Ali sentado no terraço, já dando sinais de
cansaço, vovô José meditava. Em sua cadeira de balanço, aproveitava o descanso,
que sua netinha lhe dava.
Contemplava a menina
que em seu colo dormia e o vovô José Maria os seus sonhos embalava.
Olhando aquele rostinho
com tanto amor e carinho, lembrava com nostalgia os seus sonhos de menino.
Às vezes voava tão
rápido, sem ao destino chegar, ou caía num abismo, sem nunca o fundo alcançar;
ou mesmo debaixo das águas conseguia respirar. E assim, sem perceber, deixava a
nostalgia tomar conta do seu ser.
O bom velhinho tremia e
baixinho suspirava, pelas faces do vovô uma lágrima rolava indo acordar a
Maria. Ela perguntou assustada:
- Vovozinho?!... O
senhor está chorando! O que é que o
senhor tem? Sua barriga está doendo? Eu
vou chamar a mamãe.
- Não querida, não
precisa se preocupar com o vovô, a minha dor já passou.
No mesmo instante a
menina já mudou de opinião. Prestava muita atenção num passarinho que pairava à
sua frente. Era muito interessante. Aquele era um pássaro diferente dos que
vira até então. E novamente perguntou:
- Vovozinho, por que
aquela avezinha voa em qualquer direção, voa para baixo e para cima e as outras
aves não?
Desta vez Maria não o
pegou de surpresa. E logo lhe respondia:
- Segredos da natureza.
No mundo da fantasia tudo tem o seu “Por Quê”. Esta é mais uma estória que
contarei para você.
Mariazinha suspirou,
ansiosa para escutar mais um conto do vovô. E a estória começou:
“Era uma vez uma terra
muito linda! Muito linda”!
A ilha do Mundaú era um paraíso encantado. O povo andava nu, lá não
existia o pecado. Havia um enorme lago! Um mar de água fervente, saindo de cada
lado um grande rio de água quente. Aqueles rios caudalosos, escaldantes e
tortuosos, se juntavam mais à frente. Deixando em sua trilha uma densa neblina,
mais parecendo uma cortina a esconder a bela ilha.
Dizia o povo da selva,
que era ali o fim da terra.
Tinha uma
imensa floresta, plantas de toda a espécie: a elegante bacurubu, a bela
marimari, cambará e jatobá, samambaiaçu e murici, muiraximbé, jacarandá,
iapunaque-naupé, caacó, guaraná e cipó. Tinha enormes castanheiras e as mais
belas palmeiras. A majestosa buriti, paxiuba, ubiguaçu, carnaúba, aricuri,
babaçu e juari. Tinha piaçaba, uacumã, juçara e jaci, acunã, marajá, murumuru,
maripá, anaiá, acuiuru e tantas mais. E uma quantidade infinda dos mais lindos
animais. A nobreza das araras: azul, vermelha, canindé, a linda maracanã, o
grito da guainambé, o papagaio xauã, tiriba e ajuru, aracarangá e araçoiaba. O
canto da juruviara, saíco, saíra, inhapim, o cantador caraxué, o belo cairuá, o
imitador japim. Tinha até araguirá, uiratauá e rubixá, o colorido araçari, a dança do uirataimi o
periquito tuim, quijuba, cacaué e cuiú-cuiú, o pio do inambu.
araguirá = tico-tico.
caacó = malícia-de-mulher, dormideira. caraxué = sabiá. guainambé = araponga.
iapunaque-naupé = vitória-régia.
E no marumbi e igapó, tinha biguá, tinha socó,
irerê, carará, anambé, cauitã, açanã, jaçanã e tuiuiu. E uma lenda que conta,
um canto que nos encanta: é o canto do uirapuru.
Uma imensidão de flores
enfeitava aquele chão, um povo muito bondoso formava aquela nação.
Ali vivia também, a doce cunhã Coli com sua mãe Tucari
e com seu pai Caaobi.
Cultivavam abati,
abatií, pipoca, mandioca e outros legumes e cereais. Preparavam no tipiti a
massoca para fazer o cuí.
Tinham como
alimentos principais: cambuquira, arabu, marapatá, mingau, caruru, pirão,
tapioca, beiju, cabiu, arubé e se deliciavam com o doce mel da jataí e da amiga
guaxupé.
Lá não havia riqueza e
nem tão pouco a pobreza, O povo plantava e colhia vivia em harmonia, respeitava
a natureza.
