sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Lenda de São Tomé



Era uma vez... Um dia Santificado na Palestina quando Jesus Cristo e São Pedro chegaram à entrada de um vilarejo. Era um lugar com pequenas propriedades rurais, algumas delas com pomares de diversas árvores frutíferas.
São Pedro olhou por cima da cerca viva de ciprestes e viu um homem que trabalhava escondido atrás da cerca. Chamou Jesus Cristo e falou-lhe:
- Olha lá mestre. Aquele homem anda a trabalhar hoje?!
Jesus Cristo chamou o homem pelo nome, mesmo sem nunca o ter visto, e falou-lhe:
- Tomé. Por que tu andas a trabalhar hoje num dia tão santificado.
Tomé olhou para aquele Senhor, teve a impressão de que já o vira em algum lugar e respondeu:
- Desculpem-me senhores, mas só acredito no que vejo e, aqui atrás desta cerca, ninguém me vê. E isto não é um trabalho, é uma necessidade. Uma praga de lagartas está a devorar as minhas frutas.
Cristo, sabendo que ele não estava a falar a verdade, pois somente algumas frutas estavam bichadas e isso também fazia parte da Natureza, assim lhe disse:
- Pois seria melhor se tu cortasses todo o pomar, pusesses tudo num monte, deitasses fogo e te atirasses no meio dele. Seria menos danoso do que essa infusão de cicuta, arruda e água de tremoços que tu estás a usar.
Jesus disse-lhe e foi-se embora, deixando Tomé a coçar a cabeça.
Depois de muito tempo, de ter atravessado aquele deserto dezenas de vezes, um dia, sem perceber, Ele e São Pedro estavam a passar no mesmo lugar onde, outrora, houvera um pomar. São Pedro perguntou:
- Mestre, mas aqui não era o lugar onde nós encontramos aquele homem a trabalhar? Agora está tudo queimado, tudo deserto?
E Cristo respondeu:
- Pois é Pedro. Vamos dar uma olhada para ver o que aconteceu.
Entraram no que havia sido o pomar e logo se depararam com um monte de cinza. Jesus virou-se para São Pedro e lhe disse:
- Esgravata aí Pedro. Esgravata aí para ver se restou alguma coisa daquele pomar.
Pedro enfiou as mãos lá pelo fundo da cinza, e quando a retirou, apareceu com uma linda maçã, vermelhinha e bem cheirosa.
Jesus ordenou:
- Põe pro saco Pedro, põe pro saco.
São Pedro colocou a maçã no saco e como já estava a escurecer, saíram à procura de uma estalagem onde pudessem pernoitar. Chegaram a uma e quem os recebeu foi uma linda moça, a filha do estalajadeiro.
Recebeu os dois velhinhos (sim, dois velhinhos, pois como se dizia na época: “Aos vinte chegarás, dos trinta não passarás”). A mocinha arrumou-lhes os aposentos. Eles deixaram o saco a um canto e quando o estalageiro chegou os velhinhos dormiam a sono solto.
Dormiram como dois anjos. Na estalagem não havia mais hospedes. O estalajadeiro fechou a porta e todos descansavam na Paz do Senhor.
Só havia algo que estava a incomodar a moça: Era um cheiro tão agradável como ela nunca havia sentido.
Por toda a noite a moça lutou contra o pecado da gula, já era madrugada quando ela se levantou e foi até ao salão para ver se estava tudo bem. Mas aquele cheiro!  Abriu o saco e deu uma olhadinha para ver o que cheirava tão bem. Quando deparou com a maçã linda e perfumosa, não resistiu. Deu a primeira mordida, deu a segunda, a terceira... Comeu casca, carpo, pericarpo e semente. Voltou para a cama feliz e satisfeita, e dormiu como uma Santa. Quando seu pai a chamou, o sol já estava alto e os dois velhinhos já deviam estar bem longe.
Passaram-se meses e algo muito estranho começou a acontecer naquela estalagem. A barriga da moça começou a crescer, crescer, crescer. O pai perguntava-lhe o que tinha acontecido. Não precisava ter medo, ele só queria saber quem era o pai da criança.
E ela dizia que não era ninguém, pois homem nenhum lhe havia tocado. O pai dizia que foram aqueles dois velhos safados que tinham feito isso à sua filha. A moça jurava que não. Mas pelo tempo da gravidez, tudo indicava que eram eles.
O dia do nascimento da criança chegou e a moça não ganhou. A aflição tomava conta do lugar, pois todos sabiam da gravidez, só a moça não acreditava que estivesse grávida. Já estava com uma barriga enorme, mas a criança não nascia. Até que um dia apareceram lá os dois velhinhos.
O estalajadeiro foi ao encontro deles com um alfanje mas mãos gritando:
- Seus desgraçados, vocês desgraçaram a vida da minha menina, mas agora eu vou acabar com a vossa.
E Cristo assim falou:
- Acalme-se, meu senhor, que ninguém fez mal para a sua filha. O que lhe fez mal foi o que ela comeu.
E pondo a mão na cabeça da moça, ordenou:
- Sai Tomé por onde entraste.
A moça abriu a boca e vomitou o Tomé.
Jesus olhou para São Pedro e falou:
- Pega Pedro, põe pro saco.
São Pedro pôs a criança dentro do saco e o estalajadeiro gritou:
- Não! O meu neto ninguém leva.
Jesus falou para ele:
- Não! Ele não é teu neto. A tua filha está aí, sã e pura como nasceu.
Saíram Jesus e São Pedro com o saco ás costas. Pouco tempo depois São Pedro não agüentava o peso que carregava.
Foram verificar e se depararam com um Tomé grande demais para andar dentro de um saco.
Tomé foi companheiro de Cristo e de São Pedro, virou Santo, mas não acreditava muito em conversas, só naquilo que via. Sofreu algumas sanções por conta disso, mas seu lema ficou:  
“Ser como São Tomé: Ver pra crer”


        
Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem. 

