domingo, 16 de dezembro de 2012

Contos Antigos - O Carneirinho Branco



Eram altas horas, a lua cheia transmitia o mais belo luar a aquela linda noite gelada do mês de janeiro, quando o meu avô José Ribeiro Salvador e minha avó Maria dos Santos chegaram a casa.
Vinham de uma feira em um lugar distante e minha avó tinha um açafate à cabeça. Eles entraram em casa e trancaram o portão. Um portão de madeira fechado de baixo em cima, por onde passava o carro de bois. O pátio da casa não era grande, mas era fechado com a parede da casa vizinha e com muro ao fundo. Tudo isso eu conheci, só não conheci meu avô.
Para surpresa de ambos, o que encontraram no pátio... Um carneirinho branco que corria de um lado para o outro. Eles pensaram que era um carneiro alongado de algum rebanho.
Meu avô ajudou minha avó a arriar o açafate e falou:
- Cerca de lá Maria. Cerca, cerca esse carneirinho que é para o batizado do nosso Manuel (Meu tio Manuel era o filho mais velho).
Meus avós, com um pedaço de pau cada um, começaram a cercar o carneiro da parte mais larga do pátio para o lado do portão. A entrada fazia parte da residência, de um lado, moradia, do outro, celeiro.
Quando o carneiro chegou ao portão, meu avô e minha avó ficaram todos felizes. Por ali ele não tinha como escapar. Nem por ali nem por lugar nenhum. A festa do batizado estava garantida. E eles foram chegando cada vez mais perto...
Quando meu avô deu o bote para pegar o carneiro, este passou por debaixo do portão, por um lugar que não dava para enfiar nem a palma da mão. Meu avô abriu o portão mais que depressa e viu o ti’ João Toito a pegar a cântara e perguntou-lhe:
- Aonde vais João?
- Vou buscar água à fonte...

Nota: Este não era um conto, era considerado um caso verdadeiro e contado por minha avó. O tal de João Toito era tido como lobisomem e a lenda do lobisomem na minha terra (Portugal) era diferente da que vim a aprender mais tarde no Brasil.
O lobisomem, assim como as bruxas, era uma pessoa que nascia predestinada a cumprir essa sina. Em noites de lua cheia ele saía de casa à meia noite e rolava no rasto do primeiro animal que encontrasse. E ali se transformava nesse animal.


        

Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

domingo, 25 de novembro de 2012

Contos Infantis - A Princesa Encantada



Era uma vez ... Um príncipe, cujo nome era Girassol, de seu pai o rei Cravo, e de sua mãe a rainha Rosa.
O príncipe gostava muito de caçar, ou melhor, sair para a floresta. Quando fez vinte e um anos, ganhou uma espingarda de presente da sua madrinha, a fada Margarida.
Quando saía para caçar, andava o dia todo, comia frutos silvestres, bebia água das nascentes, local onde encontrava todas as aves e todos os bichos da floresta, filhotes de todas as espécies. Todos eram seus amigos. E olha que ele era caçador! Mas, a bem da verdade, se carregava a espingarda consigo, era para espantar as raposas e os lobos que faziam um grande estrago na fauna daquela floresta. Mas a natureza é sábia, todos os animais são importantes para o equilíbrio.
Ou o príncipe não sabia atirar, ou não queria saber mesmo, porque sua arma nunca matou nenhum bichinho.
Rei Cravo andava preocupado com as atitudes do príncipe. Ele queria que seu filho fosse um guerreiro para que, quando herdasse a coroa, pudesse defender o reino. Um dia o rei mandou chamar a fada madrinha para que ela mudasse a vida de Girassol.
A fada Margarida disse para o rei:
- Não podemos mudar a sina a uma pessoa, mas sim, lhe indicar o melhor caminho.
No outro dia bem cedo, o príncipe se preparava para sua caçada habitual, quando sua madrinha apareceu.
- Girassol trago aqui três pacotinhos e os três eu vou lhe dar. Porém, só os poderás abrir perto da água. Só perto de água, entendeu? Isso é muito importante.
E colocou os três pacotinhos na mochila do príncipe.
- Entendi minha madrinha, assim farei porque assim me pedes, mas confesso que já estou com vontade de abrir um agora.
- Não o faças, porque terás um grande desgosto.
E o príncipe partiu para mais um dia de aventura pelas trilhas da floresta. Depois de já ter percorrido uma boa distância mata adentro, o príncipe lembrou-se do conselho da madrinha: “Só perto da água”.
- O que será que tem dentro desses pacotinhos que minha madrinha me deu e que só podem ser abertos perto da água? - perguntava o príncipe, de si para si mesmo.
- Bolinhos salgados? Bolinhos doces? Só pode ser.
- Só perto da água? Que nada. Eu como um agora e bebo a água depois.
Encostou a arma na árvore, tirou a mochila das costas e pegou um pacotinho de dentro da mochila.
- Do que será este pacotinho? Deve ser um lanche bem gostoso - pensava ele - senão a minha madrinha não o iria me dar.
Mas quando abriu o pacotinho, a surpresa. O que saiu lá foi uma princesinha muito muito linda! Que logo lhe pedia:
- Dá-me água, senão eu morro. Dá-me água, senão eu morro. Dá-me água, senão eu morro.
O príncipe saiu a correr á procura de água. Procurou em toda a volta, mas não encontrou e, quando voltou, a princesinha estava morta. Ali abraçado a ela ele chorava:
- Não me deixes. Não morre não.
Mas nada podia fazer, já estava morta. Enterrou-a encostada a uma árvore, fez uma cruz de paus e foi-se embora chorando.
- Mas que estúpido que fui, se tivesse escutado os conselhos da minha madrinha minha princesa não estaria morta. Eu tinha justo que pegar o pacote onde estava a princesinha? E agora o que vou fazer com os outros dois pacotes? Aquele pacote tinha a princesa, o que haverá nos outros?
E a tentação voltou à sua cabeça:
- Não. Agora só vou abrir perto da água.
Andava a esmo pelo mato, estava completamente perdido. Ele que conhecia cada fonte, cada regato, já não encontrava nem o caminho de volta.
Preparou-se para comer. Encostado a uma árvore, tirou o lanche da sacola, olhou para os outros pacotes e pensou deviam conter alguma coisa para dar à princesa
- Não. Agora só vou abrir perto da água.
Começou a comer o lanche que levava, olhou para o pacotinho e disse:
- Este eu vou abrir. A princesinha já morreu mesmo! Agora não me interessa o que possa haver nestes pacotinhos.
E abriu o segundo. Saiu de lá outra princesinha, ainda mais bela que a primeira e pediu-lhe:
- Dá-me água, senão eu morro. Dá-me água, senão eu morro. Dá-me água, senão eu morro.
E o príncipe já sabendo de antemão o que ia acontecer, não quis deixá-la sozinha e abraçado a ela, tentava molhar-lhe os lábios com os seus próprios lábios.
- Nãooo! Não morre não.
Mas, a princesinha já estava morta.
O príncipe saiu arrasado daquele lugar. Como ele poderia imaginar que sua madrinha lhe pregaria uma peça dessas? Colocar duas princesinhas tão belas dentro de dois pacotinhos em sua mochila. Não, sua madrinha tinha sido cruel. Mas por que também não obedeceu às ordens?
