terça-feira, 9 de outubro de 2012

Contos Infantis - Mama na Burra - Na Terra dos Fantasmas


  Areia, sol e mar!...Praia para brincar.
  Chuva?...Não combina, só serve para atrapalhar.
  Mariazinha?... Coitada! Em casa o dia inteiro. Não se conformava com aquele enorme aguaceiro.
Quem lhe valia, era o vovô José Maria. {haja estórias para contar} Mal uma estória terminava a menina já pedia:
- Conta outra, vovozinho.
Seu avô não resistia a um pedido assim, feito com tanto carinho; e outra estória começava. A Maria escutava, escutava e depois adormecia. Porém naquele dia não dormiu por muito tempo, foi só um breve momento. Ainda era muito cedo e ela acordou assustada a gritar:
- Vovozinho, eu estou com medo! Eu sonhei com um fantasma e ele queria me pegar.
E seu vovô a acalmou:
- Minha querida! Não podemos acreditar em tudo que escutamos. Quantas vezes eu já te disse que fantasma só existe, nas estórias que contamos?
- Uma estória de fantasma?! - Disse a menina hesitante – Deve ser fascinante. Conta, conta vovozinho.
Seu avô, depois de pensar um pouquinho, outro conto começou: 

- “Era uma vez um menino”.
Seu nome era Pimpão, vivia com seu avô, lá no meio do sertão.
Valente e destemido, ele não fugia do perigo, não tinha medo de nada. Mesmo com tanta bravura, na escola os seus amigos o chamavam de um apelido do qual ele não gostava:
- É “Mama na Burra”! É “Mama na Burra”! Pilheriava sempre alguém conhecido.
Pimpão já estava acostumado, só por esse nome era chamado. No entanto, sentia-se aborrecido, desconhecia o motivo de tão grotesco apelido.
Um dia, ao chegar a casa, Pimpão perguntou a seu avô com uma certa amargura:
- Vovô, por que na escola só me chamam de “Mama na Burra”?
E seu avô respondeu:
- É que quando você nasceu, a sua mãezinha morreu. Como éramos muito pobres e não tínhamos dinheiro para comprar leite, quem te deu de mamar foi a nossa burrinha.
Essa é a causa da tua alcunha. Esse é o motivo de seres tão forte assim.
E põe forte nisso! Sabe Mariazinha, só com uma mão ele era capaz de levantar um caminhão! E nem fazia careta. Com as duas então... levantava até uma carreta!
E Mariazinha retrucou:
- Nossa, vovô, como o Pimpão é valente!
E para surpresa da menina, o seu avô respondeu:
- É querida... mas nem sempre! Tinha um problema na escola que ele não conseguia resolver.
- Já sei vovô, o senhor nem precisa me dizer. O Pimpão era bobo e não conseguia aprender.
- Não, menina! O pimpão não era bobo. É que lá tinha um fantasminha, que o perturbava o tempo todo. E não era só a ele que aquele fantasminha amolava. Era toda a criançada que freqüentava a escola. Destruía suas borrachas, molhava suas sacolas, rasgava as folhas de seus livros, escondia lápis e canetas, derrubava tinta em seus cadernos, enfim, fazia de suas vidas um inferno.
Até que um dia, não agüentando mais tanta humilhação, Pimpão tomou uma decisão. Reuniu os seus amigos, todos que desejassem acompanhá-lo, e encontrou uma porção:
Espigão, Peri Quito, Zeca Melo, Juca Brito, Saico Rendo, Pirô Lito, Tatá Manco, Sassá Pato, Caio Fora, Ronco Emato, Mari Ola, XaXim Nelo, Saca Rolha e Matus Quelo.
Naquela reunião, todos se mostraram dispostos a não pouparem esforços até expulsarem todos os fantasmas de toda a região.
Disse Pimpão:
- Falem para vossos pais que eu digo ao professor, à escola não vamos mais, Vamos procurar os fantasmas seja lá onde for. Vamos acertar nossas contas e acabar com esse lero-lero. Ora bolas! Estou cansado de tirar nota zero.
- Não iam mais à escola? – pergunta incrédula Maria – Isso é um assunto muito sério!
E seu avô a acalmou:
- Pois é querida, não era isso que eles queriam, porém, não tinham outro remédio.
