Depois da tempestade
veio a bonança.
Também já não era sem
tempo. Tantos dias de chuva, deixaram Mariazinha até agoniada.
O que valia estar na
praia se não podia entrar na água?
Seus pais interromperam
as férias e voltaram para casa, no alto da serra.
O sol, a princípio meio
tímido, agora já brilhava em todo seu esplendor. E a natureza continuava em sua
incansável labuta. Sementes que germinam, plantas que crescem, flores que se
abrem, aves que cantam...e Mariazinha?
Bem, Mariazinha corria
sem parar, não dava tréguas a uma linda borboleta. Fazia horas que a tentava
pegar.
Lá do alpendre seu avô
a contemplava. Se pudesse ajudá-la!
Cansada e triste, a
menina voltava chorando e quase gritando, chamava pelo avô:
- Ajude-me a pegar
aquela borboleta, vovozinho. Ela é tão linda! Quero segurá-la em minha mão.
Acariciando a menina
que continuava soluçando, o seu avô assim falou:
- Não querida , nós não
podemos pegar uma borboleta em nossas mãos. Ela é de frágil beleza! Não podendo
ser tocada, a não ser pela natureza.
E Maria retrucou:
- Ah! Vovô, por que
não? Eu só quero brincar um pouquinho com ela! Depois eu juro que a deixarei ir
embora.
- Essa estória já
aconteceu um dia, - disse seu avô sorrindo – alguém já passou por igual
decepção.
A menina parou até de
soluçar, limpou seus olhinhos e suspirando bem fundo, fitou o avô, perguntou
baixinho:
- Uma estória de
borboleta? Essa o senhor ainda não contou! Pronto, estou pronta, pode começar,
prometo que não vou mais chorar.
Já sentado na poltrona
o bom velho, querendo usufruir o máximo dos dias de sua vida, puxando para o
seu colo a única neta que tinha, procurava agradá-la do modo que mais sabia.
E outra estória começava.
- “Era uma vez um
menino”, muito pequeno ainda, pela força do destino, ele viu uma borboleta
linda.
Era de um azul
brilhante que a natureza mandou e, logo no mesmo instante, por ela se
apaixonou.
Aquela linda borboleta,
em seu vôo indiferente, beijava toda inquieta, as flores à sua frente.
Cheio de amor ele
disse:
- Essa aí eu vou pegar!
Pouco depois já
desistia, ainda mal conseguia andar.
Amanhã eu vou crescer!
– Opinião ele tinha. – E quando eu puder correr essa borboleta será minha.
No outro dia bem cedo
chegou até ao jardim, quietinho, cheio de medo e a espera teve fim.
Com o sorriso aberto
esperou seu lindo amor, que dele passou tão perto, indo pousar em outra flor.
Tenho que ser mais
esperto e surpreendê-la num beijo. Se fizer tudo bem certo, satisfarei meu
desejo!
Uma flor arrancou e a
ela ofereceu. A borboleta voou e logo desapareceu.
Aquela criança sapeca
ficou ainda de flor na mão. Pegar aquela borboleta já virara obsessão.
Quem sabe, amanhã
talvez, é só não desanimar. Mais um dia, mais um mês, uma hora hei de pegar.
A primavera passou e o
tempo também mudava. O menino esperou, esperou e sua borboleta não voltava.
Foi em prantos que um
dia mamãe encontrou seu filhinho e perguntou:
- Por que choras tu
anjinho? Por que sofres tu na vida? O que foi que te feriu?
- Minha mãezinha
querida, a borboleta fugiu!
- Se é por isso meu
querido, tu não precisas sofrer, na primavera duvido, que ela não venha te ver.
- Mamãezinha, vai
demorar para a primavera voltar?
- Sim querido, temos de
esperar ainda o inverno passar.
A primavera não chegava
e o menino reclamava.
- Mamãezinha, quanta
espera por essa tal de primavera!
A primavera chegou sem
pressa e cheia de graça. Enfeitou o prato às borboletas e preparou a mesa para
as lagartas.
E quando o menino
encontrou o seu jardim já florido, correu para casa e gritou fazendo grande
alarido.
- Mamãe querida, até
que enfim já chegou a primavera. Trouxe flores para mim, acabou a minha espera.
E então, bem mais
crescido, aquele menino ficou no meio do jardim proibido, a sua amada esperou.
Às dezenas, às
centenas, elas vieram e vão. Bastava uma apenas para alegrar seu coração.
Bastava apenas uma só,
era somente aquela e com paciência de Jó, ele esperava por ela.
- Que será que
aconteceu? Talvez esteja perdida. Será que ela morreu? Mas era tão cheia de
vida!
Quando ela apareceu um
dia, toda feliz e vaidosa, vinha cheia de alegria, trocando o cravo pela rosa.
É num voou inconstante,
que tudo acontece e mais adiante já desaparece.
Amanhã voltará, disso tenho certeza. E quem lá
estará para fazer- lhe a surpresa?
Ainda bem cedo com
flores se enfeitou e muito em segredo por ela esperou.
No jardim se encontrava
quando ela chegou e para ele nem ligava, nunca se aproximou.
Quando sua mãe o viu em
seu jardim escondido, imediatamente pediu:
- Sai já daí atrevido.
Saia daí desse meio, - disse a mãe com tristeza – estragar a natureza é coisa
de menino feio.
A primavera passou
depressa, meio sem graça. Com a promessa de passar sem pressa, levou consigo a
borboleta e deixou mesa farta para as lagartas.
- Para as lagartas
vovozinho? – interviu Mariazinha, mostrando a seu avô que já estava arrepiada
só de ouvir falar. – Eu detesto lagartas! Elas são horríveis!