- Não, eu não vou me perdoar. Não podia ter feito isso, minha madrinha me avisou...
Levantou a cabeça procurando se lembrar onde estava. Sim, agora sabia onde estava. E saiu em direção a um lugar bem distante, onde existia uma fonte. Quando chegou já era mais de meio dia.
Aproximou-se da água. A ansiedade para saber o que sua madrinha tinha preparado para ele estava deixando-o angustiado.
- O que será que este pacote contém?
Abriu-o com o coração pequenino, pequenino. Mas... Outra princesinha ainda mais bonita que as duas primeiras apareceu e pediu-lhe:
- Dá-me água, senão eu morro. Dá-me água, senão eu morro. Dá-me água, senão eu morro.
O príncipe estava tão ansioso que nem se lembrava que estava tão perto da fonte.
Quando a princesinha estava dando os últimos suspiros é que ele se lembrou da água.
- Queres água? Queres água?
Pegou a princesinha pela cintura e mergulhou-a na água. Era tanta a sua ansiedade em lhe dar água que quase a mata afogada. Quando a tirou da água ela agradeceu:
- Vossa Alteza é o meu príncipe, o meu Salvador.
O príncipe estava tão preocupado com a princesinha que lhe perguntou:
- Queres mais água? Tu queres mais água?
Ela aflita espondeu:
- Deus me livre! Já bebi água demais!
- Então fica aqui sentada ao pé da fonte, não sai deste lugar, que eu vou buscar uma carruagem para te levar. Não demoro. Quando quiseres água, é só abaixar e beber.
E saiu correndo como uma gazela.
Muitas pessoas iam buscar água àquela fonte. E todas se admiraram com a beleza daquela donzela ali sentada ao lado da bica d’água. Uma das pessoas que freqüentavam a fonte era uma feiticeira feia e muito má. Vendo aquela moça tão bela, ali sentada sozinha, foi conversar com ela:
- O que estás aqui a fazer assim sozinha, meu anjo?
A princesinha inocente, que nada conhecia das maldades do mundo, respondeu:
- Estou aqui à espera do meu príncipe que foi buscar uma carruagem para me levar, minha boa senhora.
- Aaah! O príncipe? Eu conheço o príncipe. Ele é muito meu amigo.
A princesinha muito contente por haver arranjado uma amiga para conversar, passava as mãos em seus longos cabelos dourados.
A feiticeira logo perguntou:
- Quer que eu a cate? Quer que eu a cate?
A princesa que nem sabia o que ela estava a falar, perguntou:
- Catar o quê?
- Catar piolhos - disse a feiticeira.
- Piolhos? Mas o que são piolhos?
- São uns bichinhos que você tem aí a rabear em sua cabeça.
- Bichinhos na minha cabeça?
- Sim - afirmou a feiticeira - e o príncipe não gosta de princesas piolhentas. Se ele souber que você tem piolhos, não vai chegar perto de você.
- Tira esses bichinhos de mim.
- Então deita a tua cabecinha no meu regaço.
A princesinha deitou a cabeça no colo da feiticeira que começou a alisar seus cabelos. A princesa fechou os olhos, sentindo um leve torpor. Nisso, a feiticeira pegou um alfinetinho de ouro, que sempre trazia consigo, espetou-o na cabeça da princesa, que se transformou numa pombinha branca, e voou.
Quando à tardinha o príncipe chegou com a carruagem, correu direto para a fonte. Mas não viu a princesa, viu apenas uma senhora sentada no mesmo lugar onde havia deixado sua amada. E lhe perguntou:
- Aqui neste mesmo lugar, eu deixei sentada uma princesinha. A senhora sabe me dizer para onde ela foi?
- Ora, meu príncipe querido! - disse a feiticeira - Não vá dizer que Vossa Alteza não me reconhece! Sou eu! Eu sou a princesa que à pouco deixaste aqui!
- Não, não pode ser! Ela era bem branquinha e você está queimada do sol.
- Ora meu querido! Se não querias que eu ficasse queimada, por que me deixaste ao sol?
E o príncipe, triste, levou para o palácio aquela que dizia ser a princesa que havia salvado.
Começaram os preparativos para o casamento. A feiticeira estava sempre a lembrar o príncipe para que abreviasse o dia. E o dia foi marcado. Só precisariam de dois meses para os preparos.
A noiva levantava ao meio dia, tinha criados para lhe levar o café à cama, para lhe lavar os pés, para colocar os sais para os seus banhos. Estava, sem dúvida, levando uma vida de princesa.
Contudo, o príncipe estava entristecido. Nunca mais visitara sua princesa, pois ela estava mudada, muito raivosa e exigente. Não! Aquela não podia ser a princesinha da fonte.
