Era uma vez... Um dia
Santificado na Palestina quando Jesus Cristo e São Pedro chegaram à entrada de
um vilarejo. Era um lugar com pequenas propriedades rurais, algumas delas com
pomares de diversas árvores frutíferas.
São Pedro olhou por cima da
cerca viva de ciprestes e viu um homem que trabalhava escondido atrás da cerca.
Chamou Jesus Cristo e falou-lhe:
- Olha lá mestre. Aquele
homem anda a trabalhar hoje?!
Jesus Cristo chamou o homem
pelo nome, mesmo sem nunca o ter visto, e falou-lhe:
- Tomé. Por que tu andas a
trabalhar hoje num dia tão santificado.
Tomé olhou para aquele
Senhor, teve a impressão de que já o vira em algum lugar e respondeu:
- Desculpem-me senhores, mas
só acredito no que vejo e, aqui atrás desta cerca, ninguém me vê. E isto não é
um trabalho, é uma necessidade. Uma praga de lagartas está a devorar as minhas
frutas.
Cristo, sabendo que ele não
estava a falar a verdade, pois somente algumas frutas estavam bichadas e isso
também fazia parte da Natureza, assim lhe disse:
- Pois seria melhor se tu
cortasses todo o pomar, pusesses tudo num monte, deitasses fogo e te atirasses
no meio dele. Seria menos danoso do que essa infusão de cicuta, arruda e água
de tremoços que tu estás a usar.
Jesus disse-lhe e foi-se
embora, deixando Tomé a coçar a cabeça.
Depois de muito tempo, de ter
atravessado aquele deserto dezenas de vezes, um dia, sem perceber, Ele e São
Pedro estavam a passar no mesmo lugar onde, outrora, houvera um pomar. São
Pedro perguntou:
- Mestre, mas aqui não era o
lugar onde nós encontramos aquele homem a trabalhar? Agora está tudo queimado,
tudo deserto?
E Cristo respondeu:
- Pois é Pedro. Vamos dar uma
olhada para ver o que aconteceu.
Entraram no que havia sido o
pomar e logo se depararam com um monte de cinza. Jesus virou-se para São Pedro
e lhe disse:
- Esgravata aí Pedro.
Esgravata aí para ver se restou alguma coisa daquele pomar.
Pedro enfiou as mãos lá pelo
fundo da cinza, e quando a retirou, apareceu com uma linda maçã, vermelhinha e
bem cheirosa.
Jesus ordenou:
- Põe pro saco Pedro, põe pro
saco.
São Pedro colocou a maçã no
saco e como já estava a escurecer, saíram à procura de uma estalagem onde
pudessem pernoitar. Chegaram a uma e quem os recebeu foi uma linda moça, a
filha do estalajadeiro.
Recebeu os dois velhinhos
(sim, dois velhinhos, pois como se dizia na época: “Aos vinte chegarás, dos
trinta não passarás”). A mocinha arrumou-lhes os aposentos. Eles deixaram o
saco a um canto e quando o estalageiro chegou os velhinhos dormiam a sono
solto.
Dormiram como dois anjos. Na
estalagem não havia mais hospedes. O estalajadeiro fechou a porta e todos
descansavam na Paz do Senhor.
Só havia algo que estava a
incomodar a moça: Era um cheiro tão agradável como ela nunca havia sentido.
Por toda a noite a moça lutou
contra o pecado da gula, já era madrugada quando ela se levantou e foi até ao
salão para ver se estava tudo bem. Mas aquele cheiro! Abriu o saco e deu uma olhadinha para ver o
que cheirava tão bem. Quando deparou com a maçã linda e perfumosa, não
resistiu. Deu a primeira mordida, deu a segunda, a terceira... Comeu casca,
carpo, pericarpo e semente. Voltou para a cama feliz e satisfeita, e dormiu
como uma Santa. Quando seu pai a chamou, o sol já estava alto e os dois
velhinhos já deviam estar bem longe.
Passaram-se meses e algo
muito estranho começou a acontecer naquela estalagem. A barriga da moça começou
a crescer, crescer, crescer. O pai perguntava-lhe o que tinha acontecido. Não
precisava ter medo, ele só queria saber quem era o pai da criança.
E ela dizia que não era
ninguém, pois homem nenhum lhe havia tocado. O pai dizia que foram aqueles dois
velhos safados que tinham feito isso à sua filha. A moça jurava que não. Mas
pelo tempo da gravidez, tudo indicava que eram eles.
O dia do nascimento da
criança chegou e a moça não ganhou. A aflição tomava conta do lugar, pois todos
sabiam da gravidez, só a moça não acreditava que estivesse grávida. Já estava
com uma barriga enorme, mas a criança não nascia. Até que um dia apareceram lá
os dois velhinhos.
O estalajadeiro foi ao
encontro deles com um alfanje mas mãos gritando:
- Seus desgraçados, vocês
desgraçaram a vida da minha menina, mas agora eu vou acabar com a vossa.
E Cristo assim falou:
- Acalme-se, meu senhor, que
ninguém fez mal para a sua filha. O que lhe fez mal foi o que ela comeu.
E pondo a mão na cabeça da moça,
ordenou:
- Sai Tomé por onde entraste.
A moça abriu a boca e vomitou
o Tomé.
Jesus olhou para São Pedro e
falou:
- Pega Pedro, põe pro saco.
São Pedro pôs a criança
dentro do saco e o estalajadeiro gritou:
- Não! O meu neto ninguém
leva.
Jesus falou para ele:
- Não! Ele não é teu neto. A
tua filha está aí, sã e pura como nasceu.
Saíram Jesus e São Pedro com
o saco ás costas. Pouco tempo depois São Pedro não agüentava o peso que
carregava.
Foram verificar e se
depararam com um Tomé grande demais para andar dentro de um saco.
Tomé foi companheiro de
Cristo e de São Pedro, virou Santo, mas não acreditava muito em conversas, só
naquilo que via. Sofreu algumas sanções por conta disso, mas seu lema ficou:
“Ser como São Tomé: Ver
pra crer”
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