terça-feira, 9 de outubro de 2012

Contos Infantis - O Menino e a Borboleta


Depois da tempestade veio a bonança.
Também já não era sem tempo. Tantos dias de chuva, deixaram Mariazinha até agoniada.
O que valia estar na praia se não podia entrar na água?
Seus pais interromperam as férias e voltaram para casa, no alto da serra.
O sol, a princípio meio tímido, agora já brilhava em todo seu esplendor. E a natureza continuava em sua incansável labuta. Sementes que germinam, plantas que crescem, flores que se abrem, aves que cantam...e Mariazinha?
Bem, Mariazinha corria sem parar, não dava tréguas a uma linda borboleta. Fazia horas que a tentava pegar.
Lá do alpendre seu avô a contemplava. Se pudesse ajudá-la!
Cansada e triste, a menina voltava chorando e quase gritando, chamava pelo avô:
- Ajude-me a pegar aquela borboleta, vovozinho. Ela é tão linda! Quero segurá-la em minha mão.
Acariciando a menina que continuava soluçando, o seu avô assim falou:
- Não querida , nós não podemos pegar uma borboleta em nossas mãos. Ela é de frágil beleza! Não podendo ser tocada, a não ser pela natureza.
E Maria retrucou:
- Ah! Vovô, por que não? Eu só quero brincar um pouquinho com ela! Depois eu juro que a deixarei ir embora.
- Essa estória já aconteceu um dia, - disse seu avô sorrindo – alguém já passou por igual decepção.
A menina parou até de soluçar, limpou seus olhinhos e suspirando bem fundo, fitou o avô, perguntou baixinho:
- Uma estória de borboleta? Essa o senhor ainda não contou! Pronto, estou pronta, pode começar, prometo que não vou mais chorar.
Já sentado na poltrona o bom velho, querendo usufruir o máximo dos dias de sua vida, puxando para o seu colo a única neta que tinha, procurava agradá-la do modo que mais sabia.
   E outra estória começava.
- “Era uma vez um menino”, muito pequeno ainda, pela força do destino, ele viu uma borboleta linda.
Era de um azul brilhante que a natureza mandou e, logo no mesmo instante, por ela se apaixonou.
Aquela linda borboleta, em seu vôo indiferente, beijava toda inquieta, as flores à sua frente.
Cheio de amor ele disse:
- Essa aí eu vou pegar!
Pouco depois já desistia, ainda mal conseguia andar.
Amanhã eu vou crescer! – Opinião ele tinha. – E quando eu puder correr essa borboleta será minha.
No outro dia bem cedo chegou até ao jardim, quietinho, cheio de medo e a espera teve fim.
Com o sorriso aberto esperou seu lindo amor, que dele passou tão perto, indo pousar em outra flor.
Tenho que ser mais esperto e surpreendê-la num beijo. Se fizer tudo bem certo, satisfarei meu desejo!
Uma flor arrancou e a ela ofereceu. A borboleta voou e logo desapareceu.
Aquela criança sapeca ficou ainda de flor na mão. Pegar aquela borboleta já virara obsessão.
Quem sabe, amanhã talvez, é só não desanimar. Mais um dia, mais um mês, uma hora hei de pegar.
A primavera passou e o tempo também mudava. O menino esperou, esperou e sua borboleta não voltava.
Foi em prantos que um dia mamãe encontrou seu filhinho e perguntou:
- Por que choras tu anjinho? Por que sofres tu na vida? O que foi que te feriu?
- Minha mãezinha querida, a borboleta fugiu!
- Se é por isso meu querido, tu não precisas sofrer, na primavera duvido, que ela não venha te ver.
- Mamãezinha, vai demorar para a primavera voltar?
- Sim querido, temos de esperar ainda o inverno passar.
A primavera não chegava e o menino reclamava.
- Mamãezinha, quanta espera por essa tal de primavera!
A primavera chegou sem pressa e cheia de graça. Enfeitou o prato às borboletas e preparou a mesa para as lagartas.
E quando o menino encontrou o seu jardim já florido, correu para casa e gritou fazendo grande alarido.
- Mamãe querida, até que enfim já chegou a primavera. Trouxe flores para mim, acabou a minha espera.
E então, bem mais crescido, aquele menino ficou no meio do jardim proibido, a sua amada esperou.
Às dezenas, às centenas, elas vieram e vão. Bastava uma apenas para alegrar seu coração.
Bastava apenas uma só, era somente aquela e com paciência de Jó, ele esperava por ela.
- Que será que aconteceu? Talvez esteja perdida. Será que ela morreu? Mas era tão cheia de vida!
Quando ela apareceu um dia, toda feliz e vaidosa, vinha cheia de alegria, trocando o cravo pela rosa.
É num voou inconstante, que tudo acontece e mais adiante já desaparece.
Amanhã  voltará, disso tenho certeza. E quem lá estará para fazer- lhe a surpresa?
Ainda bem cedo com flores se enfeitou e muito em segredo por ela esperou.
No jardim se encontrava quando ela chegou e para ele nem ligava, nunca se aproximou.
Quando sua mãe o viu em seu jardim escondido, imediatamente pediu:
- Sai já daí atrevido. Saia daí desse meio, - disse a mãe com tristeza – estragar a natureza é coisa de menino feio.
A primavera passou depressa, meio sem graça. Com a promessa de passar sem pressa, levou consigo a borboleta e deixou mesa farta para as lagartas.
- Para as lagartas vovozinho? – interviu Mariazinha, mostrando a seu avô que já estava arrepiada só de ouvir falar. – Eu detesto lagartas! Elas são horríveis!
