Era
uma vez... Um rei que, um dia foi à caça com amigos da corte, mas acabou se
separando deles.
Ele
tinha os melhores cachorros de caça do reino, o que quase sempre lhe
proporcionava boas caçadas. Por se orgulhar de seus cachorros e por vaidade
própria, gostava de se exibir na arte da caça.
Mas
naquele dia, ele exagerou. Se o dia não estava para peixe, para caça também
não. O rei andou, andou, andou, mas não encontrou nada que valesse um disparo. Andou
sem rumo, pois confiava nos seus animais. Mas cachorro de caça acompanha o dono
para onde ele for, mas não o traz de volta. Os cachorros entusiasmados corriam
à frente, e o rei os seguia.
Enquanto
o dia teve luz, foram se afastando cada vez mais. Já andavam por lugares do
reino onde nunca tinham pisado antes. O rei dormiu no mato aquela noite e seus
cachorros o acompanharam.
Logo
bem cedo começou a labuta. Para os cachorros, a ansiedade de caçar, para o rei,
a ansiedade de encontrar o caminho de volta.
Nisso
os cachorros encontraram um rasto de caça e, excitados, seguiam-no afastando-se
cada vez mais do dono. O rei estava cansado demais por subir e descer montanhas
e acabou por perder-se dos cachorros. Então se decidiu por seguiu por um vale.
Ele foi sempre em frente e pensava:
- Em
algum lugar eu vou sair.
E,
assim, se passou mais um dia, sem chegar a lugar algum.
Seus
companheiros de caça julgaram que o rei tivesse voltado para casa, por isso nem
se preocuparam. O rei era experiente em caçadas nas matas da região. No palácio
também ninguém se preocupou, pois julgavam que o rei andava bem acompanhado.
O rei
dormia no mato e quando seu farnel acabou e comia frutos silvestres. Não tinha
como voltar. Sabia que não resistiria ao caminho de volta. A água do cantil
havia acabado, mas pelo menos agora tinha um fio de água que o acompanhava vale
abaixo. Seguiu aquele vale por dias que já não sabia quantos. Não sabia nem que
dia da semana era.
Suas
roupas se rasgaram, suas sandálias se partiram. O rei ficou descalço e sem arma,
pois estava ficando cada vez mais pesada. Mal podia com o peso de seu próprio
corpo e decidiu deixar a arma encostada a uma palmeira na beira do riacho.
Seus
pés inchados, feridos e arranhados pela vegetação, já eram um caso mais sério.
Pisar no chão era um sacrifício, mas ele também não podia parar. A fome já
fazia parte do seu dia. O fim estava próximo e o rei sentia as amarguras da
morte.
Cambaleante,
ele viu uma fumacinha no ar que saía de uma pobre choupana. Era o primeiro
sinal de civilização que encontrava depois que se perdeu. E casa onde há
fumaça, há fogo. Onde há fogo, há gente. E foi cheio de esperança, que para lá
se dirigiu.
Dizem
que rei nunca perde a majestade. Mas quem inventou esta frase nunca deveras se
perdeu.
- Òh
de casa! - dizia um velho e esfarrapado mendigo que chamava aquela pobre
choupana de casa. Seu palácio agora de nada lhe valia.
-
Pode entrar senhor, a porta está aberta - dizia uma vós lá de dentro.
E o
rei entrou, ou melhor, o mendigo entrou.
-
Meu Deus! De onde vens amigo? Da guerra dos farrapos? - dizia o ilustre senhor
que o recebeu.
-
Que te fizeram homem de Deus, que estás tão machucado. Senta aí, que eu já vou
dar um jeito nisso.
E
Raimundo, era assim que se chamava o lavrador, deu seu trono para o mendigo se
sentar. Um banquinho de pernas de paus do mato com uma rodela de tronco de
assento.
Pegou
uma panela de água quente que estava no borralho, colocou a água numa tina e
temperou-a com água fria. Ajudou a despir o mendigo e a entrar dentro da tina,
porque o pobre mendigo já não conseguia nem se arrastar. Lavou sua cabeça e
esfregou as suas costas. O mendigo sentiu-se no paraíso. Era o melhor banho de
sua vida. Muito melhor que os banhos em sua enorme banheira, com sais e
essências importadas.
Lavado
e enxugado, o lavrador foi buscar roupas suas no cesto de bambu e vestiu o
mendigo. Foi buscar um remédio ungüento que fazia com diversas plantas de sua
cultura e banha de tartaruga. Passou o remédio por seus pés e embrulhou-os em
dois panos. Tentou calçar-lhe umas alpargatas que tinha, mas era impossível,
pois estavam muito inchados.
-
Bem, a limpeza nós já fizemos - dizia o lavrador. - Agora vamos fazer a comida.
Senta aí, que te arranjo alguma coisa para comeres. Espera um minutinho que vou
fazer uma torta de milho.
E lá
estava um rei sentado em seu magnífico trono, quatro pernas de pau e uma rodela
de tora de madeira, uma camisa de flanela velha, mas limpinha, umas ceroulas do
mesmo pano. Pés amarrados, à mercê de um homem que nunca vira e esperando uma
torta de milho para o jantar.