Contos Antigos


Quem conta um conto aumenta um ponto... isso é verdade. Muitos contos que aprendi quando criança e, depois, escutei narrados por outras pessoas, tinham pontos bem diferentes. Os contos, antigamente, eram passados de boca em boca, não havia rádio nem qualquer outro meio de comunicação. O povo era geralmente analfabeto, mas existiam sempre os contadores. E era no borralho, ao calor da fogueira, onde tudo acontecia.
O borralho antigo é a lareira de hoje, diferente apenas em seus aparatos e suas dimensões. Era rústico, chão de terra batida ou massa de areia e cal. Havia uma pilheira de cada lado onde nos sentávamos. Lá bem acima do fogo, já na parte da chaminé, ficava o cambo, uma espécie de varal onde pendurava-se as lingüiças, protegidas pelo ar quente e pela fumaça.
Ainda me lembro do cambeiro, talvez um dos artefatos de madeira mais antigos que existia na casa de minha avó que eu ainda cheguei a conhecer. Era um pedaço de barrote que sobressaía da parede em sentido oblíquo, onde as panelas ficavam penduradas ao fogo por um gancho de ferro. Depois vieram as trempes de ferro, onde colocávamos as panelas em cima.
O borralho era, talvez, a parte mais importante da casa. À noite a reunião da família ao calor da fogueira, eu, meus irmãos, amigos e visinhos, escutávamos as mais delirantes estórias. E ficávamos fascinados.
Minha avó e minha mãe eram excelentes contadoras de estórias. Todas sempre começavam com o mesmo bordão: “Era uma vez”... Elas não contavam estórias, elas contavam casos como se fossem verdadeiros. E nós ficávamos aterrorizados. Geralmente eram violentos, onde o herói matava por motivos fúteis. Estórias próprias para o povo da idade média, onde os poderosos exércitos saíam pelo mundo a destruir nações e eram recebidos como heróis em sua terra. Prática essa, que hoje nós repudiamos.
Em Portugal existiam muitos contos antigos que eram relatados como se fossem verdadeiros.


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Veja também:


Contos Antigos - Canção das Rosas - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/08/contos-antigos-cancao-das-rosas.html

Contos Antigos - A Velha e o Vento - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2012/10/a-velha-e-o-vento.html

Contos Antigos - O Carneirinho Branco - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2012/12/contos-populares-o-carneirinho-branco.html

Contos Antigos – O Linho e a Água - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/09/contos-antigos-o-linho-e-agua.html

Contos Antigos - O Milagre das Rosas http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/08/contos-antigos-o-milagre-das-rosas.html

Contos Antigos - Bruxas e Diabos - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/02/contos-antigos-bruxas-e-diabos.html

Contos Antigos - A Nau Catrineta - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/04/a-nau-catrineta.html

Contos Antigos - A Procissão dos Anjinhos - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/05/contos-antigos-procissao-dos-anjinhos.html

Contos Antigos - O Beato - http://ramirodsalvador.blogspot.com.br/2013/10/contos-antigos-o-beato.html

 


 


Contos Antigos - Bruxas e Diabos


Em Portugal existiam muitos contos antigos que eram relatados como se fossem verdadeiros.



Bruxa era uma pessoa que nascia predestinada a cumprir essa sina e passava sua vida a medir dunas de areia com um dedal sem fundo.
Na minha região havia um pequeno deserto e, uma noite, minha avó materna (Maria Rosa) encontrou com uma dessas bruxas e perguntou-lhe:
- O que estás a fazer aí, ti Ana?
- Estou a cumprir a minha sina - respondeu a bruxa.
Moral: Ninguém nasce predestinado (se assim fosse, ladrão de cavalos nasceria com uma corda na mão). Nós nascemos com fatores genéticos e instintos naturais, o que fazer com eles cabe a nós decidir.


Em outra ocasião, estava o meu avô a dormir na casa da eira lá no fundo do quintal, para guardar o milho debulhado que estava a secar. Escutou um barulho, pegou a pistola que estava à sua cabeceira e levantou-se.
Já na rua, deparou-se com o diabo em carne e osso. Apontou a arma e falou:
- Sai Satanás... senão vais levar bala.
Como o diabo nem se mexeu, meu avô apertou o gatilho bem no meio do peito dele. Mas o diabo saiu para a direita. Meu avô disparou novamente e ele pulou para a esquerda.
Como não tinha mais balas, meu avô arremessou-lhe a pistola e saiu disparado para casa.
O diabo pulou-lhe nas costas e meu avô gritava:
- Acode aqui Maria Rosa que o diabo vem montado nas minhas costas!
Minha avó levantou-se mais que depressa, pegou a pá do forno e foi ao encontro do meu avô.
Quando o diabo viu aquela pá no ar e aquela velha de cabelo na venta, deve ter pensado:
- Desta não dá para escapar...
Ele saiu em disparada que nem para trás olhou.
Moral: Com mulher de bigode... nem o diabo pode.


       

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