- Sim, elas são minha querida. Elas são feias e comilonas. São capazes de devorar todas as folhas a uma planta. Por isso nós detestamos as lagartas e adoramos as borboletas. Como se fosse possível uma existir sem a outra!
- Ora vovô Zé! – interrompe espantada a menina, duvidando das palavras do avô. – As borboletas viveriam sem as lagartas sim senhor. E muito bem!
E o paciente avô explica:
- São essas feias lagartas que você tanto detesta, que se transformam em borboletas.
- Quer dizer que aquela linda borboleta que à pouco perseguia, também já foi uma lagarta? E como isso pode acontecer vovô?
- São os milagres da vida, fenômenos da natureza! De hoje em diante, iremos acompanhar o desenvolvimento de algumas lagartas.
E aquele menino esperava a primavera surgir, as flores, a sua amada, para novamente sorrir.
Esperava que seu jardim florisse, que toda flor se abrisse, só então resolveria. Assim que a borboleta chegasse e sua rede encontrasse, ela não escaparia.
- Eis - me aqui novamente, trago comigo a beleza. E te trouxe de presente, um beijo da natureza.
Veio cheia de nobreza, e com ela os sonhos meus, a fantasia a certeza, de um presente de Deus.
Seu coração se aquece, ao ver imagem tão bela!
- Se Deus asas me desse eu voaria com ela.
Mal chegou e já partiu, essa foi a realidade. O menino mal a viu e continuou na saudade.
- O que ela está pensando? Que é só chegar e correr, só porque a estou amando e não a consigo esquecer?
- Vou tomar uma providência, ela tem de resolver, já perdi a paciência, assim não posso viver.
- Também não ligo mais para ela, afinal, por que tem de ser assim? Não sou só eu que gosto dela, ela também gosta de mim.
No outro dia entretanto, esperou como um santo, estava decidido. Com a redinha na mão. Com muita atenção e bem escondido.
Borboleta arisca em vôo ligeiro, nunca se arrisca em amor passageiro.
O seu vôo é incerto, borboleta andarilha, o menino estava perto com a sua armadilha.
Quando dele se aproximou, ele quase enlouqueceu, a sua rainha sua alma enobreceu.
A borboleta percebeu o garoto espiando e em volta da rede ela ficou brincando.
O menino então tentou ser bem prático, com a rede na mão e com um gesto mais rápido, quase conseguiu. A borboleta esquiva, estava bem viva quando partiu.
E aquele menino agora, ainda com experiência pouca, seguiu sem demora, aquela borboleta louca.
Garoto audaz, mostrou que é capaz de grande proeza. Sem nada temer, a seguiu com firmeza, disposto a vencer.
De uma flor em outra flor, quase aqui e quase ali, para conquistar seu amor. Sofrimento igual eu nunca vi.
Aquele menino em seu desatino, com garra e paixão, corria em seu encalço, com sorriso falso de tanta emoção.
Nos espinhos se espinhou, a sua roupa se rasgou e no brejo se sujou. Pegar sua amada já virara um vício. Sabe que sua mãe o condena, mas valerá a pena tanto sacrifício.
Subiu montes, atravessou vales, atrás daquele feitiço, esqueceu todos os males, ele só tinha um compromisso. Estava no seu coração, estava na mão do Senhor, estava no dom do perdão, estava na força do amor.
Garoto ladino, não ia desistir, ele persistia até conseguir.
Andava tão envolvido, em sua borboleta pegar, que já estava perdido, não saberia voltar.
Correndo desse modo atrás da coitada, só se cansava todo e a deixava assustada.
Em algum momento devias ter aprendido, que correr contra o tempo é tempo perdido.
Ia assim como era, flor em botão, punha alma nos pés e amor no coração
Levava a rede preparada, esperava ela pousar. Devia estar cansada de tanto voar!
Vai agora não demora. Cuidado, ela pousou, agacha-te, esta é a hora. Seu coração disparou, pegou a redinha e zás, já cá estás.
- Desta vez eu não errei. – deu um grito de alegria:
- Peguei! Peguei! Peguei!
Enquanto a pobre borboleta, na rede se debatia, sua cor de violeta já desaparecia.
Aquele menino ofegante, com ar triunfante dizia:
- Venci, venci.
Pegou sua amada, na mão apertada, para que não fugisse.
- Só minha serás, borboleta querida, comigo estarás o resto da vida.
Sentado no chão, respirando bem fundo, tinha em sua mão toda a beleza do mundo. Mas quando a mão abriu, que golpe profundo, o que ele viu era apenas um pó imundo.
Quanta desilusão, de toda a sua riqueza, só restava a tristeza em seu coração.
Onde há gostar, há desgosto, isso sempre ouviu dizer, quem só no amor apostar, está disposta a sofrer.
Sua mãe era Maria e por ele procurava, sentado na relva fria, aquele menino chorava.
A beleza nos seduz.
Mesmo com seu dom divino, mais tarde aquele menino morreu pregado na cruz ”.
E Mariazinha perguntou:
- Era o menino Jesus, vovô?
- Como vês, minha querida, o que faz a ilusão desta vida... Até Cristo se enganou...
- Também, agora não quero mais pegar uma borboleta na minha mão, viu vovô.
Nesse momento em seu jardim apareceu um beija-flor. Ele voava tão depressa, que a menina perguntou;
- Vovô, de onde veio esse passarinho, que apareceu tão de repente?
E na mente do vovô José Maria, mais uma estória nascia.



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