O
lavrador saiu para o quintal e trouxe espigas de milho. Ralou-as, misturou com
farinha, colocou sal e gordura de porco, amassou um pouco, colocou a massa em
folhas verdes de aboboreira e assou a torta debaixo da cinza quente do
borralho.
E o
mendigo comeu, comeu como um rei. Nunca manjar algum lhe pareceu tão saboroso.
O
lavrador olhava com pesar para aquele pobre mendigo e pensava:
-
Que Deus me livre de semelhante infortúnio.
Depois
perguntou ao mendigo:
- De
onde vens? Que caminhos te trouxeram aqui?
- Eu
venho de Al-Girk e meu nome é Saul - dizia o mendigo. - Eu ia para Al-Jubb, mas
me perdi no caminho. Deixei minha arma cartucheira que só me servia de estorva,
lá bem acima, encostada numa palmeia as margem do ribeirão.
-
Estás muito longe do teu destino, mas quando estiveres em condições de fazeres
a viagem, preciso ir à cidade e posso te deixar em Al-Girk.
Depois
de tão exuberante jantar, o lavrador foi lhe preparar a cama: Encheu uma
enxerga de folhelhos de milho, um travesseiro com a mesma palha, um lençol de
pano cru, e uma manta de retalhos. E o mendigo dormiu, dormiu como um rei.
No
outro dia, o lavrador lavou-lhe os pés com água morna e passou a mesma pasta
ungüenta, dizendo ao mendigo que ele precisava ficar em repouso até seus pés
melhorarem.
Cinco
dias depois, lá ia o mendigo na boleia de uma carroça, rumo à cidade. Por
muitos dias eles viajaram.
Na
hora de se despedirem, o mendigo agradeceu a ajuda recebida e deu ao lavrador
uma moeda de ouro, dizendo:
-
Recebe esta moeda. Não é para pagar o que por mim fizeste, porque a caridade
não tem preço. Mas se um dia precisares de ajuda, entrega essa moeda ao rei. Só
assim saberás o quanto essa moeda vale.
E
assim, o mendigo saiu pelas ruas da cidade sem que ninguém o conhecesse,
deixando o lavrador embaraçado com a moeda na mão a olhar para ela e pensava:
- A
imagem cunhada nesta moeda tem semelhança com alguém que já vi.
Quando
o rei chegou ao palácio, nem os guardas o queriam deixar entrar. Então o rei
pensou:
-
Quanta diferença há neste mundo. Quando cheguei a casa do pobre agricultor, ele
me mandou entrar sem mesmo saber quem eu era. E aqui não querem me deixar
entrar na minha própria casa.
Foi
preciso o rei falar grosso com os guardas, para depois sim, lhe abrirem os
portões.
O
tempo passou e uma seca muito longa assolava lá para as bandas do norte. Com a
terra seca as plantas desapareceram, a água acabou e o gado morreu. O senhor
Raimundo foi o último retirante da região.
Chegou
à cidade e lembrou-se do que o mendigo lhe dissera:
-
Procura o rei.
E
foi o que decidiu fazer. Era a sua última esperança.
Mas
não foi preciso procurá-lo, pois rei veio até ele. O rei vinha em comitiva com
seus vassalos, quando viu a carroça e o burrinho que tão bem conhecia.
Quando
o lavrador ia falar, o rei fez sinal para que se calasse. Chegou perto, mandou
que subisse na sua carruagem. Deu ordem para voltarem, que levassem a carroça e
o burro e que o tratassem bem.
Levou
o amigo lavrador para o palácio sentou-o no seu trono e falou:
-
Foi assim que me trataste. Cada um dá o que tem.
E explicou:
- Se
não te deixei falar à pouco é porque quero que guardes segredo de minha
aventura. É um segredo que deve ficar só entre nós. Mais ninguém pode saber. Se
alguém descobrir meu fracasso será um infortúnio.
Depois
perguntou:
- Trouxeste
ao menos um pedacinho da torta de milho? Ou um pouco do teu bálsamo que é um
santo remédio?
-
Não Majestade! - falou o agricultor – mas na carroça tem uma espingarda que fui
procurar na beira do riacho, encostada numa palmeira, na esperança de encontrar
o dono dela. Meu senhor se eu soubesse que em minha casa vos tinha!
- O
que farias tu? Melhor do que fizeste? - perguntou o rei. - E agora dize-me o
que aconteceu em tua vida para chegares assim tão depenado?
-
Não só a minha majestade, mas a vida de todos quantos moravam na região. Bem se
vê que o mal que assola o norte não chega ao sul, porque aqui parece outro
mundo.
Depois
de ouvir o lavrador, o rei prometeu que iria ajudar aquela sofrida gente.
Lembrando-se daquele fio de água que o acompanhava vale abaixo... pois é... aquele fio era
perene, e mais abaixo virou um regato, e mais abaixo já era um rio. E o rei
resolveu mandar represar o rio e construiu uma enorme represa para os pobres do
norte.
Os
retirantes voltaram, cultivaram suas terras e nunca mais foram tão pobres como
antes.
Moral:
“Faça o bem sem olhar a quem”.
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