Ao chegar a casa, Pimpão revelou a seu avô o que ele e seus amigos haviam decidido fazer.
Seu avô o apoiou e falou:
- Vai, meu neto, já era tempo de por aqui aparecer uma pessoa de talento, capaz de nos defender. Mas de que armas vocês dispõem para atacar os fantasmas?
- Não se preocupe – disse pimpão. Quando chegar o momento, as armas aparecerão. Não há plano infalível, é só usar a imaginação.
No outro dia bem cedo, saía o pelotão, quinze ao todo, à frente ia Pimpão. Cada um levava às costas um saco com algumas roupas e o mais importante; a ração.
Foram avisados na partida, que antes que faltasse a comida, que fizessem o caminho de volta. Todos garotos valentes, faziam a grande escolta, uns aos outros se guardavam.
Corajosos, experientes, donos de muita bravura! Isso quando estavam com Pimpão, porque quando estavam sozinhos, eram apenas meninos E o cenário mudava de figura.
Já cansados de tanto andar, pararam perto de um rio para descansar e preparar o almoço.
Quando abriram os sacos de mantimentos, foi aquele alvoroço, em cada um sem exceção, o que havia lá dentro era apenas fubá. Também, em se tratando de alimentação, era o que havia por lá!
Pensa que eles se zangaram? Não! Levaram colheres, panela e bacia, acenderam uma fogueira e fizeram ali a primeira refeição. Comeram, brincaram, até lamberam o caldeirão. Conversaram, traçaram planos... e pé no caminho, eles seguiam seu rumo, porém sem destino.
E Maria perguntou:
- E aonde eles iam, vovozinho?
E seu avô lhe respondeu:
- Ora, ora! Prá onde?  Nem mesmo eles sabiam, seguiam por uma trilha, seus instintos os guiavam. Eram garotos de briga e acostumados aos perigos, eles não estavam perdidos, sabiam por onde andavam.
A noite se aproximava e eles teriam de encontrar um lugar para descansar.
Foi quando lá muito longe avistaram uma fumaça que subia. Mesmo sem eles saberem o que era, os nossos garotos valentes seguiam atentamente o líder pimpão.
Depois de muito correr para tão estranha aventura, Quando chegaram ao local já era noite escura.  Encontraram uma casinha com uma porta, uma janela e um buraco no telhado por onde a fumaça saía.
Foram chegando de mansinho, sem saber o que os esperava. E Pimpão gritou de longe:
- Ó de casa! Atendeu-os um velhinho, que apesar de bem idoso, tinha um aspecto bondoso. E perguntou:
 que deseja, meu menino? Em que eu posso ajudar?
E Pimpão falou de novo:
- Vovozinho, nós só queríamos um cantinho onde pudéssemos descansar.
E o bom velhinho respondeu:
Aqui não tenho lugar, mas lá na beira da floresta tem uma casa onde podem pernoitar. Isto é, se não tiverem medo de fantasma, porque é costume de um por lá aparecer e pôr todo mundo prá correr.
- Um fantasma! – disse Pimpão. Oba! O nosso sacrifício não foi em vão. Se não estivermos por perto, pelo menos estamos no caminho certo.
E perguntou a seus amigos:
- Quem está com medo?
E eles responderam:
- Eu não, eu não, eu não.
E todos correram para lá fazendo a maior algazarra.
Que fantasma que nada! Também, o que eles podiam fazer com toda aquela molecada?
Acenderam uma fogueira e prepararam o seu fubá. Agora mais saboroso, estava muito mais gostoso, o que era bem natural, pois encontraram a um canto da casa um saco cheinho de sal. Talvez de algum tropeiro que saiu corrido.
E logo quase em seguida, aquelas crianças dormiam despreocupadas. Os fantasmas? Nem lembraram! Se os havia, não deram as caras.
Todos levantaram bem cedo e Pimpão distribuiu a tarefa.
- Aqui na casa vai ficar o Saico Rendo, o Xaxim Nelo, o Saca Rolha e Matus Quelo. Os outros vão comigo, vamos caçar na floresta. Preparem o almoço na hora certa, que nós traremos a carne fresca.
E saiu o pelotão. Bem armados: com um facão, um arpão, levavam até arco e flecha! Mas eles confiavam mesmo era na força de Pimpão. Porém, o que podia ele fazer? A caça era esperta, Não esperava para morrer.