Tudo isso acontecia por
causa de caruana que naquele reino existia. Seu nome era Silhueta, todo mundo a
conhecia, mas ao certo ninguém sabia, se era branca ou era preta. Tinha um
moinho que em regra, fazia o cuí de pedra e com sua varinha de condão o
transformava em pão e aos pobres oferecia.
Por isso aquela gente
vivia em outra era, desconhecia completamente o que existia na terra.
Nas outras margens do
lago tudo era diferente: um povo muito malvado destruía o ambiente. Era o reino
Carcará, de onde soprava o vento e quem governava lá, era o bruxo Rabujento.
Viviam somente da caça,
sentiam prazer em matar, puseram fogo à mata, deixaram a floresta queimar. E
quando a mata acabou deixando o solo a descoberto, tudo que lhes restou era um
enorme deserto. E Rabujento o mais esperto, transformou-se em carcará. Também
tinha uiruuetê, acauã, canaá, quiriquiri, tauató e jerê, apecanim e piné,
uiruu, uiraçu e urubitinga, todas aves de rapina. E juntos com aquele povo no
meio daquela caatinga, comeram cobras e lagartos, grilos e gafanhotos. Sem
conseguir ficar fartos já comiam uns aos outros.
Logo a fome começou e
com ela não há paz e o povo declarou guerra aos carcarás. Estes apavorados
viviam em sobressalto, estavam sendo caçados voavam cada vez mais alto. Porém,
tinham que descer, eles precisavam de comida, e era cá em baixo, no chão, que
eles viravam refeição.
E o bruxo Rabujento,
depois de fazer tanto estrago, só tinha uma saída para arranjar comida:
atravessar o grande lago.
Como grande
aventureiro, ele e outros carcarás deixaram seu reino para trás, perderam-se no
nevoeiro. E depois de muito tempo, já sem forças para voar, carregados pelo
vento, viram uma luz brilhar. Era o fim da viagem, um novo reino ou miragem?
abati = milho. abatií =
arroz. abunã = ovos de tartaruga, pirão, farinha de mandioca. arubé = pão de
farinha de mandioca. beiju = bolo de massa de mandioca. caaobi = mato verde.
caatinga = mato enfezado, terra estéril. cabiu = suco de mandioca. cambuquira =
guisado de carne, brotos e flores da aboboreira. caruana = ente benfazejo.
caruru = carne de galinha, peixe, quiabo, azeite-de-dendê, pimenta. cunhã =
menina. cuí = farinha. Igapó = pântano dentro das matas. jataí e guaxupé =
abelhas melíferas, sem ferrão. marapatá = bolo de mandioca mole, banha de
tartaruga, castanha-do-pará, assado na folha de bananeira. marumbi = lagoa
cheia de tabua. massoca = massa de mandioca. pirão = qualquer alimento apresentado
em forma de pasta: batata, arroz, mandioca, etc. tipiti = cesto cilíndrico
feito com talas de palmeira, onde se mete a massa de mandioca para fazer a
massoca, de onde se faz o cuí e outros derivados de mandioca. Tucari =
castanha-do-pará.
Não sabia o que o
esperava, mas com a fome que estava, ele, o grande carcará e de todos o mais forte, iria levar a
morte a quem quer que houvesse lá.
Tantas aves
para comer, tantos filhotes nos ninhos... daqueles pobres passarinhos não
tinham nada a temer. Mas não se aproximavam do povo, não queriam guerra de
novo. E estes malvados, só comiam os pássaros pequenos que apareciam menos e
nem eram notados.
Só Silhueta
percebia o que acontecia. Há muito tempo não via Rabujento Eram velhos
conhecidos de tempos antigos, porém, nunca foram amigos. O dia em que não tinha
vento, Silhueta dizia:
- Como é
bom este dia de calmaria. Rabujento, só para a contrariar, começava a assoprar,
assoprar. Ela aproveitava e punha o seu moinho para rodar. O cuí saía, e
Silhueta gritava:
- Pára,
pára. Ó meu Deus, eu não agüento este velho Rabujento.
Quanto mais
ela gritava mais ele assoprava. E assim com esta faceta, quando não tinha
vento; Lá vinha Rabujento perturbar Silhueta.
Para
aquelas avezinhas, aquele paraíso não era o mesmo; os seus ninhos, assaltados,
seus filhos, roubados. Seus cantos bonitos não passavam de gritos, soltados a
esmo.
