quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Segredo do Rei


Era uma vez... Um rei que, um dia foi à caça com amigos da corte, mas acabou se separando deles.
Ele tinha os melhores cachorros de caça do reino, o que quase sempre lhe proporcionava boas caçadas. Por se orgulhar de seus cachorros e por vaidade própria, gostava de se exibir na arte da caça.
Mas naquele dia, ele exagerou. Se o dia não estava para peixe, para caça também não. O rei andou, andou, andou, mas não encontrou nada que valesse um disparo. Andou sem rumo, pois confiava nos seus animais. Mas cachorro de caça acompanha o dono para onde ele for, mas não o traz de volta. Os cachorros entusiasmados corriam à frente, e o rei os seguia.
Enquanto o dia teve luz, foram se afastando cada vez mais. Já andavam por lugares do reino onde nunca tinham pisado antes. O rei dormiu no mato aquela noite e seus cachorros o acompanharam.
Logo bem cedo começou a labuta. Para os cachorros, a ansiedade de caçar, para o rei, a ansiedade de encontrar o caminho de volta.
Nisso os cachorros encontraram um rasto de caça e, excitados, seguiam-no afastando-se cada vez mais do dono. O rei estava cansado demais por subir e descer montanhas e acabou por perder-se dos cachorros. Então se decidiu por seguiu por um vale. Ele foi sempre em frente e pensava:
- Em algum lugar eu vou sair.
E, assim, se passou mais um dia, sem chegar a lugar algum.
Seus companheiros de caça julgaram que o rei tivesse voltado para casa, por isso nem se preocuparam. O rei era experiente em caçadas nas matas da região. No palácio também ninguém se preocupou, pois julgavam que o rei andava bem acompanhado.
O rei dormia no mato e quando seu farnel acabou e comia frutos silvestres. Não tinha como voltar. Sabia que não resistiria ao caminho de volta. A água do cantil havia acabado, mas pelo menos agora tinha um fio de água que o acompanhava vale abaixo. Seguiu aquele vale por dias que já não sabia quantos. Não sabia nem que dia da semana era.
Suas roupas se rasgaram, suas sandálias se partiram. O rei ficou descalço e sem arma, pois estava ficando cada vez mais pesada. Mal podia com o peso de seu próprio corpo e decidiu deixar a arma encostada a uma palmeira na beira do riacho.
Seus pés inchados, feridos e arranhados pela vegetação, já eram um caso mais sério. Pisar no chão era um sacrifício, mas ele também não podia parar. A fome já fazia parte do seu dia. O fim estava próximo e o rei sentia as amarguras da morte.
Cambaleante, ele viu uma fumacinha no ar que saía de uma pobre choupana. Era o primeiro sinal de civilização que encontrava depois que se perdeu. E casa onde há fumaça, há fogo. Onde há fogo, há gente. E foi cheio de esperança, que para lá se dirigiu.
Dizem que rei nunca perde a majestade. Mas quem inventou esta frase nunca deveras se perdeu.
- Òh de casa! - dizia um velho e esfarrapado mendigo que chamava aquela pobre choupana de casa. Seu palácio agora de nada lhe valia.
- Pode entrar senhor, a porta está aberta - dizia uma vós lá de dentro.
E o rei entrou, ou melhor, o mendigo entrou.
- Meu Deus! De onde vens amigo? Da guerra dos farrapos? - dizia o ilustre senhor que o recebeu.
- Que te fizeram homem de Deus, que estás tão machucado. Senta aí, que eu já vou dar um jeito nisso.
E Raimundo, era assim que se chamava o lavrador, deu seu trono para o mendigo se sentar. Um banquinho de pernas de paus do mato com uma rodela de tronco de assento.
Pegou uma panela de água quente que estava no borralho, colocou a água numa tina e temperou-a com água fria. Ajudou a despir o mendigo e a entrar dentro da tina, porque o pobre mendigo já não conseguia nem se arrastar. Lavou sua cabeça e esfregou as suas costas. O mendigo sentiu-se no paraíso. Era o melhor banho de sua vida. Muito melhor que os banhos em sua enorme banheira, com sais e essências importadas.
Lavado e enxugado, o lavrador foi buscar roupas suas no cesto de bambu e vestiu o mendigo. Foi buscar um remédio ungüento que fazia com diversas plantas de sua cultura e banha de tartaruga. Passou o remédio por seus pés e embrulhou-os em dois panos. Tentou calçar-lhe umas alpargatas que tinha, mas era impossível, pois estavam muito inchados.
- Bem, a limpeza nós já fizemos - dizia o lavrador. - Agora vamos fazer a comida. Senta aí, que te arranjo alguma coisa para comeres. Espera um minutinho que vou fazer uma torta de milho.
E lá estava um rei sentado em seu magnífico trono, quatro pernas de pau e uma rodela de tora de madeira, uma camisa de flanela velha, mas limpinha, umas ceroulas do mesmo pano. Pés amarrados, à mercê de um homem que nunca vira e esperando uma torta de milho para o jantar.
