Areia, sol e mar!...Praia para brincar.
Chuva?...Não combina, só serve
para atrapalhar.
Mariazinha?... Coitada! Em casa o
dia inteiro. Não se conformava com aquele enorme aguaceiro.
Quem lhe valia, era o vovô José Maria.
{haja estórias para contar} Mal uma estória terminava a menina já pedia:
- Conta outra, vovozinho.
Seu avô não resistia a um pedido assim,
feito com tanto carinho; e outra estória começava. A Maria escutava, escutava e
depois adormecia. Porém naquele dia não dormiu por muito tempo, foi só um breve
momento. Ainda era muito cedo e ela acordou assustada a gritar:
- Vovozinho, eu estou com medo! Eu sonhei
com um fantasma e ele queria me pegar.
E seu vovô a acalmou:
- Minha querida! Não podemos acreditar em
tudo que escutamos. Quantas vezes eu já te disse que fantasma só existe, nas
estórias que contamos?
- Uma estória de fantasma?! - Disse a
menina hesitante – Deve ser fascinante. Conta, conta vovozinho.
Seu avô, depois de pensar um pouquinho,
outro conto começou:
- “Era uma vez um menino”.
Seu nome era Pimpão, vivia com seu avô,
lá no meio do sertão.
Valente e destemido, ele não fugia do
perigo, não tinha medo de nada. Mesmo com tanta bravura, na escola os seus
amigos o chamavam de um apelido do qual ele não gostava:
- É “Mama na Burra”! É “Mama na Burra”!
Pilheriava sempre alguém conhecido.
Pimpão já estava acostumado, só por esse
nome era chamado. No entanto, sentia-se aborrecido, desconhecia o motivo de tão
grotesco apelido.
Um dia, ao chegar a casa, Pimpão
perguntou a seu avô com uma certa amargura:
- Vovô, por que na escola só me chamam de
“Mama na Burra”?
E seu avô respondeu:
- É que quando você nasceu, a sua
mãezinha morreu. Como éramos muito pobres e não tínhamos dinheiro para comprar
leite, quem te deu de mamar foi a nossa burrinha.
Essa é a causa da tua alcunha. Esse é o
motivo de seres tão forte assim.
E põe forte nisso! Sabe Mariazinha, só
com uma mão ele era capaz de levantar um caminhão! E nem fazia careta. Com as
duas então... levantava até uma carreta!
E Mariazinha retrucou:
- Nossa, vovô, como o Pimpão é valente!
E para surpresa da menina, o seu avô
respondeu:
- É querida... mas nem sempre! Tinha um
problema na escola que ele não conseguia resolver.
- Já sei vovô, o senhor nem precisa me
dizer. O Pimpão era bobo e não conseguia aprender.
- Não, menina! O pimpão não era bobo. É
que lá tinha um fantasminha, que o perturbava o tempo todo. E não era só a ele
que aquele fantasminha amolava. Era toda a criançada que freqüentava a escola.
Destruía suas borrachas, molhava suas sacolas, rasgava as folhas de seus
livros, escondia lápis e canetas, derrubava tinta em seus cadernos, enfim,
fazia de suas vidas um inferno.
Até que um dia, não agüentando mais tanta
humilhação, Pimpão tomou uma decisão. Reuniu os seus amigos, todos que
desejassem acompanhá-lo, e encontrou uma porção:
Espigão, Peri Quito, Zeca Melo, Juca
Brito, Saico Rendo, Pirô Lito, Tatá Manco, Sassá Pato, Caio Fora, Ronco Emato,
Mari Ola, XaXim Nelo, Saca Rolha e Matus Quelo.
Naquela reunião, todos se mostraram
dispostos a não pouparem esforços até expulsarem todos os fantasmas de toda a
região.
Disse Pimpão:
- Falem para vossos pais que eu digo ao
professor, à escola não vamos mais, Vamos procurar os fantasmas seja lá onde
for. Vamos acertar nossas contas e acabar com esse lero-lero. Ora bolas! Estou
cansado de tirar nota zero.
- Não iam mais à escola? – pergunta
incrédula Maria – Isso é um assunto muito sério!
E seu avô a acalmou:
- Pois é querida, não era isso que eles
queriam, porém, não tinham outro remédio.
Ao chegar a casa, Pimpão revelou a seu
avô o que ele e seus amigos haviam decidido fazer.
