Era uma vez... Um leão em plena
juventude, forte, valente e destemido. Um dia insinuou a seu pai o desejo
de conhecer outras terras, sair em busca de aventuras. Mas seu pai o avisou:
- Escuta o conselho que eu te dou, meu
filho: “De todos os bichos zombarás, só
do bicho homem, não”.
O jovem leão, prepotente e estouvado,
declarou:
- Saiba meu pai, que eu não tenho medo
de nada, nem de ninguém.
Seu pai respondeu:
- Quem avisa amigo é.
Imediatamente o leão saiu à procura do
tal bicho homem. Depois de alguns dias, já fora de seus domínios, encontrou com
um cachorro que era só pele e osso, e perguntou:
- Você é que é o tal do bicho homem?
- Eu não sou o bicho homem - disse o
cachorro - mas foi ele que me deixou assim. Quando eu era jovem, eu o ajudava
em suas caçadas. Agora que sou velho e não aguento mais correr, ele me pagou
com o abandono.
O leão rugiu:
- Se ele fez isso contigo, comigo há de
pagar tudo o que vos fez.
E saiu à procura do bicho homem. Mais
adiante viu um burro muito magro, que era só pele e osso, e perguntou-lhe:
- Você é que é o tal do bicho homem?
- Não, eu não sou o bicho homem, mas
foi ele que me deixou assim. Quando eu era novo, trabalhava para ele o tempo
todo. Ele me dava comida e muito trabalho. Agora que sou velho, me tocou de
suas terras e me deixou ao abandono.
Estava o leão já pensando:
- Esse tal de bicho homem deve ser
perigoso.
Continuou, então, em busca do bicho
homem. Mais adiante encontrou um boi tão magro, mas tão magro, que nem para o
açougue o quiseram.
O rei dos animais perguntou:
- Você é que é o tal do bicho homem?
- Não, eu não sou o bicho homem, mas
foi ele que me deixou assim. Quando eu era novo e forte, trabalhava para ele.
Era eu que arava a terra, que andava o dia todo a puxar o carro carregado, da
casa para a fazenda e da fazenda para casa. Quando eu fiquei velho e não servia
mais para nada, ele me abandonou. Nem na terra que eu tanto cultivei, não
posso entrar.
Irado o leão pensava:
- Esse tal de bicho homem deve ser um
animal muito perigoso.
Não muito longe dali...
- Acolá anda um bicho bem diferente!
Será ele o tal de bicho homem? Se for aquilo, não vai dar nem para começar a
brigar. Aquilo não aguenta um tapa no pé do ouvido.
O leão para lá se dirigiu. Quando o
homem viu o leão não dava mais para correr. Então pensou:
- Se correr o bicho pega, se ficar o
bicho come.
Como estava com uma enxada na mão, não teve outro remédio a não ser enfrentar a fera. Andava a carpir
as suas terras e a carpir ficou, fazendo de conta que não vira o leão.
O rei das selvas se aproximou e perguntou;
- Você é que é o tal do bicho homem?
Já raciocinando melhor, o homem respondeu:
- Sou eu sim, real senhor. Em que posso
ajudá-lo?
O leão agora mais manso confiando nas
palavras do homem, pensava: " O bicho homem não tem garras nem
dentes. Não pode ser tão perigoso assim".
- Por uma questão de honra, quero ter
uma luta contigo - rugiu o leão.
- Eu gostaria muito, alteza. Mas hoje é
impossível, tenho uma empreitada muito importante a terminar. Venha amanhã a
esta hora, que estarei à sua espera, neste mesmo local.
Convencido de que venceria a luta facilmente, o
leão foi embora. Já o homem foi afundar mais o poço de onde tirava água para
regar a plantação, que a aquela altura do ano, estava quase seco. Depois cortou
umas varas finas e atravessou-as na boca do poço, cobriu-as com um pedaço de
pano que tinha para lhe servir de abrigo, jogou um pouco de terra por cima e
umas folhas de mato. Ficou lá de guarda, a noite inteira para que nenhum outro
bicho lhe estragasse a caçada.
No dia seguinte, na hora marcada,
apareceu o leão rugindo alto, pondo de orelhas em pé todos os animais das
redondezas.
Já o bicho homem, do outro lado,
esperava calmamente. Seu medo era que o leão aparecesse sem avisar. Assim
avisando, sabia em que lado do poço devia se colocar.
O leão chegou sem grandes rodeios, não
fez como faz para caçar outros animais, se arrastar sorrateiramente para dar o bote.
Aquela luta havia sido contratada com antecedência. Ele iria rugir bem alto no
fim da batalha e saborear sua presa.
O bicho homem esperava tranquilamente o leão que
avançava. O animal avançou, avançou, avançou até cair dentro do poço. E lá ficou, sem comida, pouca água mas de sede não morreria. Ficou sem comida por muitos dias, tantos que já
nem rugia. Tantos que nem conseguia ficar de pé, de tão magro que estava.
Um dia, quando o homem percebeu que
podia com o leão, desceu lá em baixo, amarrou-o a uma corda e puxou-o para
cima. Deu um tapa na traseira daquela montoeira de ossos e falou:
- Agora vai lá para a savana e conta tua aventura para os teus amigos.
O rei dos animais ia cambaleando quando
encontrou o boi, que lhe perguntou:
- Tu encontraste o tal do bicho homem?
- Foi ele que me deixou assim -
respondeu.
Encontrou outros animais que lhe perguntavam:
- Encontraste o bicho homem?
E ele sempre respondia:
- Foi o bicho homem que me deixou
assim.
Ao chegar a casa, seu pai, quando finalmente o
reconheceu, disse-lhe:
- Meu filho! Mas o que fizeram contigo?
- Foi o bicho homem que me deixou
assim, meu pai.
Moral: “A astúcia vale mais que a força”.
" É melhor
correr atrás ou correr na frente?
Depende do que vem atrás da gente. "
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