Enquanto eles caçavam, lá na casa algo estava acontecendo. Saico Rendo e seus amigos preparavam o angu, iam pondo na panela, um, a um, os punhadinhos de farinha. Quando inesperadamente, eis que apareceu à sua frente um fantasminha que lhes falou:
-Hei, coleguinha! Está tanto frio aqui!
- Saico Rendo nem ligou, Xaxim Nelo olhou para Saca Rolha, que olhou para Matus Quelo, que sorrindo lhe falou:
- Está mesmo, senta aí.
- O fantasminha foi chegando, chegando... e pouco depois parecia bem à vontade. Mas afastado do fogo!
- Para falar a verdade, quem não ficou tranqüilo foram os nossos amigos, sem saberem o que iria acontecer. Cochichavam bem baixinho, não sabiam o que fazer.
- Pegar um fantasma na unha, não dá! – segredou o Matus Quelo.
- Com os dentes, também não! – afirmou o Xaxim Nelo.
E concluiu o Saca Rolha:
- O melhor é esperarmos o Pimpão.
Entretanto, aquele fantasma estava perdendo a calma, não estava disposto a perder mais tempo. Tinha ido lá para assustar e, no entanto, era ele que estava assustado. Escutava os moleques conversarem, não tinham nem ligado. Ah, se seus amigos soubessem... estaria desmoralizado! Aproveitando o momento que Saico Rendo levantou-se indo buscar o sal para temperar o angu, o fantasminha juntou um punhado de cinzas e zás, atirou-as na panela. Correu para o fundo da casa, atravessando a parede, deixando a turma assustada tremendo que nem vara verde.
Quando os amigos voltaram de tão infrutífera caçada, Saico Rendo estava de novo colocando a panela com água no fogo.
Sem desconfiar de nada  Pimpão lhe perguntou:
- Camarada, isso é hora de fazer a gororoba?
- A culpa foi do fantasma. – respondeu o Matus Quelo – O Angu estava pronto só faltava mesmo o sal. O fantasma foi chegando e com nós foi conversando e nisso não vimos nenhum mal. Porém, quando o Saico se levantou e foi pegar o sal que estava na tigela, o fantasma pegou um punhado de cinzas e jogou-as na panela.
Após ouvir a estória que o amigo contara, Pimpão então falou:
- Vocês não servem para nada! Amanhã eu arranjo outra turma para ficar aqui na casa.
Depois de comerem aquela papa, eles embrenharam-se novamente pela mata, indo agora bem mais adiante do que tinham ido cedo. Haviam perdido o medo e procuravam o esconderijo dos fantasmas. Andaram, andaram, certos de que, se os encontrassem, os destruiriam e os expulsariam para bem longe. Mas contra a sua vontade, à tardinha eles voltavam sem nenhuma novidade.
Porém, a turma era animada, no outro dia saíram de madrugada. Na casa ficaram o Tatá Manco, o Caio Fora, o Ronco Emato e o Mari Ola. Ainda era noite escura quando iniciaram a procura. O dia clareou e eles estavam bem distantes de onde haviam estado antes.
Pouco depois escutaram um enorme berreiro! Eram gritos de socorro no meio daquela floresta, vinham de cima do morro, ali ao lado do caminho. Correndo, dirigiram-se para o lugar de onde vinham os gritos. Já aflitos, depararam com um homenzinho amarrado com tiras de casca de embira em cima de um formigueiro. Um prato cheio para as formigas, que estavam fazendo a festa. Era uma figura estranha, orelhuda, nariguda, barriguda e bem baixinha. Pelo jeito, não era humana!
- Socorro, ajudem-me a sair daqui, que eu posso ajudar vocês. Eu sou um duende, eu sou um duende.
E Saca Rolha responde:
- Que doente, que nada! Você está é de fogo.
Juca Brito concordou:
- Também, sentado e amarrado em cima de um formigueiro, só tem que estar no fogo, mesmo! Senta lá você também, só para ver o que vai acontecer!
E Mariazinha intervém:
- Vovozinho!... desamarre logo o coitado, não deixe o duende amarrado, não faça o pobre sofrer.
E seu vovô argumenta:
- Minha querida netinha, se não me falha a memória há um herói na estória e não sou eu o vilão! Não queiras tirar a glória ao nosso amigo Pimpão.