Seu avô o apoiou e falou:
- Vai, meu neto, já era tempo de por aqui
aparecer uma pessoa de talento, capaz de nos defender. Mas de que armas vocês
dispõem para atacar os fantasmas?
- Não se preocupe – disse pimpão. Quando
chegar o momento, as armas aparecerão. Não há plano infalível, é só usar a
imaginação.
No outro dia bem cedo, saía o pelotão,
quinze ao todo, à frente ia Pimpão. Cada um levava às costas um saco com
algumas roupas e o mais importante; a ração.
Foram avisados na partida, que antes que
faltasse a comida, que fizessem o caminho de volta. Todos garotos valentes,
faziam a grande escolta, uns aos outros se guardavam.
Corajosos, experientes, donos de muita
bravura! Isso quando estavam com Pimpão, porque quando estavam sozinhos, eram
apenas meninos E o cenário mudava de figura.
Já cansados de tanto andar, pararam perto
de um rio para descansar e preparar o almoço.
Quando abriram os sacos de mantimentos,
foi aquele alvoroço, em cada um sem exceção, o que havia lá dentro era apenas
fubá. Também, em se tratando de alimentação, era o que havia por lá!
Pensa que eles se zangaram? Não! Levaram
colheres, panela e bacia, acenderam uma fogueira e fizeram ali a primeira
refeição. Comeram, brincaram, até lamberam o caldeirão. Conversaram, traçaram
planos... e pé no caminho, eles seguiam seu rumo, porém sem destino.
E Maria perguntou:
- E aonde eles iam, vovozinho?
E seu avô lhe respondeu:
- Ora, ora! Prá onde? Nem mesmo
eles sabiam, seguiam por uma trilha, seus instintos os guiavam. Eram garotos de
briga e acostumados aos perigos, eles não estavam perdidos, sabiam por onde
andavam.
A noite se aproximava e eles teriam de
encontrar um lugar para descansar.
Foi quando lá muito longe avistaram uma
fumaça que subia. Mesmo sem eles saberem o que era, os nossos garotos valentes
seguiam atentamente o líder pimpão.
Depois de muito correr para tão estranha
aventura, Quando chegaram ao local já era noite escura. Encontraram uma
casinha com uma porta, uma janela e um buraco no telhado por onde a fumaça
saía.
Foram chegando de mansinho, sem saber o
que os esperava. E Pimpão gritou de longe:
- Ó de casa! Atendeu-os um velhinho, que
apesar de bem idoso, tinha um aspecto bondoso. E perguntou:
que deseja, meu menino? Em que eu
posso ajudar?
E Pimpão falou de novo:
- Vovozinho, nós só queríamos um cantinho
onde pudéssemos descansar.
E o bom velhinho respondeu:
Aqui não tenho lugar, mas lá na beira da
floresta tem uma casa onde podem pernoitar. Isto é, se não tiverem medo de
fantasma, porque é costume de um por lá aparecer e pôr todo mundo prá correr.
- Um fantasma! – disse Pimpão. Oba! O
nosso sacrifício não foi em vão. Se não estivermos por perto, pelo menos
estamos no caminho certo.
E perguntou a seus amigos:
- Quem está com medo?
E eles responderam:
- Eu não, eu não, eu não.
E todos correram para lá fazendo a maior
algazarra.
Que fantasma que nada! Também, o que eles
podiam fazer com toda aquela molecada?
Acenderam uma fogueira e prepararam o seu
fubá. Agora mais saboroso, estava muito mais gostoso, o que era bem natural,
pois encontraram a um canto da casa um saco cheinho de sal. Talvez de algum
tropeiro que saiu corrido.
E logo quase em seguida, aquelas crianças
dormiam despreocupadas. Os fantasmas? Nem lembraram! Se os havia, não deram as
caras.
Todos levantaram bem cedo e Pimpão
distribuiu a tarefa.
- Aqui na casa vai ficar o Saico Rendo, o
Xaxim Nelo, o Saca Rolha e Matus Quelo. Os outros vão comigo, vamos caçar na
floresta. Preparem o almoço na hora certa, que nós traremos a carne fresca.
E saiu o pelotão. Bem armados: com um
facão, um arpão, levavam até arco e flecha! Mas eles confiavam mesmo era na
força de Pimpão. Porém, o que podia ele fazer? A caça era esperta, Não esperava
para morrer.