- Sim, elas são minha
querida. Elas são feias e comilonas. São capazes de devorar todas as folhas a
uma planta. Por isso nós detestamos as lagartas e adoramos as borboletas. Como
se fosse possível uma existir sem a outra!
- Ora vovô Zé! –
interrompe espantada a menina, duvidando das palavras do avô. – As borboletas
viveriam sem as lagartas sim senhor. E muito bem!
E o paciente avô
explica:
- São essas feias
lagartas que você tanto detesta, que se transformam em borboletas.
- Quer dizer que aquela
linda borboleta que à pouco perseguia, também já foi uma lagarta? E como isso
pode acontecer vovô?
- São os milagres da
vida, fenômenos da natureza! De hoje em diante, iremos acompanhar o
desenvolvimento de algumas lagartas.
E aquele menino
esperava a primavera surgir, as flores, a sua amada, para novamente sorrir.
Esperava que seu jardim
florisse, que toda flor se abrisse, só então resolveria. Assim que a borboleta
chegasse e sua rede encontrasse, ela não escaparia.
- Eis - me aqui
novamente, trago comigo a beleza. E te trouxe de presente, um beijo da
natureza.
Veio cheia de nobreza,
e com ela os sonhos meus, a fantasia a certeza, de um presente de Deus.
Seu coração se aquece,
ao ver imagem tão bela!
- Se Deus asas me desse
eu voaria com ela.
Mal chegou e já partiu,
essa foi a realidade. O menino mal a viu e continuou na saudade.
- O que ela está
pensando? Que é só chegar e correr, só porque a estou amando e não a consigo esquecer?
- Vou tomar uma
providência, ela tem de resolver, já perdi a paciência, assim não posso viver.
- Também não ligo mais
para ela, afinal, por que tem de ser assim? Não sou só eu que gosto dela, ela
também gosta de mim.
No outro dia
entretanto, esperou como um santo, estava decidido. Com a redinha na mão. Com
muita atenção e bem escondido.
Borboleta arisca em vôo
ligeiro, nunca se arrisca em amor passageiro.
O seu vôo é incerto,
borboleta andarilha, o menino estava perto com a sua armadilha.
Quando dele se
aproximou, ele quase enlouqueceu, a sua rainha sua alma enobreceu.
A borboleta percebeu o
garoto espiando e em volta da rede ela ficou brincando.
O menino então tentou
ser bem prático, com a rede na mão e com um gesto mais rápido, quase conseguiu.
A borboleta esquiva, estava bem viva quando partiu.
E aquele menino agora,
ainda com experiência pouca, seguiu sem demora, aquela borboleta louca.
Garoto audaz, mostrou
que é capaz de grande proeza. Sem nada temer, a seguiu com firmeza, disposto a
vencer.
De uma flor em outra
flor, quase aqui e quase ali, para conquistar seu amor. Sofrimento igual eu
nunca vi.
Aquele menino em seu
desatino, com garra e paixão, corria em seu encalço, com sorriso falso de tanta
emoção.
Nos espinhos se
espinhou, a sua roupa se rasgou e no brejo se sujou. Pegar sua amada já virara
um vício. Sabe que sua mãe o condena, mas valerá a pena tanto sacrifício.
Subiu montes,
atravessou vales, atrás daquele feitiço, esqueceu todos os males, ele só tinha
um compromisso. Estava no seu coração, estava na mão do Senhor, estava no dom
do perdão, estava na força do amor.
Garoto ladino, não ia
desistir, ele persistia até conseguir.
Andava tão envolvido,
em sua borboleta pegar, que já estava perdido, não saberia voltar.
Correndo desse modo
atrás da coitada, só se cansava todo e a deixava assustada.
Em algum momento devias
ter aprendido, que correr contra o tempo é tempo perdido.
Ia assim como era, flor
em botão, punha alma nos pés e amor no coração
Levava a rede
preparada, esperava ela pousar. Devia estar cansada de tanto voar!
Vai agora não demora.
Cuidado, ela pousou, agacha-te, esta é a hora. Seu coração disparou, pegou a
redinha e zás, já cá estás.
- Desta vez eu não
errei. – deu um grito de alegria:
- Peguei! Peguei!
Peguei!
Enquanto a pobre borboleta,
na rede se debatia, sua cor de violeta já desaparecia.
Aquele menino ofegante,
com ar triunfante dizia:
- Venci, venci.
Pegou sua amada, na mão
apertada, para que não fugisse.
- Só minha serás,
borboleta querida, comigo estarás o resto da vida.
Sentado no chão,
respirando bem fundo, tinha em sua mão toda a beleza do mundo. Mas quando a mão
abriu, que golpe profundo, o que ele viu era apenas um pó imundo.
Quanta desilusão, de
toda a sua riqueza, só restava a tristeza em seu coração.
Onde há gostar, há
desgosto, isso sempre ouviu dizer, quem só no amor apostar, está disposta a
sofrer.
Sua mãe era Maria e por
ele procurava, sentado na relva fria, aquele menino chorava.
A beleza nos seduz.
Mesmo com seu dom
divino, mais tarde aquele menino morreu pregado na cruz ”.
E Mariazinha perguntou:
- Era o menino Jesus,
vovô?
- Como vês, minha
querida, o que faz a ilusão desta vida... Até Cristo se
enganou...
- Também, agora não
quero mais pegar uma borboleta na minha mão, viu vovô.
Nesse momento em seu
jardim apareceu um beija-flor. Ele voava tão depressa, que a menina perguntou;
- Vovô, de onde veio
esse passarinho, que apareceu tão de repente?
E na mente do vovô José
Maria, mais uma estória nascia.
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