- Então, vovô, por que ele estava de fogo?
- A bem da verdade, minha querida, fazia muito tempo que aquele velho duende tinha perdido o interesse pela vida. Ele, que sempre defendeu os fracos, que não admitia maus tratos, deixava-se vencer pelo vício da bebida sem conseguir reagir. Andava pelas adegas e bebia até cair.
- E por que isso acontecia? – perguntou de novo Maria.
- É que sua companheira o havia abandonado, havia sido trocado por um duende mais jovem. Em casos de amor, nem mesmo duende escapa.
E Maria curiosa:
- Vovozinho, o duende também se casa?
- Se casa, sim, mas vamos deixar de prosa e voltar para a nossa estória. Onde eu estava mesmo?
- Xiii! Vovô, a esta hora o duende já foi devorado pelas formigas!  
- Não foi, não! Então, o que faziam os nossos amigos? Depois de soltarem o coitado e limparem suas feridas, já conversavam com ele como se fossem velhos conhecidos.
- Qual é o seu nome? Perguntou o Sassá Pato.
E o duende lhe respondeu:
- O meu nome é Tarraco.
- E quem o amarrou aí? – continuou o Peri Quito.
- Foram os fantasmas. Eles são os nossos piores inimigos Não nos perdoam, pelos mortais serem nossos amigos.
E como eles te pegaram? Como isso foi possível, você não tem proteção? -  perguntou curioso o Pimpão.
E Tarraco respondeu:
- É que eu perdi o meu chapéu! Com ele eles nunca me pegariam, ele me deixa invisível.
E o Espigão ironiza:
- Também, com o caco cheio de cachaça, já perdeu até a graça! Sabe, por acaso, qual é o rumo de casa?
Foi aí que o Tarraco pediu:
- Por favor, ajude-me a encontrar o meu chapéu e em troca eu vos ensinarei como se adquirem as armas para derrotar os fantasmas.
É isso que estamos procurando. – dizia o Pimpão animado – Mas como posso saber se não estou sendo enganado?
E o Tarraco respondeu;
- O meu mundo é diferente, vocês precisam aprender que um duende nunca mente.
- Então gente! O que estamos esperando? É de uma coisa assim que estamos precisando, vamos procurar o chapéu? – Dizia o Xaxim Nelo.
E o Zeca Melo respondeu:
- Vão vocês, alguém tem que ficar a fazer companhia ao Tarraco.
- De onde você veio? – Perguntou de novo o Sassá Pato.
- Eu vim de lá, vinha daquele alambique. – respondeu o duende.
- De lá? – O Saico Rendo duvidou – Mas se foi de lá que nós viemos! O coitado nem sabe por onde andou.
E o Pimpão ordenou:
- Então vamos para o outro lado, se lá houver um alambique e um chapéu, garanto que nós iremos encontrá-los.
E não muito distante dali, eles encontraram um alambique abandonado. Seus donos foram expulsos pelos fantasmas e lá dentro ainda existiam centenas de barris de cachaça. Nela, os fantasmas não tocavam, porém o Tarraco!... bem, esse era seu ponto fraco.
E Juca Brito exclamou:
- Minha gente! Aqui tem aguardente para dar e vender! O nosso amigo duende tem muita cachaça para beber.
- Isso é o que vamos ver. – anunciou o Pimpão – Vamos abrir esses barris e derramar esse líquido no chão.
- Deixa prá mim. – já falou o Saca Rolha – Nessa arte eu sou doutor.
Pouco depois, todos saíram correndo para não ficarem embriagados também, só com o odor! E até que se saíram bem, pois foi nessa corrida que Saico Rendo tropeçou e caiu que nem um sapo. Quando se levantou e sacudiu a poeira, viu um estranho chapéu ali jogado no mato. Não teve dúvida, era o chapéu do Tarraco. Colocou-o em sua cabeça e no mesmo instante desapareceu.
E Saico Rendo falou:
- Vocês estão me a ver?
E todos responderam:
- Nós, não!
- Funciona! – disse Pimpão – Com esse chapéu na cabeça, não tem fantasma que nos vença. E voltaram em busca de seus amigos.
Encontraram o Zeca Melo fazendo um emplastro com folhas de mato nos fundilhos do Tarraco. Pelo visto devia estar ardendo o traseiro do duende.