Enquanto eles caçavam, lá na casa algo
estava acontecendo. Saico Rendo e seus amigos preparavam o angu, iam pondo na
panela, um, a um, os punhadinhos de farinha. Quando inesperadamente, eis que
apareceu à sua frente um fantasminha que lhes falou:
-Hei, coleguinha! Está tanto frio aqui!
- Saico Rendo nem ligou, Xaxim Nelo olhou
para Saca Rolha, que olhou para Matus Quelo, que sorrindo lhe falou:
- Está mesmo, senta aí.
- O fantasminha foi chegando, chegando...
e pouco depois parecia bem à vontade. Mas afastado do fogo!
- Para falar a verdade, quem não ficou
tranqüilo foram os nossos amigos, sem saberem o que iria acontecer. Cochichavam
bem baixinho, não sabiam o que fazer.
- Pegar um fantasma na unha, não dá! –
segredou o Matus Quelo.
- Com os dentes, também não! – afirmou o
Xaxim Nelo.
E concluiu o Saca Rolha:
- O melhor é esperarmos o Pimpão.
Entretanto, aquele fantasma estava
perdendo a calma, não estava disposto a perder mais tempo. Tinha ido lá para
assustar e, no entanto, era ele que estava assustado. Escutava os moleques
conversarem, não tinham nem ligado. Ah, se seus amigos soubessem... estaria
desmoralizado! Aproveitando o momento que Saico Rendo levantou-se indo buscar o
sal para temperar o angu, o fantasminha juntou um punhado de cinzas e zás,
atirou-as na panela. Correu para o fundo da casa, atravessando a parede,
deixando a turma assustada tremendo que nem vara verde.
Quando os amigos voltaram de tão
infrutífera caçada, Saico Rendo estava de novo colocando a panela com água no
fogo.
Sem desconfiar de nada Pimpão lhe
perguntou:
- Camarada, isso é hora de fazer a
gororoba?
- A culpa foi do fantasma. – respondeu o
Matus Quelo – O Angu estava pronto só faltava mesmo o sal. O fantasma foi
chegando e com nós foi conversando e nisso não vimos nenhum mal. Porém, quando
o Saico se levantou e foi pegar o sal que estava na tigela, o fantasma pegou um
punhado de cinzas e jogou-as na panela.
Após ouvir a estória que o amigo contara,
Pimpão então falou:
- Vocês não servem para nada! Amanhã eu
arranjo outra turma para ficar aqui na casa.
Depois de comerem aquela papa, eles
embrenharam-se novamente pela mata, indo agora bem mais adiante do que tinham
ido cedo. Haviam perdido o medo e procuravam o esconderijo dos fantasmas.
Andaram, andaram, certos de que, se os encontrassem, os destruiriam e os
expulsariam para bem longe. Mas contra a sua vontade, à tardinha eles voltavam
sem nenhuma novidade.
Porém, a turma era animada, no outro dia
saíram de madrugada. Na casa ficaram o Tatá Manco, o Caio Fora, o Ronco Emato e
o Mari Ola. Ainda era noite escura quando iniciaram a procura. O dia clareou e
eles estavam bem distantes de onde haviam estado antes.
Pouco depois escutaram um enorme
berreiro! Eram gritos de socorro no meio daquela floresta, vinham de cima do
morro, ali ao lado do caminho. Correndo, dirigiram-se para o lugar de onde
vinham os gritos. Já aflitos, depararam com um homenzinho amarrado com tiras de
casca de embira em cima de um formigueiro. Um prato cheio para as formigas, que
estavam fazendo a festa. Era uma figura estranha, orelhuda, nariguda, barriguda
e bem baixinha. Pelo jeito, não era humana!
- Socorro, ajudem-me a sair daqui, que eu
posso ajudar vocês. Eu sou um duende, eu sou um duende.
E Saca Rolha responde:
- Que doente, que nada! Você está é de
fogo.
Juca Brito concordou:
- Também, sentado e amarrado em cima de
um formigueiro, só tem que estar no fogo, mesmo! Senta lá você também, só para
ver o que vai acontecer!
E Mariazinha intervém:
- Vovozinho!... desamarre logo o coitado,
não deixe o duende amarrado, não faça o pobre sofrer.
E seu vovô argumenta:
- Minha querida netinha, se não me falha
a memória há um herói na estória e não sou eu o vilão! Não queiras tirar a
glória ao nosso amigo Pimpão.
- Então, vovô, por que ele estava de
fogo?