Na horta atrás do palácio, também acontecia algo diferente, que estava a chamar a atenção do hortelão. Nestes últimos dias, aparecia lá uma pombinha, todos os dias, ao pôr-do-sol, na mesma árvore, no mesmo galho, à mesma hora, e lhe dizia:
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a sua noiva Maria?
A primeira e a segunda vez passaram. Mas depois de uma semana, o hortelão foi falar com o príncipe o que estava a acontecer na horta. E o príncipe mandou o hortelão dizer que passava bem e vivia alegre.
No outro dia à mesma hora, na mesma árvore, no mesmo galho, lá estava a pombinha:
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a sua noiva Maria?
- Passa bem e vive alegre - respondeu o hortelão.
Porém, no outro dia, à mesma hora, apareceu novamente a pombinha:
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a sua noiva Maria?
- Passa bem e vive alegre.
E no dia seguinte.
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a sua noiva Maria?
- Passa bem e vive alegre.
O hortelão voltou a falar para seu amo que a pombinha continuava a aparecer na horta. O príncipe mandou que fizesse um laço de fita, e que o armasse no galho que ela costumava pousar, para a prender.
O hortelão assim o fez. Preparou o laço e à tardinha já estava com ele armado no galho em que a pombinha costumava pousar.
À mesma hora, lá chegou a pombinha.
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a sua noiva Maria?
- Passa bem e vive. - E puxou o laço.
A pombinha voou para outro galho encostado aquele, e falou:
- Pouso aqui e pouso ali, laço de fita não é para mim - e voou.
O hortelão foi até o príncipe e contou o que a pombinha lhe dissera. Então o príncipe ordenou:
- Vamos fazer um laço de prata.
No outro dia eles armaram um laço de prata. À mesma hora, a pombinha chegou e falou:
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a sua noiva Maria?
- Passa bem e... - o hortelão puxou o laço.
A pombinha voou, pousou em outro galho e falou:
- Pouso aqui e pouso ali, laço de prata não é para mim - e foi-se embora.
O hortelão voltou ao príncipe, dizendo-lhe que laço de prata não era para ela. O príncipe ordenou que se fizesse então um laço ouro.
No outro dia o hortelão armou o laço de ouro. À mesma hora chegou a pombinha e pousou no mesmo galhinho.
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a sua noiva Maria?
- Passa bem... - e puxou o laço.
A pombinha ainda tentou, mas desta vez não escapou. O hortelão saiu a correr com a pombinha nas mãos e foi entregá-la a seu amo:
- Agora nós conseguimos alteza.
O príncipe prendeu-a numa gaiola e levou-a para seu quarto de dormir. A pombinha ficou muito triste, estava presa, sem nunca ter feito mal a ninguém. E arrependeu-se do que fez. Pelo menos, antes era livre para voar. Agora estava presa em uma gaiola e, pior ainda, dentro de um quarto.
Porém, o príncipe tinha certeza que só assim a pombinha estava segura. A princesa sua noiva, que já sabia da existência de uma pomba que andava a rondar o jardim, falou ao príncipe que tinha sonhado com ele e que tinha ficado grávida. Que este era o filho dos seus sonhos, e agora estava com desejo de comer carne de pomba.
O príncipe falou que o sonho era somente dela, não dele. Que uma gravidez só se realiza, quando é sonhada a dois.
Mas como todos faziam à princesa as vontades, a pombinha não iria durar muito. Assim, era ele quem cuidava da pomba, que lhe dava comida, água e que lhe fazia carinho.
Certo dia, o príncipe notou que a pombinha dava uma sacudida quando ele acariciava sua cabeça. Passou o dedo novamente, agora mais atento, e notou algo diferente, um pequenino caroço. Examinando o que poderia ser aquilo, viu um pequeno ponto dourado. Puxou-o, e tirou um alfinete que estava cravado na cabeça da pombinha. Era o alfinete de ouro da feiticeira. E no mesmo instante a pomba se transformou na princesa Violeta, a princesinha da fonte.
Agora ela estava segura nos braços de seu amado.
O príncipe pegou o alfinete e foi até onde estava a sua noiva feiticeira. Fingindo fazer-lhe um carinho, espetou o alfinete em sua cabeça. A feiticeira virou um corvo e voou. Desta vez o feitiço virou contra o feiticeiro.
Como o dia do casamento estava marcado, continuou marcado para o mesmo dia.  E uma semana depois, lá estava o príncipe Girassol em frente ao altar, à espera de sua noiva Violeta.
E nesse dia, durante a festa, apareceu um corvo voando muito alto por cima do palácio.
- Quác. Quác. Quác. Quác.
Era a feiticeira que não se atrevia a baixar o vôo.
Girassol e Violeta tiveram muitos filhos e foram felizes para sempre.