- Acharam o meu chapéu? – Perguntou ele ao Pimpão, que então lhe respondeu:
- Ainda não.
E assim, ficaram sabendo que nem mesmo o Tarraco havia detectado a presença de Saico Rendo.
- Agora nos acompanhe, - disse Pimpão ao novo amigo – com nós estarás protegido.
- Sem o meu chapéu eu não sou ninguém! – reclamou ele assustado.
E Pimpão intervém:
- Não, amigo, muito pelo contrário. Sem ele você é gente, ouve, fala, vê e sente. Tu podes ficar sossegado eu prometo o teu chapéu devolver, agora, vamos embora, temos muito que fazer,
- Vocês não andam à procura de fantasmas? – Perguntou ele a Pimpão – Saibam que eu não sou nenhum deles e fantasma não se pega com a mão!
- Então como? Você pode nos ensinar como devemos fazer?
E o Tarraco explica:
- Primeiro vocês não devem ter medo de nada, principalmente de estórias de fantasmas.
- Tudo bem. – disse Pimpão – Nós não temos, pois não, turma?
E todos responderam:
- Nããão!
E o duende continua:
- Em segundo lugar alguém tem que ter uma força colossal.
- Isso não é problema, em se tratando de força, não encontramos rival.
- A terceira!?... são varas de marmeleiro e visgo do visgueiro.
- E onde encontraremos as varas? – perguntou o Saca Rolha.
- No sítio do senhor Osmar Mota. Uma para cada um, para não fazer muito estrago. Mas é preciso ter cuidado, ele anda sempre armado, atira até em sua sombra. Mas aí tem um porém, vocês têm de prometer que nunca trairão um amigo, pois, se isso acontecer, tudo estará perdido.
- Tudo bem, nós prometemos – disse Pimpão decidido.
- Depois, - continuou o Tarraco – com o leite do visgueiro, vocês farão um visgo e o passarão nas varas. Esse é o visgo pega fantasmas, desse, eles não escapam! E vejam se acham também o meu chapéu.
Lembrando-se dos conselhos do amigo, Pimpão segredou ao seu ouvido:
- O seu chapéu já apareceu, nós o devolveremos assim que conseguirmos as varas de marmeleiro.
Contra a sua vontade, Tarraco teve de concordar, pois lembrou do mau bocado em que ficou amarrado em cima do formigueiro.
Ali  mesmo eles iniciaram a procura do visgueiro. Depois de encherem alguns canudos de bambu com o líquido viscoso, regressaram a casa para comerem um angu delicioso.
Lá na casa havia muito tempo que seus colegas tinham começado a fazer a polenta. Porém, quando pensaram que já tinham terminado, eis que... sim, ele mesmo, o fantasminha! Que falou:
- Ai coleguinhas, está tanto frio aqui!
Tatá Manco, quis correr. Caio Fora, disparou. Ronco Emato, desmaiou. Mari Ola se calou. E o fantasma deitou e rolou. Só depois de algum tempo Mari Ola criou coragem, mas aí já era tarde, era papa por todo o lado, no chão, na parede, no fogão.  Mari Ola  correu, pegou um tição e arremessou-o no fantasma, que saiu correndo com a ponta do lençol queimando, passando pela parede e indo direto ao poço.
Quando Pimpão chegou, trazendo aquele baixinho barrigudo, orelhudo e narigudo, Ronco Emato gracejou:
-  Foi isso que vocês caçaram para o almoço?
E Pimpão já retrucou:
- Cadê a polenta, seu molenga?
Mari Ola então falou:
- O fantasma estragou, mas levou fogo no rabo e descobri a maneira de vencer o excomungado.
- E qual é? - perguntou o Pimpão duvidoso.
- É o fogo! – respondeu Mari Ola, ciente.
- Você tem razão, diz Pimpão, mas terão de queimar tudo o .que aparecer à vossa frente.
E o duende explica:
- Olhem gente, com o fogo não se brinca! Deixem prá lá essa idéia. Criança além de sair queimada, ainda ateia o fogo à casa.
Pouco depois no caldeirão fervilhava novamente a mesma papa de sempre.