- A bem da verdade, minha querida, fazia
muito tempo que aquele velho duende tinha perdido o interesse pela vida. Ele,
que sempre defendeu os fracos, que não admitia maus tratos, deixava-se vencer
pelo vício da bebida sem conseguir reagir. Andava pelas adegas e bebia até
cair.
- E por que isso acontecia? – perguntou
de novo Maria.
- É que sua companheira o havia
abandonado, havia sido trocado por um duende mais jovem. Em casos de amor, nem
mesmo duende escapa.
E Maria curiosa:
- Vovozinho, o duende também se casa?
- Se casa, sim, mas vamos deixar de prosa
e voltar para a nossa estória. Onde eu estava mesmo?
- Xiii! Vovô, a esta hora o duende já foi
devorado pelas formigas!
- Não foi, não! Então, o que faziam os
nossos amigos? Depois de soltarem o coitado e limparem suas feridas, já
conversavam com ele como se fossem velhos conhecidos.
- Qual é o seu nome? Perguntou o Sassá
Pato.
E o duende lhe respondeu:
- O meu nome é Tarraco.
- E quem o amarrou aí? – continuou o Peri
Quito.
- Foram os fantasmas. Eles são os nossos
piores inimigos Não nos perdoam, pelos mortais serem nossos amigos.
E como eles te pegaram? Como isso foi
possível, você não tem proteção? - perguntou curioso o Pimpão.
E Tarraco respondeu:
- É que eu perdi o meu chapéu! Com ele
eles nunca me pegariam, ele me deixa invisível.
E o Espigão ironiza:
- Também, com o caco cheio de cachaça, já
perdeu até a graça! Sabe, por acaso, qual é o rumo de casa?
Foi aí que o Tarraco pediu:
- Por favor, ajude-me a encontrar o meu
chapéu e em troca eu vos ensinarei como se adquirem as armas para derrotar os
fantasmas.
É isso que estamos procurando. – dizia o
Pimpão animado – Mas como posso saber se não estou sendo enganado?
E o Tarraco respondeu;
- O meu mundo é diferente, vocês precisam
aprender que um duende nunca mente.
- Então gente! O que estamos esperando? É
de uma coisa assim que estamos precisando, vamos procurar o chapéu? – Dizia o
Xaxim Nelo.
E o Zeca Melo respondeu:
- Vão vocês, alguém tem que ficar a fazer
companhia ao Tarraco.
- De onde você veio? – Perguntou de novo
o Sassá Pato.
- Eu vim de lá, vinha daquele alambique.
– respondeu o duende.
- De lá? – O Saico Rendo duvidou – Mas se
foi de lá que nós viemos! O coitado nem sabe por onde andou.
E o Pimpão ordenou:
- Então vamos para o outro lado, se lá
houver um alambique e um chapéu, garanto que nós iremos encontrá-los.
E não muito distante dali, eles
encontraram um alambique abandonado. Seus donos foram expulsos pelos fantasmas
e lá dentro ainda existiam centenas de barris de cachaça. Nela, os fantasmas
não tocavam, porém o Tarraco!... bem, esse era seu ponto fraco.
E Juca Brito exclamou:
- Minha gente! Aqui tem aguardente para
dar e vender! O nosso amigo duende tem muita cachaça para beber.
- Isso é o que vamos ver. – anunciou o
Pimpão – Vamos abrir esses barris e derramar esse líquido no chão.
- Deixa prá mim. – já falou o Saca Rolha
– Nessa arte eu sou doutor.
Pouco depois, todos saíram correndo para
não ficarem embriagados também, só com o odor! E até que se saíram bem, pois
foi nessa corrida que Saico Rendo tropeçou e caiu que nem um sapo. Quando se
levantou e sacudiu a poeira, viu um estranho chapéu ali jogado no mato. Não
teve dúvida, era o chapéu do Tarraco. Colocou-o em sua cabeça e no mesmo
instante desapareceu.
E Saico Rendo falou:
- Vocês estão me a ver?
E todos responderam:
- Nós, não!
- Funciona! – disse Pimpão – Com esse
chapéu na cabeça, não tem fantasma que nos vença. E voltaram em busca de seus
amigos.
Encontraram o Zeca Melo fazendo um
emplastro com folhas de mato nos fundilhos do Tarraco. Pelo visto devia estar
ardendo o traseiro do duende.
