Era uma vez ... Um príncipe, cujo nome era
Girassol, de seu pai o rei Cravo, e de sua mãe a rainha Rosa.
O príncipe gostava muito de caçar, ou
melhor, sair para a floresta. Quando fez vinte e um anos, ganhou uma espingarda
de presente da sua madrinha, a fada Margarida.
Quando saía para caçar, andava o dia todo,
comia frutos silvestres, bebia água das nascentes, local onde encontrava todas
as aves e todos os bichos da floresta, filhotes de todas as espécies. Todos
eram seus amigos. E olha que ele era caçador! Mas, a bem da verdade, se
carregava a espingarda consigo, era para espantar as raposas e os lobos que
faziam um grande estrago na fauna daquela floresta. Mas a natureza é sábia,
todos os animais são importantes para o equilíbrio.
Ou o príncipe não sabia atirar, ou não
queria saber mesmo, porque sua arma nunca matou nenhum bichinho.
Rei Cravo andava preocupado com as atitudes do
príncipe. Ele queria que seu filho fosse um guerreiro para que, quando herdasse
a coroa, pudesse defender o reino. Um dia o rei mandou chamar a fada madrinha
para que ela mudasse a vida de Girassol.
A fada Margarida disse para o rei:
- Não podemos mudar a sina a uma pessoa, mas sim, lhe
indicar o melhor caminho.
No outro dia bem cedo, o príncipe se preparava para
sua caçada habitual, quando sua madrinha apareceu.
- Girassol trago aqui três pacotinhos e os três eu
vou lhe dar. Porém, só os poderás abrir perto da água. Só perto de água, entendeu?
Isso é muito importante.
E colocou os três pacotinhos na mochila do príncipe.
- Entendi minha madrinha, assim farei porque assim me
pedes, mas confesso que já estou com vontade de abrir um agora.
- Não o faças, porque terás um grande desgosto.
E o príncipe partiu para mais um dia de aventura
pelas trilhas da floresta. Depois de já ter percorrido uma boa distância mata
adentro, o príncipe lembrou-se do conselho da madrinha: “Só perto da água”.
- O que será que tem dentro desses pacotinhos que
minha madrinha me deu e que só podem ser abertos perto da água? - perguntava o
príncipe, de si para si mesmo.
- Bolinhos salgados? Bolinhos doces? Só pode ser.
- Só perto da água? Que nada. Eu como um agora e bebo
a água depois.
Encostou a arma na árvore, tirou a mochila das costas
e pegou um pacotinho de dentro da mochila.
- Do que será este pacotinho? Deve ser um lanche bem
gostoso - pensava ele - senão a minha madrinha não o iria me dar.
Mas quando abriu o pacotinho, a surpresa. O que saiu
lá foi uma princesinha muito muito linda! Que logo lhe pedia:
- Dá-me água, senão eu morro. Dá-me água, senão eu
morro. Dá-me água, senão eu morro.
O príncipe saiu a correr á procura de água. Procurou
em toda a volta, mas não encontrou e, quando voltou, a princesinha estava
morta. Ali abraçado a ela ele chorava:
- Não me deixes. Não morre não.
Mas nada podia fazer, já estava morta. Enterrou-a
encostada a uma árvore, fez uma cruz de paus e foi-se embora chorando.
- Mas que estúpido que fui, se tivesse escutado os
conselhos da minha madrinha minha princesa não estaria morta. Eu tinha justo que
pegar o pacote onde estava a princesinha? E agora o que vou fazer com os outros
dois pacotes? Aquele pacote tinha a princesa, o que haverá nos outros?
E a tentação voltou à sua cabeça:
- Não. Agora só vou abrir perto da água.
Andava a esmo pelo mato, estava completamente
perdido. Ele que conhecia cada fonte, cada regato, já não encontrava nem o
caminho de volta.
Preparou-se para comer. Encostado a uma árvore, tirou
o lanche da sacola, olhou para os outros pacotes e pensou deviam conter alguma
coisa para dar à princesa
- Não. Agora só vou abrir perto da água.
Começou a comer o lanche que levava, olhou
para o pacotinho e disse:
- Este eu vou abrir. A princesinha já morreu mesmo!
Agora não me interessa o que possa haver nestes pacotinhos.
E abriu o segundo. Saiu de lá outra princesinha,
ainda mais bela que a primeira e pediu-lhe:
- Dá-me água, senão eu morro. Dá-me água, senão eu
morro. Dá-me água, senão eu morro.
E o príncipe já sabendo de antemão o que ia
acontecer, não quis deixá-la sozinha e abraçado a ela, tentava molhar-lhe os
lábios com os seus próprios lábios.
- Nãooo! Não morre não.
Mas, a princesinha já estava morta.