Moral: “A inveja é companheira da glória e da virtude. Ela procura destruir a virtude e o mérito alheio”.

        

Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

General Dom Caio



Era uma vez... Um reino muito pequenino que se chamava Samoucal. Esse reino só existia porque seu povo era muito guerreiro. O reino vizinho, do qual tinha se separado, era enorme e só o deixava existir porque achava impossível dominar aquele povo. Pelo menos enquanto o general Dom Caio vivesse.
Foram inúmeras as invasões e todas terminaram com a fuga dos invasores e general Dom Caio e seus guerreiros correndo atrás deles. Sempre que havia uma invasão, o general Dom Caio montado em seu enorme cavalo branco, empunhava a espada e dizia:
- Avante meus soldados que por muitos que eles sejam nunca valerão um de nós.
Ele partia à frente fazendo um enorme estrago no exército hostil que terminava sempre com os invasores em fuga.
Mas numa dessas incursões feitas pelo general, ele saiu ferido e veio a falecer.
O inimigo não sabia, mas o reino de Samoucal estava à deriva. O povo tentava se organizar, mas era difícil sem o seu general.
Tudo ficou tranqüilo durante algum tempo. Até o reino vizinho desconfiar, pois já não se falava mais em Dom Caio. E foi com pés de veludo que a tropa inimiga invadiu novamente o reino.
Samoucal tentava reorganizar o seu exército, mas sem seu general não era fácil.
- Nós temos que achar um novo Dom Caio, nós temos que achar um novo Dom Caio - dizia um dos comandantes da pequenina tropa.
O outro exército já estava em marcha e o reino ainda procurava por um substituto para o general. Mas já não havia mais tempo a perder. 
A tropa foi à pequenina capela do lugar para conversar com o padre, que lhes aconselhou:
- Tenham fé meus filhos, tenham muita fé. Agora só a fé nos pode nos salvar.
Olhando bem para o padre, um dos guerreiros falou:
- Pois o senhor vai ter que ter muita fé mesmo. O senhor é o único aqui parecido com Dom Caio.
- Eu não, eu não. Eu nem sei montar num cavalo.
Não adiantaram os reclamos do pobre pároco. Vestiram-no com a roupa do general, puseram-lhe o capacete e colocaram-no em cima de um enorme cavalo branco. Amarraram uma espada em sua mão, deram um tapa no traseiro do animal e, este que estava acostumado às escaramuças, partiu a galope em direção ao inimigo.
O padre com medo de cair da cela, segurava-se no pescoço do cavalo e gritava:
- Eu caio, eu caio, eu caio, eu caio, eu caio...
Os cavaleiros partiram todos a galope atrás dele.
Quando o inimigo viu a tropa vindo em sua direção e Dom Caio à frente gritando, não tiveram dúvida:
- Vamos fugir, amos fugir que aí vem Dom Caio.
Saíram em debandada e só foram parar bem longe dali já em suas terras.
E por muitos anos o pequenino reino de Samoucal viveu em paz.

Moral:  “Que me odeiem, contanto que me temam”.
        “Cria a fama e deita-te na cama”.
        

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sábado, 17 de novembro de 2012