- Acharam o meu chapéu? – Perguntou ele
ao Pimpão, que então lhe respondeu:
- Ainda não.
E assim, ficaram sabendo que nem mesmo o
Tarraco havia detectado a presença de Saico Rendo.
- Agora nos acompanhe, - disse Pimpão ao
novo amigo – com nós estarás protegido.
- Sem o meu chapéu eu não sou ninguém! –
reclamou ele assustado.
E Pimpão intervém:
- Não, amigo, muito pelo contrário. Sem
ele você é gente, ouve, fala, vê e sente. Tu podes ficar sossegado eu prometo o
teu chapéu devolver, agora, vamos embora, temos muito que fazer,
- Vocês não andam à procura de fantasmas?
– Perguntou ele a Pimpão – Saibam que eu não sou nenhum deles e fantasma não se
pega com a mão!
- Então como? Você pode nos ensinar como
devemos fazer?
E o Tarraco explica:
- Primeiro vocês não devem ter medo de
nada, principalmente de estórias de fantasmas.
- Tudo bem. – disse Pimpão – Nós não
temos, pois não, turma?
E todos responderam:
- Nããão!
E o duende continua:
- Em segundo lugar alguém tem que ter uma
força colossal.
- Isso não é problema, em se tratando de
força, não encontramos rival.
- A terceira!?... são varas de marmeleiro
e visgo do visgueiro.
- E onde encontraremos as varas? –
perguntou o Saca Rolha.
- No sítio do senhor Osmar Mota. Uma para
cada um, para não fazer muito estrago. Mas é preciso ter cuidado, ele anda
sempre armado, atira até em sua sombra. Mas aí tem um porém, vocês têm de
prometer que nunca trairão um amigo, pois, se isso acontecer, tudo estará
perdido.
- Tudo bem, nós prometemos – disse Pimpão
decidido.
- Depois, - continuou o Tarraco – com o
leite do visgueiro, vocês farão um visgo e o passarão nas varas. Esse é o visgo
pega fantasmas, desse, eles não escapam! E vejam se acham também o meu chapéu.
Lembrando-se dos conselhos do amigo,
Pimpão segredou ao seu ouvido:
- O seu chapéu já apareceu, nós o
devolveremos assim que conseguirmos as varas de marmeleiro.
Contra a sua vontade, Tarraco teve de
concordar, pois lembrou do mau bocado em que ficou amarrado em cima do
formigueiro.
Ali mesmo eles iniciaram a procura
do visgueiro. Depois de encherem alguns canudos de bambu com o líquido viscoso,
regressaram a casa para comerem um angu delicioso.
Lá na casa havia muito tempo que seus
colegas tinham começado a fazer a polenta. Porém, quando pensaram que já tinham
terminado, eis que... sim, ele mesmo, o fantasminha! Que falou:
- Ai coleguinhas, está tanto frio aqui!
Tatá Manco, quis correr. Caio Fora,
disparou. Ronco Emato, desmaiou. Mari Ola se calou. E o fantasma deitou e
rolou. Só depois de algum tempo Mari Ola criou coragem, mas aí já era tarde,
era papa por todo o lado, no chão, na parede, no fogão. Mari Ola
correu, pegou um tição e arremessou-o no fantasma, que saiu correndo com a
ponta do lençol queimando, passando pela parede e indo direto ao poço.
Quando Pimpão chegou, trazendo aquele
baixinho barrigudo, orelhudo e narigudo, Ronco Emato gracejou:
- Foi isso que vocês caçaram para o
almoço?
E Pimpão já retrucou:
- Cadê a polenta, seu molenga?
Mari Ola então falou:
- O fantasma estragou, mas levou fogo no
rabo e descobri a maneira de vencer o excomungado.
- E qual é? - perguntou o Pimpão
duvidoso.
- É o fogo! – respondeu Mari Ola, ciente.
- Você tem razão, diz Pimpão, mas terão
de queimar tudo o .que aparecer à vossa frente.
E o duende explica:
- Olhem gente, com o fogo não se brinca!
Deixem prá lá essa idéia. Criança além de sair queimada, ainda ateia o fogo à
casa.
Pouco depois no caldeirão fervilhava
novamente a mesma papa de sempre.
Agora já saciados, Pimpão chamou Saico
Rendo, que continuava sobre o chapéu escondido, dizendo-lhe:
- Meu amigo, está na hora de ires buscar
as varas. Com esse chapéu na cabeça, vai ser moleza, é como tirar o doce de uma
criança.