O príncipe saiu arrasado daquele lugar. Como ele
poderia imaginar que sua madrinha lhe pregaria uma peça dessas? Colocar duas
princesinhas tão belas dentro de dois pacotinhos em sua mochila. Não, sua
madrinha tinha sido cruel. Mas por que também não obedeceu às ordens?
- Não, eu não vou me perdoar. Não podia ter feito
isso, minha madrinha me avisou...
Levantou a cabeça procurando se lembrar onde estava.
Sim, agora sabia onde estava. E saiu em direção a um lugar bem distante, onde
existia uma fonte. Quando chegou já era mais de meio dia.
Aproximou-se da água. A ansiedade para saber o que
sua madrinha tinha preparado para ele estava deixando-o angustiado.
- O que será que este pacote contém?
Abriu-o com o coração pequenino, pequenino. Mas...
Outra princesinha ainda mais bonita que as duas primeiras apareceu e pediu-lhe:
- Dá-me água, senão eu morro. Dá-me água, senão eu
morro. Dá-me água, senão eu morro.
O príncipe estava tão ansioso que nem se
lembrava que estava tão perto da fonte.
Quando a princesinha estava dando os últimos
suspiros é que ele se lembrou da água.
- Queres água? Queres água?
Pegou a princesinha pela cintura e
mergulhou-a na água. Era tanta a sua ansiedade em lhe dar água que quase a mata
afogada. Quando a tirou da água ela agradeceu:
- Vossa Alteza é o meu príncipe, o meu Salvador.
O príncipe estava tão preocupado com a princesinha
que lhe perguntou:
- Queres mais água? Tu queres mais água?
Ela aflita espondeu:
- Deus me livre! Já bebi água demais!
- Então fica aqui sentada ao pé da fonte,
não sai deste lugar, que eu vou buscar uma carruagem para te levar. Não demoro.
Quando quiseres água, é só abaixar e beber.
E saiu correndo como uma gazela.
Muitas pessoas iam buscar água àquela fonte. E todas
se admiraram com a beleza daquela donzela ali sentada ao lado da bica d’água.
Uma das pessoas que freqüentavam a fonte era uma feiticeira feia e muito má. Vendo
aquela moça tão bela, ali sentada sozinha, foi conversar com ela:
- O que estás aqui a fazer assim sozinha, meu anjo?
A princesinha inocente, que nada conhecia das
maldades do mundo, respondeu:
- Estou aqui à espera do meu príncipe que foi buscar
uma carruagem para me levar, minha boa senhora.
- Aaah! O príncipe? Eu conheço o príncipe. Ele é
muito meu amigo.
A princesinha muito contente por haver arranjado uma
amiga para conversar, passava as mãos em seus longos cabelos dourados.
A feiticeira logo perguntou:
- Quer que eu a cate? Quer que eu a cate?
A princesa que nem sabia o que ela estava a falar,
perguntou:
- Catar o quê?
- Catar piolhos - disse a feiticeira.
- Piolhos? Mas o que são piolhos?
- São uns bichinhos que você tem aí a rabear em sua
cabeça.
- Bichinhos na minha cabeça?
- Sim - afirmou a feiticeira - e o príncipe não gosta
de princesas piolhentas. Se ele souber que você tem piolhos, não vai chegar
perto de você.
- Tira esses bichinhos de mim.
- Então deita a tua cabecinha no meu regaço.
A princesinha deitou a cabeça no colo da feiticeira que
começou a alisar seus cabelos. A princesa fechou os olhos, sentindo um leve
torpor. Nisso, a feiticeira pegou um alfinetinho de ouro, que sempre trazia
consigo, espetou-o na cabeça da princesa, que se transformou numa pombinha
branca, e voou.
Quando à tardinha o príncipe chegou com a carruagem,
correu direto para a fonte. Mas não viu a princesa, viu apenas uma senhora
sentada no mesmo lugar onde havia deixado sua amada. E lhe perguntou:
- Aqui neste mesmo lugar, eu deixei sentada uma
princesinha. A senhora sabe me dizer para onde ela foi?
- Ora, meu príncipe querido! - disse a feiticeira -
Não vá dizer que Vossa Alteza não me reconhece! Sou eu! Eu sou a princesa que à
pouco deixaste aqui!
- Não, não pode ser! Ela era bem branquinha e você está
queimada do sol.
- Ora meu querido! Se não querias que eu ficasse
queimada, por que me deixaste ao sol?
E o príncipe, triste, levou para o palácio aquela que
dizia ser a princesa que havia salvado.
Começaram os preparativos para o casamento. A
feiticeira estava sempre a lembrar o príncipe para que abreviasse o dia. E o
dia foi marcado. Só precisariam de dois meses para os preparos.
A noiva levantava ao meio dia, tinha criados para lhe
levar o café à cama, para lhe lavar os pés, para colocar os sais para os seus
banhos. Estava, sem dúvida, levando uma vida de princesa.