Contos Infantis - As Três Irmãs


  
Era uma vez... Um príncipe que se chamava Pedro e todos os dias passava na mesma rua, à mesma hora.
Três irmãs, que sabiam o horário do passeio do príncipe, ficavam à janela para vê-lo passar. Eram moças muito bonitas e sempre o príncipe dava-lhes um aceno.
Um dia, ele deixou de as cumprimentar. Mas as meninas continuaram a ir à janela, sempre à espera do aceno. Como o príncipe não se interessava mais por elas, uma delas falou ao vê-lo passar:
- Eu sou capaz de fazer uma casaca ao príncipe, sem ser provada e ela ficar justa ao corpo.
- Eu sou capaz de fazer uma camisa sem costura - disse a segunda.
- E eu sou capaz de ter três filhos dele, sem ele saber que são seus - disse a terceira.
O príncipe Pedro que parou ao ouvir a conversa perguntou:
- Qual de vocês disse que é capaz de fazer uma casaca sem eu provar e ela ficar boa?
- Fui eu - disse uma.
- Qual me disse que faria uma camisa sem costuras.
- Fui eu, Real Senhor.
- Então já sei que foi você que disse que seria capaz de ter três filhos meus sem eu saber. Dou-lhes um mês de prazo para vocês fazerem as roupas. Se não conseguirem, terão vossas línguas cortadas. Quanto a você – disse a terceira - vai comigo. Quero ver se consegue fazer mesmo o que disse. Se conseguir, me caso com você.
Levou a moça, prendeu-a numa torre e falou-lhe:
- Vou ficar seis anos fora do meu reino. Ao fim de três anos, terás de aparecer com as três crianças. Se não conseguires, serás enforcada.
Fechou a porta, colocou as chaves no bolso e partiu.
A moça ficou desesperada. Chorava noite e dia, arrependida do que havia dito. Como poderia sair dessa situação... era só esperar o tempo passar e a morte chegar.
Mas seu pranto foi ouvido por uma fada muito caridosa que prometeu ajudá-la. Combinaram tudo que se havia de fazer.
- Tal dia, o príncipe estará em tal reino. Te transformo na moça mais bela que o príncipe já viu, te coloco num palácio em frente ao dele. O príncipe há de te olhar na janela e por ti se apaixonar.
E, assim aconteceu. A moça estava à janela, o príncipe olhou-a e pensou:
- Nunca vi rosto mais belo em minha vida! - desceu e foi bater à porta de sua casa. Conversaram e... ele ficou lá uma semana.
Quando se despediu, deu à moça um lindo manto com fios de ouro. Disse-lhe que estava de viagem e o reino para onde iria.
Ao fim de nove meses, ela teve um menino muito bonito. Então veio a fada e levou-lhe o menino.
Três meses depois a fada mandou-a para o reino que o príncipe visitava. Coloco-a numa bela casa defronte ao palácio onde ele estava. E uma mulher mais bela que a primeira estava à janela.
Do outro lado da rua, o príncipe à janela estava. Ela sorriu. Ele sorriu. E foi amor à primeira vista. Logo estavam a conversar. O príncipe mostrou interesse em visitar sua casa e ela aceitou. Visita da boa hora, pois lá ele se demorou quinze dias. Na despedida deu-lhe um cetro.
Nove meses depois, ganhou mais um lindo filho. Veio a fada e levou a criança.
Três meses após, foi novamente para o reino onde o príncipe se encontrava. E uma mulher de uma beleza incomparável, estava à janela. Eles conversaram e, alguns dias depois, ele subia as escadas da casa de sua nova namorada. Com ela ficou mais de um mês. Quando se despediu, deu-lhe uma coroa. Nove meses após, ela deu à luz a uma linda menina.
A fada trouxe-a de volta e colocou-a na torre, junto com seus três filhos.
Quando o príncipe regressou, não havia se esquecido da vítima que havia deixado presa na torre e foi logo à sua procura.
Tirou as chaves do bolso, abriu os cadeados e perguntou:
- Onde estão os filhos que me prometeste?
Ela levantou-se, trouxe-lhes as crianças, cada uma com uma prenda na mão e disse:
- Manto, Cetro e Coroa. Quere-a Vossa Alteza mais boa?
Sem argumentos, pois as provas eram irrefutáveis, o príncipe se casou com a moça. E ainda tiveram outros filhos.
A moça foi boa mãe e excelente rainha e viveram felizes por toda vida.

Moral: “Às vezes, a pessoa certa se manifesta na hora incerta”.


Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

São Pedro e a Ferradura



Era uma vez... Andava Nosso Senhor e São Pedro a pregar numa cidade da Galiléia. Nosso Senhor viu uma ferradura no chão e falou para São Pedro:
- Pega, Pedro. Põe dentro do saco.
Ao que São Pedro respondeu:
- Então para quê, Senhor? Está velha, não presta para nada.
Jesus deixou Pedro passar para a sua frente, abaixou-se, pegou a ferradura e colocou-a dentro do saco.
Mais à frente, ao passar por um ferrador, Ele vendeu a ferradura e com o dinheiro comprou cerejas.
Continuaram em sua jornada. Saíram da cidade e seguiam por um caminho em direção a outro lugar que ficava muito distante.
Ali tudo era deserto. O sol abrasador não poupava a Fariseus nem a Galileus. Todos eram iguais.
Nosso Senhor ia à frente e São Pedro vinha atrás arrastando as sandálias. Sua boca seca de tanta sede, mas água é artigo escasso na Terra Santa. E Jesus deixou cair uma cereja.
São Pedro abaixou-se mais que depressa, catou a cereja e comeu-a com avidez.
Depois de andar mais algum tempo, Jesus deixou cair outra cereja. São Pedro abaixou-se novamente e comeu-a com a mesma sofreguidão.
Mais à frente, Jesus deixou cair outra. E outra vez São Pedro se abaixou para pegar a cereja e come-la.
De uma em uma, Jesus foi deixando cair todas as cerejas. Quando caiu a última, virou-se para São Pedro e lhe disse:
- Como vês Pedro!... Se tivesses te curvado uma vez para pegar a ferradura, não terias te curvado tantas vezes para apanhar as cerejas.

Moral: “Guarda o que te parece inútil e encontrarás o que te é preciso”.


Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Fábulas - O Bicho Homem



Era uma vez... Um leão em plena juventude, forte, valente e destemido. Um dia insinuou a seu pai o desejo de conhecer outras terras, sair em busca de aventuras. Mas seu pai o avisou:
- Escuta o conselho que eu te dou, meu filho: “De todos os bichos zombarás, só do bicho homem, não”.
O jovem leão, prepotente e estouvado, declarou:
- Saiba meu pai, que eu não tenho medo de nada, nem de ninguém.
Seu pai respondeu:
- Quem avisa amigo é.
Imediatamente o leão saiu à procura do tal bicho homem. Depois de alguns dias, já fora de seus domínios, encontrou com um cachorro que era só pele e osso, e perguntou:
- Você é que é o tal do bicho homem?
- Eu não sou o bicho homem - disse o cachorro - mas foi ele que me deixou assim. Quando eu era jovem, eu o ajudava em suas caçadas. Agora que sou velho e não aguento mais correr, ele me pagou com o abandono.
O leão rugiu:
- Se ele fez isso contigo, comigo há de pagar tudo o que vos fez.
E saiu à procura do bicho homem. Mais adiante viu um burro muito magro, que era só pele e osso, e perguntou-lhe:
- Você é que é o tal do bicho homem?
- Não, eu não sou o bicho homem, mas foi ele que me deixou assim. Quando eu era novo, trabalhava para ele o tempo todo. Ele me dava comida e muito trabalho. Agora que sou velho, me tocou de suas terras e me deixou ao abandono.
Estava o leão já pensando:
- Esse tal de bicho homem deve ser perigoso.
Continuou, então, em busca do bicho homem. Mais adiante encontrou um boi tão magro, mas tão magro, que nem para o açougue o quiseram.
O rei dos animais perguntou:
- Você é que é o tal do bicho homem?
- Não, eu não sou o bicho homem, mas foi ele que me deixou assim. Quando eu era novo e forte, trabalhava para ele. Era eu que arava a terra, que andava o dia todo a puxar o carro carregado, da casa para a fazenda e da fazenda para casa. Quando eu fiquei velho e não servia mais para nada, ele me abandonou. Nem na terra que eu tanto cultivei, não posso entrar.
Irado o leão pensava:
- Esse tal de bicho homem deve ser um animal muito perigoso.
Não muito longe dali...
- Acolá anda um bicho bem diferente! Será ele o tal de bicho homem? Se for aquilo, não vai dar nem para começar a brigar. Aquilo não aguenta um tapa no pé do ouvido.
O leão para lá se dirigiu. Quando o homem viu o leão não dava mais para correr. Então pensou:
- Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Como estava com uma enxada na mão,  não teve outro remédio a não ser enfrentar a fera. Andava a carpir as suas terras e a carpir ficou, fazendo de conta que não vira o leão.
O rei das selvas se aproximou e perguntou;
- Você é que é o tal do bicho homem?
Já raciocinando melhor, o homem respondeu:
- Sou eu sim, real senhor. Em que posso ajudá-lo?
O leão agora mais manso confiando nas palavras do homem, pensava: " O bicho homem não tem garras nem dentes. Não pode ser tão perigoso assim".
- Por uma questão de honra, quero ter uma luta contigo - rugiu o leão.
- Eu gostaria muito, alteza. Mas hoje é impossível, tenho uma empreitada muito importante a terminar. Venha amanhã a esta hora, que estarei à sua espera, neste mesmo local.
Convencido de que venceria a luta facilmente, o leão foi embora. Já o homem foi afundar mais o poço de onde tirava água para regar a plantação, que a aquela altura do ano, estava quase seco. Depois cortou umas varas finas e atravessou-as na boca do poço, cobriu-as com um pedaço de pano que tinha para lhe servir de abrigo, jogou um pouco de terra por cima e umas folhas de mato. Ficou lá de guarda, a noite inteira para que nenhum outro bicho lhe estragasse a caçada.
No dia seguinte, na hora marcada, apareceu o leão rugindo alto, pondo de orelhas em pé todos os animais das redondezas.
Já o bicho homem, do outro lado, esperava calmamente. Seu medo era que o leão aparecesse sem avisar. Assim avisando, sabia em que lado do poço devia se colocar.
O leão chegou sem grandes rodeios, não fez como faz para caçar outros animais, se arrastar sorrateiramente para dar o bote. Aquela luta havia sido contratada com antecedência. Ele iria rugir bem alto no fim da batalha e saborear sua presa.
O bicho homem esperava tranquilamente o leão que avançava. O animal avançou, avançou, avançou até cair dentro do poço. E lá ficou, sem comida, pouca água mas de sede não morreria. Ficou sem comida por muitos dias, tantos que já nem rugia. Tantos que nem conseguia ficar de pé, de tão magro que estava.
Um dia, quando o homem percebeu que podia com o leão, desceu lá em baixo, amarrou-o a uma corda e puxou-o para cima. Deu um tapa na traseira daquela montoeira de ossos e falou:
- Agora vai lá para a savana e conta tua aventura para os teus amigos.
O rei dos animais ia cambaleando quando encontrou o boi, que lhe perguntou:
- Tu encontraste o tal do bicho homem?
- Foi ele que me deixou assim - respondeu.
Encontrou outros animais que lhe perguntavam:
- Encontraste o bicho homem?
E ele sempre respondia:
- Foi o bicho homem que me deixou assim.
Ao chegar a casa, seu pai, quando finalmente o reconheceu, disse-lhe:
- Meu filho! Mas o que fizeram contigo?
- Foi o bicho homem que me deixou assim, meu pai.

Moral:  “A astúcia vale mais que a força”.

         " É melhor correr atrás ou correr na frente? 
           Depende do que vem atrás da gente. "



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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Contos Antigos - A Velha e o Vento

 

Corria lá pela aldeia, ditado que Deus mantenha: “A quem Deus quer ajudar, o vento lhe apanha a lenha”.
Certa velha preguiçosa que nessa aldeia morava, ouviu, gostou da sentença e nela se sentenciava.
Não queria saber se merecia ou não que Deus a ajudasse, foi à lenha para o monte e disse ao vento que lhe a apanhasse.
Ora o vento ao que parece tinha lá seu pensamento, em vez de juntar, espalha-a, no que demonstrava ser o vento.
E a preguiçosa da velha o sol de inverno lhe valha, voltou para casa à noitinha sem trazer uma navalha.
Já se vê não fez fogueira naquela noite de invernia, e sentada à lareira quase de frio morria.
No outro dia lá volta ela ao monte, mas lembrando da lição, não diz ao vento que lhe a junte, junta por sua mão.
E diz a velha depois de consolada ao borralho: 
- O vento que Deus ajuda? Mais seguro é o trabalho.

Moral; “Quem quer, faz. Quem não quer, manda”.



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