Com a mão sobre o chapéu para não
deixá-lo cair, Saico Rendo saiu correndo. Ainda teria muito que andar até
chegar ao sítio do senhor Osmar Mota. Pegar as varas de marmeleiro não era
tarefa assim tão fácil, como falou seu companheiro. Primeiro teria de cortá-las
e depois carregá-las. E se isso não bastasse, ainda tinha um enorme cachorrão
que, embora não o visse, não parava de latir, o que fez o senhor Osmar Mota dar
mais uma volta pelo sítio com a arma engatilhada e concluir:
Tenho de arranjar urgente outro cachorro.
Coitado do Nero, não é o de Roma, mas, como ele, também ficou louco!
E assim, Saico Rendo conseguiu levar a
cabo a sua empreitada.
Na casa havia uma certa euforia. As varas
descascadas, o visgo esfriava na bacia.
Para relaxar, os garotos contavam piadas
que faziam arrepiar. (de fantasmas, prá variar). – Quem gostava era o Tarraco,
que ria sem parar. A essa altura, já sem bebida, dava a certeza de ser uma
criatura bem divertida.
Fora um árduo dia, muito trabalho, muita
correria. Anoitecia muito depressa na encosta daquela floresta. Orientados por
Tarraco, os garotos davam os últimos retoques em suas poderosas armas, as
varas.
Água na panela. Para o jantar tinha uma
comida diferente, para não fugir à regra era papa novamente!
Todos comeram sem reclamar, inclusive o
Tarraco, que com seu jeito espirituoso, assim falou para os demais:
- Vocês não vão reparar, nunca comi nada
tão fraco! Mas está delicioso e eu quero é mais.
Depois do jantar, mais piadas.
- Hora de dormir. – disse Pimpão – E
Tarraco preveniu:
- Vamos deixar as varas armadas, só assim
teremos a certeza de uma noite tranqüila.
Coitado, estava cheio de medo! Ele sabia
que se os fantasmas aparecessem, ele seria a primeira vítima.
Aparecer até que eles apareceram, mas
chegar perto, nem se atreveram. Teriam de assustar em outro lugar, pois aqueles
moleques haviam descoberto o segredo. Porém, não tinham com que se preocupar, o
seu castelo era invencível, impossível de lá entrar.
Quando o dia amanheceu, todos pegaram as
armas e Saico Rendo entregou a Tarraco o seu chapéu. E Tarraco que não era ingrato,
guiou-os até o castelo dos fantasmas.
Lá chegaram e o problema agora era
entrar, Fantasma não abre porta, passa em qualquer lugar. Ali não havia
entradas; com aquele enorme portão de metal emperrado, fechado por mais cem
anos, e pesando mais de dez toneladas, aqueles fantasmas tiranos sentiam
segurança total.
- Chegamos na hora certa. – o Tarraco
assim dizia – Se para vocês é hora da sesta, para eles é o sono do meio-dia.
- Mas fantasma também dorme? – pergunta o
Tatá Manco.
E o duende responde:
- Se dormem? E como! Roncam que é um
espanto!
- Será fácil então pegá-los. – disse
entusiasmado o Mari Ola.
- Claro que sim. – confirmou o Caio Fora.
E Tarraco advertiu os dois:
- De fantasmas, pegam-se apenas os
lençóis.
- Só os lençóis? – perguntou o Saca Rolha
– E os fantasmas?
- Ora garoto! Não existe fantasma sem
lençol. Vocês já viram algum deles atacar algum mortal? Nunca viram. Eles
apenas vos assustam, no entanto, nunca tocam em vocês. Isso é contra nossas leis. A nós, não. A
nós eles atacam e, se puderem, maltratam, por termos outros valores e sermos a
eles superiores. Assim vocês nos criaram.
- Nós!? - pergunta admirado Espigão.
- Sim, vocês mesmo, os mortais. Somos
fruto da vossa imaginação. E agora, o que farão para entrar no castelo?
E responde o Xaxim Nelo:
- Para isso nós temos a força de Pimpão!
E pimpão dá um empurrão no portão, que o
escancara de par em par.
- Tenham cuidado. – disse Tarraco – Agora
é com vocês, aí eu não vou entrar. Não destruam nada, cada um com sua vara,
apanhem somente os lençóis.
