Era
uma vez... Um pescador que andava pela beira da praia e encontrou um tubarão
preso a uma rede.
Ele
aproximou-se do tubarão que lhe pediu para que o soltasse. O homem ficou com
pena do animal e libertou-o.
Mas o tubarão que estava há muitos dias preso e
com muita fome, assim que se viu solto, atirou-se sobre o homem e segurou-o
para o comer.
O homem muito aflito gritava:
-
Mas isso não pode ser. Ainda agora te salvei da rede e tu queres me comer?
O
tubarão respondeu:
-
Vou-te comer para não morrer de fome.
-
Pois não me comas sem antes escutarmos três conselhos dos três primeiros
fôlegos vivos que encontrarmos. Se todos falarem por uma boca, está o
julgamento aprovado. Mas se falar um por uma boca e dois por outra, a maioria é
que vence.
Eles
chegaram perto da terra, avistaram um burro velho e perguntaram:
-
Óh burro! Por bem fazer, mal haver?
Respondeu o burro:
-
Sempre foi e há de ser.
-
E por que tu dizes isso? - perguntou o homem.
-
Porque quando eu era um burro novo, meu amo até numa rede me trazia por causa
das moscas. Quando ele ia montado, eu ia alegre e saltitante. Agora que sou
velho, ele desprezou-me, deixou-me às moscas. Pagou-me o bem com o mal.
-
Como vês, homem, um já está a meu favor - disse o tubarão.
Pouco
depois passa um galgo velho em pele e osso.
Pergunta-lhe
o homem:
-
Por bem fazer, mal haver?
Responde
o galgo:
-
Sempre foi e há de ser.
-
Por que tu dizes isso?
-
Por que quando eu era galgo novo, meu amo ia comigo para o monte à caça e eu
corria aquela serra toda atrás de caça para ele. Tinha-me tanto amor que não
dava um passo sem mim. Hoje que estou velho abandonou-me, deixou-me aqui ao
Deus dará, que nem forças para procurar comida não tenho mais. Pagou-me o bem
com o mal.
O
tubarão já se preparava para comer o homem quando este disse:
-
Alto lá, ainda falta um.
Apareceu
então uma raposa e o homem perguntou-lhe:
-
Por bem fazer, mal haver?
E
a raposa respondeu:
-
Não. Eu não posso lavrar a sentença sem antes ver o crime.
Pergunta
o homem:
-
Então como se há de restabelecer a cena do crime?
Responde
a raposa:
-
Volte o tubarão para a rede. Só assim nós teremos condições de reconstituir tão
nobre causa.
O
tubarão não gostou da decisão da raposa, mas por uma questão de justiça, foi
para a rede.
O
homem assim que o viu na rede, enroscou-o mais do que estava antes.
A
raposa então falou:
-
Agora que venha o homem cá para a terra.
Quando o homem chegou a terra, a raposa voltou-se para o tubarão e proferiu a sentença:
“Por bem fazer, mal haver.
Sempre foi e há de ser.
Quem quiser fugir que fuja.
Que eu assim vou fazer.”
O
homem fugiu para um lado, a raposa para o outro e o tubarão ficou preso na
rede.
Logo
mais adiante, a raposa fingiu-se de morta, no caminho, à frente do homem. O
homem chegou até ela e disse:
-
Ai! Coitadinha da raposa. Ainda agora me salvou e já fizeram uma maldade destas
com ela.
Pegou
a raposa, tirou-a do caminho e disse:
-
Descansa em paz amiga - e foi-se embora.
A
raposa levantou-se e foi outra vez colocar-se no caminho à frente do homem a
fingir-se de morta.
Novamente,
o homem teve pena dela e tirou-a do caminho. Mas a raposa voltou pela terceira
vez e deitou-se à frente dele. Achando que a raposa estava a fazer pouco caso, pegou uma vara e deu-lhe umas boas varadas.
A
raposa se levantou e falou:
-
Vês homem! Como me pagas o bem com o mal? Por bem fazer, mal haver.
Irritado
o homem correu atrás dela. A raposa correu à frente, foi a casa do
homem e comeu-lhe as sete galinhas que tinha na capoeira. Mas a porta da
capoeira se fechava sozinha e só abria por fora. E a raposa ficou trancada lá
dentro.
Quando
o homem chegou a casa, viu a raposa trancada na capoeira e não viu as galinhas. Então pegou um pau e começou a correr atrás da raposa, que gritava:
-
Perdoe-me, senhor juiz, que eu sete lhe comi, mas quatorze lhe darei, nem que
eu à fome morra. Eu só não quero sentir, o peso da sua cachaporra.
Moral:
“Onde não há justiça, não há direito”.
“O juiz é condenado quando o culpado é
absolvido”.
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