Agora já saciados, Pimpão chamou Saico Rendo, que continuava sobre o chapéu escondido, dizendo-lhe:
- Meu amigo, está na hora de ires buscar as varas. Com esse chapéu na cabeça, vai ser moleza, é como tirar o doce de uma criança.
Com a mão sobre o chapéu para não deixá-lo cair, Saico Rendo saiu correndo. Ainda teria muito que andar até chegar ao sítio do senhor Osmar Mota. Pegar as varas de marmeleiro não era tarefa assim tão fácil, como falou seu companheiro. Primeiro teria de cortá-las e depois carregá-las. E se isso não bastasse, ainda tinha um enorme cachorrão que, embora não o visse, não parava de latir, o que fez o senhor Osmar Mota dar mais uma volta pelo sítio com a arma engatilhada e concluir:
Tenho de arranjar urgente outro cachorro. Coitado do Nero, não é o de Roma, mas, como ele, também ficou louco!
E assim, Saico Rendo conseguiu levar a cabo a sua empreitada.
Na casa havia uma certa euforia. As varas descascadas, o visgo esfriava na bacia.
Para relaxar, os garotos contavam piadas que faziam arrepiar. (de fantasmas, prá variar). – Quem gostava era o Tarraco, que ria sem parar. A essa altura, já sem bebida, dava a certeza de ser uma criatura bem divertida.
Fora um árduo dia, muito trabalho, muita correria. Anoitecia muito depressa na encosta daquela floresta. Orientados por Tarraco, os garotos davam os últimos retoques em suas poderosas armas, as varas.
Água na panela. Para o jantar tinha uma comida diferente, para não fugir à regra era papa novamente!
Todos comeram sem reclamar, inclusive o Tarraco, que com seu jeito espirituoso, assim falou para os demais:
- Vocês não vão reparar, nunca comi nada tão fraco! Mas está delicioso e eu quero é mais.
Depois do jantar, mais piadas.
- Hora de dormir. – disse Pimpão – E Tarraco preveniu:
- Vamos deixar as varas armadas, só assim teremos a certeza de uma noite tranqüila.
Coitado, estava cheio de medo! Ele sabia que se os fantasmas aparecessem, ele seria a primeira vítima.
Aparecer até que eles apareceram, mas chegar perto, nem se atreveram. Teriam de assustar em outro lugar, pois aqueles moleques haviam descoberto o segredo. Porém, não tinham com que se preocupar, o seu castelo era invencível, impossível de lá entrar.
Quando o dia amanheceu, todos pegaram as armas e Saico Rendo entregou a Tarraco o seu chapéu. E Tarraco que não era ingrato, guiou-os até o castelo dos fantasmas.
Lá chegaram  e o problema agora era entrar, Fantasma não abre porta, passa em qualquer lugar. Ali não havia entradas; com aquele enorme portão de metal emperrado, fechado por mais cem anos, e pesando mais de dez toneladas, aqueles fantasmas tiranos sentiam segurança total.
- Chegamos na hora certa. – o Tarraco assim dizia – Se para vocês é hora da sesta, para eles é o sono do meio-dia.
- Mas fantasma também dorme? – pergunta o Tatá Manco.
E o duende responde:
- Se dormem? E como! Roncam que é um espanto!
- Será fácil então pegá-los. – disse entusiasmado o Mari Ola.
- Claro que sim. – confirmou o Caio Fora.
E Tarraco advertiu os dois:
- De fantasmas, pegam-se apenas os lençóis.
- Só os lençóis? – perguntou o Saca Rolha – E os fantasmas?
- Ora garoto! Não existe fantasma sem lençol. Vocês já viram algum deles atacar algum mortal? Nunca viram. Eles apenas vos assustam, no entanto, nunca tocam em vocês. Isso é contra nossas leis. A nós, não. A nós eles atacam e, se puderem, maltratam, por termos outros valores e sermos a eles superiores. Assim vocês nos criaram.
- Nós!? - pergunta admirado Espigão.
- Sim, vocês mesmo, os mortais. Somos fruto da vossa imaginação. E agora, o que farão para entrar no castelo?
E responde o Xaxim Nelo:
- Para isso nós temos a força de Pimpão!
E pimpão dá um empurrão no portão, que o escancara de par em par.
- Tenham cuidado. – disse Tarraco – Agora é com vocês, aí eu não vou entrar. Não destruam nada, cada um com sua vara, apanhem somente os lençóis.