E lá vão eles então. Uns atrás dos
outros, uns tremendo, outros mais afoitos. Pimpão, por ser ele o mais valente,
era o que seguia a frente, puxando o pelotão.
Com todo o cuidado, entraram naquele
castelo mal assombrado. Era ronco por todo o lado.
Logo eles depararam com lençóis
espalhados por todo o castelo. E um a um eles iam sendo grudados naquelas
varas, até aquele queimado foi pego por Matus Quelo.
O ronco continuava, o que queria dizer
que nenhum fantasma havia despertado. E a turma procurava, mas pelo visto a
captura já havia terminado. Só o Pimpão viu um lençol que lhe chamou a atenção.
Parecia de um fantasminha que estava dormindo vestido.
E Matus Quelo Falou:
- Deixa comigo, esse aí eu vou pegar.
E Pimpão interveio:
- Essa Não! Esse fantasminha é uma
menina!
- Como você pode saber? – Perguntaram
seus colegas admirados.
Ele então lhes respondeu:
- Por acaso vocês já viram algum lençol
assim? Que tem os lábios pintados e está piscando prá mim?
- Ora Pimpão, deixa de ser convencido!
Não vês que, se é uma menina ela tem um olho torcido? - Toda fantasminha que se
preza, tem de ser vesga. Esse é o charminho que usa para chamar a atenção.
Enquanto dormia sonhava com o seu
príncipe encantado, e quando acordou a coitada sentiu-se apaixonada. Sim, deslumbrada,
ela olhava Pimpão! Ele não estava enganado.
De repente, o ronco cessou em todo o
castelo, o que de nada adiantou porque os nossos heróis: Peri Quito, Piro Lito
e Zeca Melo, já haviam amarrado todos os lençóis e grudado-os naquelas varas.
Coitados dos fantasmas, nem ousavam se aproximar, pois lá ficariam presos
também. E agora, sem roupa, não dava para assustar mais ninguém.
Era um grande dia de glória, os garotos
valentes, saíram contentes festejando a vitória.
Diziam os amigos:
- Viva o menino mais valente do sertão!
Viva o Pimpão, o grande vencedor!
Esquecendo-se que lá dentro, a um canto,
sozinha, uma pobre fantasminha chorava a sua dor.
Tarraco juntou-se a eles, agora mais à
vontade, atirava o seu chapéu para o alto e gritava:
- Viva a liberdade! Viva a liberdade!
Parando em certo momento, olhando bem para o Pimpão, perguntou-lhe:
- Você não esqueceu nada lá dentro?
- Eu acho que não! – Disse Pimpão
pensativo.
E volta a insistir o amigo:
- Você está bom da memória? Você que é um
menino inteligente, arranje um fim mais decente, para terminar sua estória.
- Minha estória? Que estória é essa?
Perguntou mais que depressa o Pimpão sem entender.
E Tarraco respondeu:
- É, amigo! Assuntos de coração... só lá
dentro você pode resolver.
Ele subiu a escada sem saber o que o
esperava, tremendo de emoção, sentindo somente a forte batida de seu coração.
Escutara lá dentro a um canto, um lamento, um pranto. Para lá se dirigiu e viu
que era aquela fantasminha. Pimpão não resistiu. Abraçou aquele lençol, mas ele
estava vazio. Mesmo assim, afagou aquele rosto, beijou aqueles olhos e sentiu
aquele gosto. Também aquelas eram lágrimas salgadas como de qualquer ser
vivente. Eram sinceras e sagradas, eram lágrimas fantasmas, eram frutos sem
semente.
E Pimpão segurava aquele rosto em sua
mão, A menina, apanhada de surpresa, deixou até de ser vesga, ficou ainda mais
linda!
- Qual é seu nome? – Perguntou ele.
- A mim me chamam Pimpolha. E o seu posso
saber?
Foi aí que ele resolveu brincar um pouco
e demorou a responder:
- Parece que os nossos nomes foram feitos
um para o outro, porque eu me chamo Pimpão.
Pimpolha corou, quase desmaiou.
- Ficou vermelhinha, vovô? – Perguntou
Mariazinha.
- Não, querida, não ficou vermelhinha;
lençol, quando cora, fica mais branco ainda! Ele pegou em sua mão; em sua
mão...na pontinha do lençol. E pimpolha seguia feliz a seu lado, descia a
escada, corria. Voava como uma pomba, fugia de um mundo de sombra em busca de
sol. Esquecia de tudo e entrava em outro mundo de vida verdadeira. Embora essa
vida fosse passageira, queria sentir o amor de verdade. Na conta do tempo,
mesmo que seja um momento, vale uma eternidade.