Sem
passarinhos para defender a floresta, as lagartas faziam a festa. E assim, com
toda a certeza, iniciava-se mais um desastre na natureza.
Havia muito tempo que Silhueta tentava
derrotar Rabujento, porém, ele era esperto, por isso nunca deu certo.
Depois de
tentar muitos anos, de elaborar planos e mais planos, sentiu que era o momento
e não voltaria atrás. Não venceu Rabujento, mas venceria os carcarás. Precisava
de ajuda e saiu á procura.
Encontrou
uma porção de crianças que choravam sem parar. Era Coli e seus amiguinhos: que
viram os carcarás a pegar passarinhos. Silhueta perguntou:
- Vocês
querem me ajudar? E todos responderam:
- Queremos,
o que faremos?
- Encontrei
a solução. E a todos tocou com a sua varinha de condão.
Todos
adormeceram, foram levados ao mundo dos sonhos. Um mundo difuso e muito
confuso. Estavam assustados meio enfadonhos, mesmo acordados com aquele
barulho, não reconheciam nada mas ouviam tudo.
Coli sentiu muito frio e medo também, pois ela
ali, não conhecia ninguém. Escondia-se no meio das plantas, fugia das outras
crianças. Todas brincavam, eram tantas que por ela chamavam:
- Coli, eu
quero ser seu amigo, vem brincar comigo. Ela nem respondia. Prestava atenção em
tudo que via. Eles eram todos iguais, um só, diferente. Era pequeno demais, um
pingo de gente. Gritava bem alto do alto da pedra. Queria ser notado, de tão
pequeno que era.
- Coli, eu
quero ser seu amigo, fala comigo. Coli foi conhecer o novo amigo. E seu nome
perguntou. Ele respondeu:
- Eu me
chamo Bri. Coli gostou. Uma voz avisou:
- Todos
para a sala, que vai começar a aula.
Era o
professor sério e sisudo, que não abria os olhos, mas via tudo. E Coli
perguntou a Bri:
- Quem é
esse homem aí? E Bri respondeu:
- É o rei
dos sonhos. É ele quem resolve casos estranhos.
- E de onde
você veio que eu nunca te vi?
- Eu? Eu
moro aqui.
- Vamos à
primeira lição, dizia o professor. E Coli, já intervém:
- Mas eu
não sei nada senhor.
- Essa é a
razão, saber que não sabe, já resolvemos a primeira questão. Então comece a
estudar decidida, sem arrogância. O estudo é na vida, a morte da ignorância.
Mundo de sonho é saudade, não é o fim, é persistência. Os sonhos são na
verdade, reflexos da consciência.
- Agora
chegou a hora de começar o trabalho. Busquem o vosso caminho. Se procurarem um
atalho, não chegarão ao destino.
Pouco
depois todas as crianças dormiam. Era um sono do qual nunca acordaram. E
sonhavam o sonho dos sonhos. Sonhos de todas as idades, de todos os tamanhos,
dos mais alegres aos mais tristonhos.
Coli também
sonhava, um sonho oriundo, estava na terra mais linda do mundo. Percorria os
mesmos caminhos e seus arredores, mas não escutava o canto dos passarinhos, nem
via flores.
As lagartas
devoraram tudo que de belo existia naquele mundo. Sobraram apenas algumas
plantas com muitas flores brancas. Em seu sonho ela pensava:
- Meu Deus!
Por que será que na minha terra só tem carcará?
Não há hora
para sonhar, sonho não tem era nem tempo, sonha-se em qualquer lugar, a
qualquer momento. E todos naquela sala, foram acordados por um bater de palmas.
Os meninos,
todos risonhos, comentavam seus sonhos:
- Vou te
contar um sonho genial, que eu tive: Eu vou ser general. Eu, detetive. Eu vou
ser motorista. Eu, um pintor. Quero ser artista. Eu, professor. Quero ser
cantor. Eu vou ser marceneiro. Eu, engenheiro.- Eu, um doutor. Eu quero um
triciclo.- Eu, eu sou político.- Eu vou ser químico. Eu, aviador. E Coli,
perguntou baixinho:
- E você o
que sonhou, Bri?
E ele tristinho:
- Eu? Eu
nem dormi!
Gritou o
professor:
- Chega.
Vocês vão para a fila de espera. Terão que nascer em outra era.
