestido era somente um
feitiço, do qual Mariá não conseguiria se livrar. Não tinha nenhum valor, era
fruto da magia, daquele feiticeiro malfeitor. Fingia ser seu amigo, mas era um
grande inimigo, avesso de redentor, pois escrito ao contrário, seu nome seria o
“Salvador.”
Mariá correu para o mar e rezava,
implorava, porém, não mais escutava ele chamando por ela.
E chorava arrependida, desorientada da
vida, sem seu pai para socorrê-la. Era imensa a sua dor. Ela não era a culpada,
havia sido enganada, só casaria por amor.
Pedia a Possêidon proteção, que lhe desse
o seu perdão, que voltasse o mar a ouvi-la e que com ela conversasse.
Possêidon o rei do mar, não podia dele
sair, pois só ali tinha forças para poder decidir. Teria de esperar o momento e
atrair aquele feiticeiro avarento, para o seu poder destruir.
- O que tinha preparado? – Perguntou de
novo Mariazinha.
E o vovô continua:
- Bem o plano já havia começado.
Entretanto, Rodavlas, dono de tudo na
terra, fazia e desfazia. Mas não tudo o que ele queria. Havia uma força maior,
a força do amor, ele não conseguia vencê-la.
E até a Ana bela, que a princípio
rejeitava as ofertas de Rodavlas, não via que ele a enganava. Tudo que ela
queria ele dava. De tudo que usufruía, um único bem possuía, era a filha Mariá.
E esse bem, ele queria lhe tirar para com ela casar.
Pobre mãe! Estava enfeitiçada também.
Mariá desesperada, muito triste, só
chorava, era grande seu tormento. Enquanto sua mãe, seduzida pelo dinheiro,
marcava com o feiticeiro o dia do casamento.
Mariá foi até ao mar e contou a triste
notícia. Porém como este não respondia, queria ali ficar sentada até seu
paizinho voltar. Todavia, todo o dia, Possêidon sempre esteve lá.
Estava ali à sua frente, naquele dia mais
presente, que então lhe falou:
- Vai para casa, Mariá, tua hora não
chegou. Quando tua hora chegar, escutarás eu te chamar. Vestirás teu vestido e
traz o outro contigo. Aqui irás me encontrar.
Mariá, enxugou suas lágrimas e foi para casa. Mudou até o seu
comportamento, chegando mesmo a concordar com o tal de casamento.
E o dia marcado chegou.
Na terra dos sem dinheiro, uma grande festa começou.
Por ordem do feiticeiro, era tudo ouro e dinheiro! Tudo que havia
roubado, estava lá, nas ruas, amontoado.
E o mar baixinho murmurava:
- Mariáá, Mariáá, Mariáá.
A hora se aproximava. Mariá disse à sua
querida mãezinha:
- Vou ao meu quarto para me arrumar
melhor, quero lá estar sozinha. Não precisa se preocupar, antes que a hora
termine, eu estarei no altar.
O povo gritava, e dava vivas á Mariá. Era
promessa do feiticeiro distribuir todo o dinheiro, e o povo, desta vez,
acreditava. Enquanto seu noivo, impaciente na capela, esperava por tão formosa
donzela.
Mariá saiu do quarto, sua mãe se
espantou. Aquele não era o vestido que seu noivo lhe ofertou!
- Ora, mãe, que cara é essa? Não vê que
este é o vestido próprio para a festa?
Com o vestido dourado em suas mãos
enrolado, pelas ruas ela seguia. Estava traçada a sua sorte.
Os sinos anunciavam o grande dia. E o mar
agora rugia forte:
Mariááááá, Mariááááá, Mariááááá.
Mariá saiu correndo e o povo atrás
gritando:
- Viva Mariáá! Viva Mariáá!
Seu noivo saiu da capela e ficou à sua
procura.
Quando a viu correndo, com aquele
vestido, em outro sentido, não teve dúvida, sua noiva o enganou.
Com grande fúria, em gaivota se
transformou, e, o mais veloz que pôde, em sua direção ele voou.
Entretanto, já era tarde; Possêidon em
seus braços a recebia e com ela nas águas desaparecia.
Mas para Rodavlas era fácil, muito fácil
de a encontrar. Com seus olhos de gaivota e aquele vestido de renda branca, era
só localizá-la e mergulhar nas águas do mar.
Sim, ele sabia que na terra o Possêidon
não mandava. Por isso, não precisava obedecer à sua lei, só que ele se esquecia
que no mar Possêidon era rei.
Entretanto, aquele vestido branco possuía
um encanto. Para esconder Mariá, Possêidon o transformou.
O feiticeiro se espantou ao ver tanta
renda branca na água a flutuar. E assim, Possêidon criou toda a espuma do mar.
Os pontos cintilantes, que aparecem por
todo o oceano, são os falsos brilhantes que o feiticeiro tirano ofertou a Mariá.
E ele, assim confundido, sem saber onde
ela estava, procurou, procurou, até pensar que a encontrara. Como uma flecha
caiu e nas águas mergulhou, porém, já era tarde quando viu o quanto se enganou.
Quando às águas desceu, acabou o seu
poder, por ele ter violado um reino que não era seu.
E assim, condenado, somente gaivota será.
Só viverá para comer sem nunca ser saciado.
E o mar que era passivo, sem espuma, sem
beleza, graças a um vestido, agora é colorido, encanto da natureza.
Essa ave, até hoje ainda existe; a
gaivota falcoeira é uma ave rapineira, é falsa, é traiçoeira, como sempre o foi
na vida. Essa é a sua sina. No entanto, não desiste de procurar a menina, que
está bem protegida.
Voa por todos os lugares, já percorreu os
sete mares, em busca de Mariá. Com a espuma a protegê-la, ele não consegue
vê-la, não descobre onde ela está.
Com seu grito de gaivota, vive chamando a
garota:
- Mariááá, Mariááá, Mariááá.
E Mariá?... É a rainha do mar. Vive com o
seu rei que é seu amo e uma porção de filhinhos, lá no meio do oceano.
Tem como seus vizinhos o seu pai e sua
mãe , que também mandou buscar.
Na terra dos sem dinheiro, lá não existe
miséria, inveja ou desordeiro. O povo é trabalhador, honesto e cavalheiro.
Até hoje ainda existe tudo que por lá
ficou.
Quando morre um feiticeiro acaba toda a
magia, feitiços ou bruxaria que ele realizou.
Por que na Terra dos Sem Dinheiro isso
não aconteceu? – Intervém Mariazinha.
- Porque o feiticeiro não morreu, apenas
se transformou.
E, mais uma vez, a estória terminou ”.
Pergunta de nova a guria:
- Vovozinho, eu vi uma gaivota na praia,
que voava bem baixinho e estava olhando para mim! Seria ela o feiticeiro?
- Não, querida, não é assim. O conto não
é verdadeiro, são as estórias da vida que o vovô contou um dia.
- Quer dizer, que esse conto, foi seu avô
que contou?.
Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada a fonte de origem.
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