Ao chegar ao portão, Pimpão assim falou:
- Meus caros colegas, nós nos livramos
dos fantasmas, mas não de Pimpolha.
E o Saca Rolha, admirado:
- Mas então. Ela não era caolha?
- Não – falou Pimpão irritado. – Ela é
minha namorada, é uma menina decente, ela é amiga da gente, é fantasminha
camarada.
- Adeus, amigos. – despedia-se Tarraco
emocionado. – Não se esqueçam deste velho duende. Para ser sempre lembrado,
escrevam o meu nome em vossos livros.
E colocando na cabeça o seu chapéu,
desapareceu.
De volta à sua terra, aqueles garotos
foram recebidos por seus parentes e pelos amigos com uma grande festa. Não
havia ninguém que não admirasse a coragem, a valentia e a ousadia daquela
turma. Pimpão, o mais destemido, o seu apelido “Mama na Burra”, foi até
esquecido.
Todos juntos na sala outra vez, os nossos
estudantes, os mesmos que antes só tiravam “zero”, agora era só “dez”,
- Já sei - interrompeu Mariazinha.
– É que não tendo fantasmas eles prestavam mais atenção.
- Não, não! - interviu o vovô. – É que
tinha uma fantasminha naquela escola, que os ensinava e lhes passava cola.
Chegava de novo o verão, um outro fim se
aproximava e a menina fez um pedido a Pimpão:
- Solte os meus amigos! Eu prometo que
eles irão embora para outras terras.
- Deveras? Está falando sério? –
Perguntou Pimpão assustado. – E você vai me deixar, não sou mais seu namorado?
- Não! Este é o meu lugar, enquanto você
me quiser eu estarei sempre a seu lado.
Minha Pimpolha querida! – Tu és sonho, és
fantasia, és prosa e poesia, tu és o encanto da vida!
Dias depois, lá foi Pimpão novamente com
uma porção de gente.
Armas?... não era preciso, só levaram
sabão. Desataram lençol por lençol, lavaram tão lavadinhos!...Deixaram todos
branquinhos! Eles precisavam tirar-lhes o visgo. A fantasminha ajudava,
pendurando-os ao sol.
Quando lavaram o último, Pimpolha disse a
Pimpão:
- Agora vai com os teus amigos, deixa-me
ficar com os meus, temos algo a resolver. Esta minha decisão sei que eles irão
entender.
Pimpão voltava arrasado, cambaleava,
atingido bem fundo. Pimpolha o havia enganado, voltava a seu mundo.
Depois de muito andar, já quase chegando
a casa, sentiu o frescor de um lençol que lhe tapava a visão. Nem queria
acreditar, alguém falava ao seu ouvido:
- Eu voltei, meu querido.
Pimpão sentiu o trepidar de seu coração.
Aquele menino valente, se tornava impotente diante da força maior e à força do
amor ele também não resistiu. Olhava para Pimpolha, via e não acreditava,
aquele lençol branco aos poucos se transformava. Agora mais consistente, o seu
olhar se incendeia, já tinha forma de gente, deixava rastos na areia, fazia
sombra no chão. Tinha os olhos negros da cor do cabelo, os lábios vermelhos e
um rosto tão belo! Era a criatura mais bela que aparecera no sertão.
E Mariazinha perguntou:
- Vovô, ela casou com Pimpão?
- Ah Sim minha querida! Tiveram muitos
filhinhos e foram felizes na vida.
- E eles ainda vivem, vovô?
- Vivem sim. Na nossa imaginação.
- Vovozinho, eu quero um fantasminha para
mim.
- Ora, minha querida, a esta hora? Não
será fácil encontrá-lo. Mas vamos ver o que precisamos fazer para cria-lo: -
Três pauzinhos, agulha e linha, um pedaço de pano branco, ou mesmo um lenço,
quatro pedrinhas e uma conchinha.
- No outro dia a Maria acordou e correu
até o quarto do vovô, mas não o encontrou. A chuva havia parado e ele levantou
muito cedo, percorria a praia à procura do material que faltava para fazer o
brinquedo.
E quando foi à tardinha a Maria já
brincava com um lindo fantasminha.
Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada a fonte de origem.
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