E lá vão eles então. Uns atrás dos outros, uns tremendo, outros mais afoitos. Pimpão, por ser ele o mais valente, era o que seguia a frente, puxando o pelotão.
Com todo o cuidado, entraram naquele castelo mal assombrado. Era ronco por todo o lado.
Logo eles depararam com lençóis espalhados por todo o castelo. E um a um eles iam sendo grudados naquelas varas, até aquele queimado foi pego por Matus Quelo.
O ronco continuava, o que queria dizer que nenhum fantasma havia despertado. E a turma procurava, mas pelo visto a captura já havia terminado. Só o Pimpão viu um lençol que lhe chamou a atenção. Parecia de um fantasminha que estava dormindo vestido.
E Matus Quelo Falou:
- Deixa comigo, esse aí eu vou pegar.
E Pimpão interveio:
- Essa Não! Esse fantasminha é uma menina!
- Como você pode saber? – Perguntaram seus colegas admirados.
Ele então lhes respondeu:
- Por acaso vocês já viram algum lençol assim? Que tem os lábios pintados e está piscando prá mim?
- Ora Pimpão, deixa de ser convencido! Não vês que, se é uma menina ela tem um olho torcido? - Toda fantasminha que se preza, tem de ser vesga. Esse é o charminho que usa para chamar a atenção.
Enquanto dormia sonhava com o seu príncipe encantado, e quando acordou a coitada sentiu-se apaixonada. Sim, deslumbrada, ela olhava Pimpão! Ele não estava enganado.
De repente, o ronco cessou em todo o castelo, o que de nada adiantou porque os nossos heróis: Peri Quito, Piro Lito e Zeca Melo, já haviam amarrado todos os lençóis e grudado-os naquelas varas. Coitados dos fantasmas, nem ousavam se aproximar, pois lá ficariam presos também. E agora, sem roupa, não dava para assustar mais ninguém.
Era um grande dia de glória, os garotos valentes, saíram contentes festejando a vitória.
Diziam os amigos:
- Viva o menino mais valente do sertão! Viva o Pimpão, o grande vencedor!
Esquecendo-se que lá dentro, a um canto, sozinha, uma pobre fantasminha chorava a sua dor.
Tarraco juntou-se a eles, agora mais à vontade, atirava o seu chapéu para o alto e gritava:
- Viva a liberdade! Viva a liberdade! Parando em certo momento, olhando bem para o Pimpão, perguntou-lhe:
- Você não esqueceu nada lá dentro?
- Eu acho que não! – Disse Pimpão pensativo.
E volta a insistir o amigo:
- Você está bom da memória? Você que é um menino inteligente, arranje um fim mais decente, para terminar sua estória.
- Minha estória? Que estória é essa? Perguntou mais que depressa o Pimpão sem entender.
E Tarraco respondeu:
- É, amigo! Assuntos de coração... só lá dentro você pode resolver.
Ele subiu a escada sem saber o que o esperava, tremendo de emoção, sentindo somente a forte batida de seu coração. Escutara lá dentro a um canto, um lamento, um pranto. Para lá se dirigiu e viu que era aquela fantasminha. Pimpão não resistiu. Abraçou aquele lençol, mas ele estava vazio. Mesmo assim, afagou aquele rosto, beijou aqueles olhos e sentiu aquele gosto. Também aquelas eram lágrimas salgadas como de qualquer ser vivente. Eram sinceras e sagradas, eram lágrimas fantasmas, eram frutos sem semente.
E Pimpão segurava aquele rosto em sua mão, A menina, apanhada de surpresa, deixou até de ser vesga, ficou ainda mais linda!
- Qual é seu nome? – Perguntou ele.
- A mim me chamam Pimpolha. E o seu posso saber?
Foi aí que ele resolveu brincar um pouco e demorou a responder:
- Parece que os nossos nomes foram feitos um para o outro, porque eu me chamo Pimpão.
Pimpolha corou, quase desmaiou.
- Ficou vermelhinha, vovô? – Perguntou Mariazinha.
- Não, querida, não ficou vermelhinha; lençol, quando cora, fica mais branco ainda! Ele pegou em sua mão; em sua mão...na pontinha do lençol. E pimpolha seguia feliz a seu lado, descia a escada, corria. Voava como uma pomba, fugia de um mundo de sombra em busca de sol. Esquecia de tudo e entrava em outro mundo de vida verdadeira. Embora essa vida fosse passageira, queria sentir o amor de verdade. Na conta do tempo, mesmo que seja um momento, vale uma eternidade.