Virando-se
para Coli, perguntou:
- Você aí,
o que sonhou?
- Eu sonhei
que a minha terra já não existe, era tão linda! Está tão triste! Quero ir para
lá, quero ser um passarinho para expulsar o carcará.
E diz o
pequenino Bri:
- Não, não
me deixe sozinho. E segurou em sua mão.
Abrindo os
olhos, o mestre todo animado falou:
- Sonho
realizado.
Ele nem
notou que Coli e Bri estavam de mão dada. O certo é que quando abria os olhos,
ele não via nada.
Por isso,
quando Coli saiu voando pela janela, Bri saiu voando com ela.
Tão
pequeninos, tão iguaizinhos, que todos gritaram:
- Olhem! É
Colibri!
E assim,
com muito amor, nascia o primeiro casal de colibris, por nós chamados de
beija-flor.
Coli e seu
companheiro, voaram o dia inteiro, pousando às vezes para descansar e se alimentar nos ramos do abajeru
até chegar em Mundaú.
Silhueta já
havia preparado a chegada. Ela mesma, não estava. Muitas plantas, muitas flores
brancas. Como Coli sonhara. E como cheiravam bem, tinham até um perfume de mãe.
Sim, Coli
não se enganava, sua mãe também estava lá para pegar o carcará. Atraídos por
tão inebriante odor, buscavam o mais delicioso néctar no seio de cada flor.
O bruxo
Rabujento não tinha com que se preocupar, se Silhueta sumiu, é por que desistiu
de lutar
Lá de
longe, ele observava os dois passarinhos parados no ar, voando sozinhos. Logo
pensou:
- Oba!
Tenho carne para o almoço.
Sem fazer grande
alvoroço, saiu disparado. Mas foi traído pelo frêmito de suas asas rasgando ar.
E foi notado.
Aquelas
avezinhas, num piscar de olhos, saíram uma para cada lado, deixando o carcará
atordoado. Ele não conseguiu parar a tempo e enfiou-se pela planta adentro. Ela
o segurou com seus espinhos em forma de garra.
De suas
flores em forma de jarra, saíram enormes cabeças de víbora. E assim nascia
também, a primeira planta carnívora.
Só assim,
com inteligência e discernimento, Silhueta conseguiu vencer Rabujento. Na
terra, Rabujento era muito forte, não acreditava na sorte, seria difícil
levá-lo à morte. Mas o carcará estava no ar, não podia se transformar.
Já Silhueta
não, estava ali bem plantada, seus pés fincados no chão.
Poderia ser
ali o fim de Rabujento se Silhueta quisesse. Mas ela ficou pensando:
- Fiquei
todo esse tempo com ele me atormentando, ele vai ter o que merece.
Quando foi
de encontro à planta, o carcará se feriu, seu sangue caiu no chão. Logo,
naquele momento, pegando o sangue na mão, Silhueta proferiu:
- Saia daí
Rabujento.
Rabujento
voltou já disposto a atacar. Silhueta lhe ordenou:
- Agora sou
eu quem vai mandar. Tu, ó grande carcará, que eras o rei da floresta, voavas
como uma flecha e só comias carne fresca, agora serás urubu. Serás o rei da
preguiça e só comerás carniça até limpares Mundaú.
E Mundaú
voltou a ter passarinhos que cantam seus hinos, que comem lagartas que comem as
folhas. Mas tem borboletas, também tem flores, tem perfume, tem vida, tem cor,
tem até beija-flor. A ilha de Mundaú voltou a ser um paraíso, até mesmo o
urubu, Silhueta viu que era preciso.
Depois que
tudo melhorou, quando chegou o momento,
Silhueta se mudou da ilha do Mundaú. Levou consigo Rabujento, mas deixou ficar
urubu.
E não muito
longe dali, em outra terra vizinha, Silhueta põe o seu moinho para moer, e
fazer a farinha.
Como lá tem
muito vento e não tem o que fazer, Rabujento assopra a farinha. E Silhueta
grita:
- Pára,
pára. Ó meu Deus! Assim eu não agüento este velho Rabujento.
Ele assopra, assopra, a farinha voa e ela grita. Mas na verdade ela gosta.
Ele assopra, assopra, a farinha voa e ela grita. Mas na verdade ela gosta.
Hoje,
eles moram lá em cima, fazendo farinha no Pico da Neblina.
Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada a fonte de origem.
Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada a fonte de origem.
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