sábado, 20 de outubro de 2012

Fábulas - A Justiça dos Homens



Era uma vez... Um pescador que andava pela beira da praia e encontrou um tubarão preso a uma rede.
Ele aproximou-se do tubarão que lhe pediu para que o soltasse. O homem ficou com pena do animal e libertou-o. 
Mas o tubarão que estava há muitos dias preso e com muita fome, assim que se viu solto, atirou-se sobre o homem e segurou-o para o comer. 
O homem muito aflito gritava:
- Mas isso não pode ser. Ainda agora te salvei da rede e tu queres me comer?
O tubarão respondeu:
- Vou-te comer para não morrer de fome.
- Pois não me comas sem antes escutarmos três conselhos dos três primeiros fôlegos vivos que encontrarmos. Se todos falarem por uma boca, está o julgamento aprovado. Mas se falar um por uma boca e dois por outra, a maioria é que vence.
Eles chegaram perto da terra, avistaram um burro velho e perguntaram:
- Óh burro! Por bem fazer, mal haver?
Respondeu o burro:
- Sempre foi e há de ser.
- E por que tu dizes isso? - perguntou o homem.
- Porque quando eu era um burro novo, meu amo até numa rede me trazia por causa das moscas. Quando ele ia montado, eu ia alegre e saltitante. Agora que sou velho, ele desprezou-me, deixou-me às moscas. Pagou-me o bem com o mal.
- Como vês, homem, um já está a meu favor - disse o tubarão.
Pouco depois passa um galgo velho em pele e osso.
Pergunta-lhe o homem:
- Por bem fazer, mal haver?
Responde o galgo:
- Sempre foi e há de ser.
- Por que tu dizes isso? 
- Por que quando eu era galgo novo, meu amo ia comigo para o monte à caça e eu corria aquela serra toda atrás de caça para ele. Tinha-me tanto amor que não dava um passo sem mim. Hoje que estou velho abandonou-me, deixou-me aqui ao Deus dará, que nem forças para procurar comida não tenho mais. Pagou-me o bem com o mal.
O tubarão já se preparava para comer o homem quando este disse:
- Alto lá, ainda falta um.
Apareceu então uma raposa e o homem perguntou-lhe:
- Por bem fazer, mal haver?
E a raposa respondeu:
- Não. Eu não posso lavrar a sentença sem antes ver o crime.
Pergunta o homem:
- Então como se há de restabelecer a cena do crime?
Responde a raposa:
- Volte o tubarão para a rede. Só assim nós teremos condições de reconstituir tão nobre causa.
O tubarão não gostou da decisão da raposa, mas por uma questão de justiça, foi para a rede.
O homem assim que o viu na rede, enroscou-o mais do que estava antes.
A raposa então falou:
- Agora que venha o homem cá para a terra.
Quando o homem chegou a terra, a raposa voltou-se para o tubarão e proferiu a sentença:

“Por bem fazer, mal haver.
Sempre foi e há de ser.
Quem quiser fugir que fuja.
Que eu assim vou fazer.”

O homem fugiu para um lado, a raposa para o outro e o tubarão ficou preso na rede.
Logo mais adiante, a raposa fingiu-se de morta, no caminho, à frente do homem. O homem chegou até ela e disse:
- Ai! Coitadinha da raposa. Ainda agora me salvou e já fizeram uma maldade destas com ela.
Pegou a raposa, tirou-a do caminho e disse:
- Descansa em paz amiga - e foi-se embora.
A raposa levantou-se e foi outra vez colocar-se no caminho à frente do homem a fingir-se de morta.
Novamente, o homem teve pena dela e tirou-a do caminho. Mas a raposa voltou pela terceira vez e deitou-se à frente dele. Achando que a raposa estava a fazer pouco caso, pegou uma vara e deu-lhe umas boas varadas.
A raposa se levantou e falou:
- Vês homem! Como me pagas o bem com o mal? Por bem fazer, mal haver.
Irritado o homem correu atrás dela. A raposa correu à frente, foi a casa do homem e comeu-lhe as sete galinhas que tinha na capoeira. Mas a porta da capoeira se fechava sozinha e só abria por fora. E a raposa ficou trancada lá dentro.
Quando o homem chegou a casa, viu a raposa trancada na capoeira e não viu as galinhas. Então pegou um pau e começou a correr atrás da raposa, que gritava:
- Perdoe-me, senhor juiz, que eu sete lhe comi, mas quatorze lhe darei, nem que eu à fome morra. Eu só não quero sentir, o peso da sua cachaporra.

Moral: “Onde não há justiça, não há direito”.
        “O juiz é condenado quando o culpado é absolvido”.




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