Ao chegar ao portão, Pimpão assim falou:
- Meus caros colegas, nós nos livramos dos fantasmas, mas não de Pimpolha.
E o Saca Rolha, admirado:
- Mas então. Ela não era caolha?
- Não – falou Pimpão irritado. – Ela é minha namorada, é uma menina decente, ela é amiga da gente, é fantasminha camarada.
- Adeus, amigos. – despedia-se Tarraco emocionado. – Não se esqueçam deste velho duende. Para ser sempre lembrado, escrevam o meu nome em vossos livros.
E colocando na cabeça o seu chapéu, desapareceu.
De volta à sua terra, aqueles garotos foram recebidos por seus parentes e pelos amigos com uma grande festa. Não havia ninguém que não admirasse a coragem, a valentia e a ousadia daquela turma. Pimpão, o mais destemido, o seu apelido “Mama na Burra”, foi até esquecido.
Todos juntos na sala outra vez, os nossos estudantes, os mesmos que antes só tiravam “zero”, agora era só “dez”,
- Já sei -  interrompeu Mariazinha. – É que não tendo fantasmas eles prestavam mais atenção.
- Não, não! - interviu o vovô. – É que tinha uma fantasminha naquela escola, que os ensinava e lhes passava cola.

Chegava de novo o verão, um outro fim se aproximava e a menina fez um pedido a Pimpão:
- Solte os meus amigos! Eu prometo que eles irão embora para outras terras.
- Deveras? Está falando sério? – Perguntou Pimpão assustado. – E você vai me deixar, não sou mais seu namorado?
- Não! Este é o meu lugar, enquanto você me quiser eu estarei sempre a seu lado.
Minha Pimpolha querida! – Tu és sonho, és fantasia, és prosa e poesia, tu és o encanto da vida!

Dias depois, lá foi Pimpão novamente com uma porção de gente.
Armas?... não era preciso, só levaram sabão. Desataram lençol por lençol, lavaram tão lavadinhos!...Deixaram todos branquinhos! Eles precisavam tirar-lhes o visgo. A fantasminha ajudava, pendurando-os ao sol.
Quando lavaram o último, Pimpolha disse a Pimpão:
- Agora vai com os teus amigos, deixa-me ficar com os meus, temos algo a resolver. Esta minha decisão sei que eles irão entender.
Pimpão voltava arrasado, cambaleava, atingido bem fundo. Pimpolha o havia enganado, voltava a seu mundo.
Depois de muito andar, já quase chegando a casa, sentiu o frescor de um lençol que lhe tapava a visão. Nem queria acreditar, alguém falava ao seu ouvido:
- Eu voltei, meu querido.
Pimpão sentiu o trepidar de seu coração. Aquele menino valente, se tornava impotente diante da força maior e à força do amor ele também não resistiu. Olhava para Pimpolha, via e não acreditava, aquele lençol branco aos poucos se transformava. Agora mais consistente, o seu olhar se incendeia, já tinha forma de gente, deixava rastos na areia, fazia sombra no chão. Tinha os olhos negros da cor do cabelo, os lábios vermelhos e um rosto tão belo! Era a criatura mais bela que aparecera no sertão.
E Mariazinha perguntou:
- Vovô, ela casou com Pimpão?
- Ah Sim minha querida! Tiveram muitos filhinhos e foram felizes na vida.
- E eles ainda vivem, vovô?
- Vivem sim. Na nossa imaginação.
- Vovozinho, eu quero um fantasminha para mim.
- Ora, minha querida, a esta hora? Não será fácil encontrá-lo. Mas vamos ver o que precisamos fazer para cria-lo: - Três pauzinhos, agulha e linha, um pedaço de pano branco, ou mesmo um lenço, quatro pedrinhas e uma conchinha.
- No outro dia a Maria acordou e correu até o quarto do vovô, mas não o encontrou. A chuva havia parado e ele levantou muito cedo, percorria a praia à procura do material que faltava para fazer o brinquedo.
E quando foi à tardinha a Maria já brincava com um lindo fantasminha.



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