O lavrador saiu para o quintal e trouxe espigas de milho. Ralou-as, misturou com farinha, colocou sal e gordura de porco, amassou um pouco, colocou a massa em folhas verdes de aboboreira e assou a torta debaixo da cinza quente do borralho.
E o mendigo comeu, comeu como um rei. Nunca manjar algum lhe pareceu tão saboroso.
O lavrador olhava com pesar para aquele pobre mendigo e pensava:
- Que Deus me livre de semelhante infortúnio.
Depois perguntou ao mendigo:
- De onde vens? Que caminhos te trouxeram aqui?
- Eu venho de Al-Girk e meu nome é Saul - dizia o mendigo. - Eu ia para Al-Jubb, mas me perdi no caminho. Deixei minha arma cartucheira que só me servia de estorva, lá bem acima, encostada numa palmeia as margem do ribeirão.
- Estás muito longe do teu destino, mas quando estiveres em condições de fazeres a viagem, preciso ir à cidade e posso te deixar em Al-Girk.
Depois de tão exuberante jantar, o lavrador foi lhe preparar a cama: Encheu uma enxerga de folhelhos de milho, um travesseiro com a mesma palha, um lençol de pano cru, e uma manta de retalhos. E o mendigo dormiu, dormiu como um rei.
No outro dia, o lavrador lavou-lhe os pés com água morna e passou a mesma pasta ungüenta, dizendo ao mendigo que ele precisava ficar em repouso até seus pés melhorarem.
Cinco dias depois, lá ia o mendigo na boleia de uma carroça, rumo à cidade. Por muitos dias eles viajaram.
Na hora de se despedirem, o mendigo agradeceu a ajuda recebida e deu ao lavrador uma moeda de ouro, dizendo:
- Recebe esta moeda. Não é para pagar o que por mim fizeste, porque a caridade não tem preço. Mas se um dia precisares de ajuda, entrega essa moeda ao rei. Só assim saberás o quanto essa moeda vale.
E assim, o mendigo saiu pelas ruas da cidade sem que ninguém o conhecesse, deixando o lavrador embaraçado com a moeda na mão a olhar para ela e pensava:
- A imagem cunhada nesta moeda tem semelhança com alguém que já vi.
Quando o rei chegou ao palácio, nem os guardas o queriam deixar entrar. Então o rei pensou:
- Quanta diferença há neste mundo. Quando cheguei a casa do pobre agricultor, ele me mandou entrar sem mesmo saber quem eu era. E aqui não querem me deixar entrar na minha própria casa.
Foi preciso o rei falar grosso com os guardas, para depois sim, lhe abrirem os portões.
O tempo passou e uma seca muito longa assolava lá para as bandas do norte. Com a terra seca as plantas desapareceram, a água acabou e o gado morreu. O senhor Raimundo foi o último retirante da região.
Chegou à cidade e lembrou-se do que o mendigo lhe dissera:
- Procura o rei.
E foi o que decidiu fazer. Era a sua última esperança.
Mas não foi preciso procurá-lo, pois rei veio até ele. O rei vinha em comitiva com seus vassalos, quando viu a carroça e o burrinho que tão bem conhecia.
Quando o lavrador ia falar, o rei fez sinal para que se calasse. Chegou perto, mandou que subisse na sua carruagem. Deu ordem para voltarem, que levassem a carroça e o burro e que o tratassem bem.
Levou o amigo lavrador para o palácio sentou-o no seu trono e falou:
- Foi assim que me trataste. Cada um dá o que tem.
E explicou:
- Se não te deixei falar à pouco é porque quero que guardes segredo de minha aventura. É um segredo que deve ficar só entre nós. Mais ninguém pode saber. Se alguém descobrir meu fracasso será um infortúnio.
Depois perguntou:
- Trouxeste ao menos um pedacinho da torta de milho? Ou um pouco do teu bálsamo que é um santo remédio?
- Não Majestade! - falou o agricultor – mas na carroça tem uma espingarda que fui procurar na beira do riacho, encostada numa palmeira, na esperança de encontrar o dono dela. Meu senhor se eu soubesse que em minha casa vos tinha!
- O que farias tu? Melhor do que fizeste? - perguntou o rei. - E agora dize-me o que aconteceu em tua vida para chegares assim tão depenado?
- Não só a minha majestade, mas a vida de todos quantos moravam na região. Bem se vê que o mal que assola o norte não chega ao sul, porque aqui parece outro mundo.
Depois de ouvir o lavrador, o rei prometeu que iria ajudar aquela sofrida gente.
Lembrando-se daquele fio de água que o acompanhava vale abaixo... pois é... aquele fio era perene, e mais abaixo virou um regato, e mais abaixo já era um rio. E o rei resolveu mandar represar o rio e construiu uma enorme represa para os pobres do norte.
Os retirantes voltaram, cultivaram suas terras e nunca mais foram tão pobres como antes.

Moral: “Faça o bem sem olhar a quem”.

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