segunda-feira, 24 de junho de 2013

Contos - Noites de Lamego

Em Portugal (pelo menos na minha região), uma "Noite de Lamego” é uma noite mal dormida. Sabe aquela noite em que a gente rola na cama e parece que o dia nunca vai amanhecer...
O por quê da noite em Lamego ter ganhado essa fama? Bem, vamos aos fatos:

Era uma vez... Dois rapazes, um nascido em Lamego e o outro em Coimbra.
Eles se conheceram quando ambos foram servir o exército no quartel militar do Porto. Lá ficaram muito amigos e combinaram que o primeiro que tivesse um filho, o outro seria padrinho. E assim foi. A primeira criança que nasceu, o outro batizou e eles ficaram sendo compadres e amigos.
Tão amigos que o compadre de Lamego de quando em quando arreava o seu burrão e vinha passar uma semana na casa do compadre em Coimbra. E sempre ele falava:
- Ó compadre, vós tendes que ir me visitar também. Só eu que venho cá, só eu que venho cá.
E o outro respondia:
- É muito longe compadre. E eu não posso ficar muito tempo fora de casa. Mas o dia que eu tiver um tempinho, pode o compadre ficar certo que eu lá lhe apareço.
Depois de uma semana o compadre se despediu e disse:
- Agora sou eu que lá o espero compadre.
Um dia, quando o compadre coimbrão, ou coimbrês como queiram, estava com todo o tempo disponível, arreou sua burrinha e preparou-se para a viagem.
No caminho notou que a burrinha estava no cio. Levou-a para cruzar e quando chegou a um lugar chamado Vouzela, viu numa casa de arreios um seirão pequeno todo enfeitado. E pensou:
- Vou comprar este seirão. Quando voltar da casa do meu compadre, o ponho em cima do filhote e venho com ele asseado.
E continuou a viagem. O compadre, que não esperava por ele, ficou todo contente ao receber a visita de seu compadre de Coimbra. Foi ajudá-lo a guardar a burra no curral, mas notou que trazia um seirãozito e perguntou-lhe:
- Ó compadre? Por que vós trazeis este seirãozito?
O outro respondeu:
- Sabeis compadre, no caminho acheguei minha burrinha. Quando voltar para Coimbra, vou aparecer em casa com o burrito todo asseado de seirão.
O compadre de Lamego ficou a matutar:
- Ele achegou a burra na vinda pra cá. São doze meses para a burra parir, mais um ano para o burrito crescer. Quanto tempo meu compadre vai querer ficar aqui?
Ele tratou muito bem o compadre. Ofereceu-lhe um jantar digno de rei e quando anoiteceu, preparou-lhe uma cama na adega do porão. Deixou-lhe uma lamparina e falou:
- Aqui tens esta caneca de litro, uma cesta de frutas, um saco de amêndoas e broas de meada (feitas de farinhas de milho e de centeio). Se tiveres fome à noite é só ir à pipa, tirar o vinho e comer com broa. Ah! Se quiseres fazer suas necessidades, tendes aí essa selha que é para isso mesmo, pois as noites aqui são muito compridas.
A adega era escura e sem janelas, só tinha uma porta larga de entrada por onde entravam e saiam as pipas de vinho.
O compadre visitante estava muito cansado da viagem e falou que ia deitar-se mais cedo, que o compadre não precisava preocupar-se em acordá-lo. A sua burrinha era o seu despertador. Era ela que zurrava de manhã e o acordava sempre cedo.
Ele deitou-se na cama e logo adormeceu.
O compadre de Lamego tinha uma lona grande para cobrir os cereais em dia de chuva, e colocou-a a tapar a porta pelo lado de fora. Não queria que o compadre visse nenhuma luz externa. Encheu a manjedoura da burra de trevo e foi se deitar também.
O compadre coimbrão dormiu até se fartar... e aquele dia que não clareava nunca, e sua burrinha não o chamava. Era mais um litro de vinho e um pedaço de broa meada que ele consumia. E ia para a cama mais um pouquinho. Levantava novamente, mas continuava tudo em silêncio. Tomava mais uma caneca de vinho e ia dormir outra vez. A selha já estava quase cheia e sua burrinha que não o chamava. Mais um bocado de broa e mais uma caneca de vinho. A lamparina continuava acesa, mas quanto azeite ela ainda teria para queimar? Já estava a ficar desesperado. Aquela noite não terminava nunca? A selha estava cheia, a lamparina já dava sinais que iria se extinguir a qualquer momento, mas até que enfim amanheceu.
Depois de três noites e dois dias, o compadre de Lamego abriu a porta da adega todo sorridente e falou:
- Bom dia compadre. Não estranha eu te chamar assim tão cedo. É que a gente aqui acorda cedo mesmo.
E o outro todo aflito:
- Mas, então compadre! As noites aqui em Lamego são assim tão compridas?
- Pois são compadre! E olha que ainda vão crescer mais, mas para a gente parece que passam num instante.
- Ai! - dizia o outro. - Eu é que não vou passar aqui mais uma noite dessas.
Arreou a burrinha que estava até redonda de tanto comer. O compadre deu-lhe cinco litros de vinho, uma broa, um cabaz de figos e ele foi embora. Mas, no meio do caminho, parou em Viseu para dormir.
Lembrando-se da noite que passou em Lamego, perguntou ao dono da casa se as noites ali em Viseu eram tão grandes como as noites de Lamego.
- Pois são - disse o homem. - As noites aqui em Viseu são iguaizinhas às noites de Lamego.
Ele montou na sua burrinha e falou:
- Eu é que não vou ficar aqui num lugar destes. Vou tocar direto para Coimbra que as noites lá são muito mais pequenas!

Moral: “O conhecimento é a maior riqueza que podemos adquirir”.



Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sentimentos de Criança


    Um dia estava minha filha a usar uma linda camiseta que tinha estampada na frente à figura de duas crianças. A criança menor chorava e tinha a mão sobre o rosto. A segunda criança um pouco maior, tinha a mão sobre ela e dava a impressão de estar a fazer-lhe alguma pergunta. E minha filha me perguntou:
- Paizinho, o que esta menina está a dizer à outra que está a chorar?
E eu lhe respondi:
- Essa menina está a perguntar à criancinha:

“ - Por que choras tu, Anjinho?
- Tenho fome e tenho frio - respondeu a outra.
E a menina perguntou novamente:
- A tua mãe? Por onde anda a tua mãe?
- A minha mãe já não vive. Nunca a vi em minha vida, vivo triste assim perdida. Decerto, mãe... nunca tive...”

Isso despertou um sentimento tão forte e tão nobre em minha menina, que esta camiseta ganhou vida, ganhou alma. Ela jamais conseguiu se separar daquela imagem. Já se passaram mais de trinta anos, e a minha filha ainda guarda-a como a mais bela relíquia.

Moral: “Também de asas precisa a criancinha. Quem dar-lhe-as   
              souber, bendito seja”.


Nota: Saudade, uma palavra portuguesa que não tem tradução. É fácil ser entendida, difícil ser explicada.
          Um bom sentimento (uma luz que brilha em nossa mente, um desejo) causado pela dor da ausência, ao contrário da nostalgia, nos deixa saudade, não amargura.


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