Contudo, o príncipe estava entristecido. Nunca mais
visitara sua princesa, pois ela estava mudada, muito raivosa e exigente. Não!
Aquela não podia ser a princesinha da fonte.
Na horta atrás do palácio, também acontecia algo
diferente, que estava a chamar a atenção do hortelão. Nestes últimos dias,
aparecia lá uma pombinha, todos os dias, ao pôr-do-sol, na mesma árvore, no
mesmo galho, à mesma hora, e lhe dizia:
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a
sua noiva Maria?
A primeira e a segunda vez passaram. Mas depois de
uma semana, o hortelão foi falar com o príncipe o que estava a acontecer na
horta. E o príncipe mandou o hortelão dizer que passava bem e vivia alegre.
No outro dia à mesma hora, na mesma árvore, no mesmo
galho, lá estava a pombinha:
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a
sua noiva Maria?
- Passa bem e vive alegre - respondeu o hortelão.
Porém, no outro dia, à mesma hora, apareceu
novamente a pombinha:
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a
sua noiva Maria?
- Passa bem e vive alegre.
E no dia seguinte.
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a
sua noiva Maria?
- Passa bem e vive alegre.
O hortelão voltou a falar para seu amo que a pombinha
continuava a aparecer na horta. O príncipe mandou que fizesse um laço de fita,
e que o armasse no galho que ela costumava pousar, para a prender.
O hortelão assim o fez. Preparou o laço e à tardinha
já estava com ele armado no galho em que a pombinha costumava pousar.
À mesma hora, lá chegou a pombinha.
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a
sua noiva Maria?
- Passa bem e vive. - E puxou o laço.
A pombinha voou para outro galho encostado aquele, e
falou:
- Pouso aqui e pouso ali, laço de fita não é para mim
- e voou.
O hortelão foi até o príncipe e contou o que a
pombinha lhe dissera. Então o príncipe ordenou:
- Vamos fazer um laço de prata.
No outro dia eles armaram um laço de prata. À mesma
hora, a pombinha chegou e falou:
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a
sua noiva Maria?
- Passa bem e... - o hortelão puxou o laço.
A pombinha voou, pousou em outro galho e falou:
- Pouso aqui e pouso ali, laço de prata não é para
mim - e foi-se embora.
O hortelão voltou ao príncipe, dizendo-lhe que laço
de prata não era para ela. O príncipe ordenou que se fizesse então um laço
ouro.
No outro dia o hortelão armou o laço de ouro. À mesma
hora chegou a pombinha e pousou no mesmo galhinho.
- Hortelão, hortelaria, como passa o príncipe com a
sua noiva Maria?
- Passa bem... - e puxou o laço.
A pombinha ainda tentou, mas desta vez não escapou. O
hortelão saiu a correr com a pombinha nas mãos e foi entregá-la a seu amo:
- Agora nós conseguimos alteza.
O príncipe prendeu-a numa gaiola e levou-a para seu
quarto de dormir. A pombinha ficou muito triste, estava presa, sem nunca ter
feito mal a ninguém. E arrependeu-se do que fez. Pelo menos, antes era livre
para voar. Agora estava presa em uma gaiola e, pior ainda, dentro de um quarto.
Porém, o príncipe tinha certeza que só assim a
pombinha estava segura. A princesa sua noiva, que já sabia da existência de uma
pomba que andava a rondar o jardim, falou ao príncipe que tinha sonhado com ele
e que tinha ficado grávida. Que este era o filho dos seus sonhos, e agora
estava com desejo de comer carne de pomba.
O príncipe falou que o sonho era somente dela, não
dele. Que uma gravidez só se realiza, quando é sonhada a dois.
Mas como todos faziam à princesa as vontades, a
pombinha não iria durar muito. Assim, era ele quem cuidava da pomba, que lhe
dava comida, água e que lhe fazia carinho.
Certo dia, o príncipe notou que a pombinha dava uma
sacudida quando ele acariciava sua cabeça. Passou o dedo novamente, agora mais
atento, e notou algo diferente, um pequenino caroço. Examinando o que poderia
ser aquilo, viu um pequeno ponto dourado. Puxou-o, e tirou um alfinete que
estava cravado na cabeça da pombinha. Era o alfinete de ouro da feiticeira. E
no mesmo instante a pomba se transformou na princesa Violeta, a princesinha da
fonte.
Agora ela estava segura nos braços de seu amado.
O príncipe pegou o alfinete e foi até onde estava a
sua noiva feiticeira. Fingindo fazer-lhe um carinho, espetou o alfinete em sua
cabeça. A feiticeira virou um corvo e voou. Desta vez o feitiço virou contra o
feiticeiro.
Como o dia do casamento estava marcado, continuou
marcado para o mesmo dia. E uma semana
depois, lá estava o príncipe Girassol em frente ao altar, à espera de sua noiva
Violeta.
E nesse dia, durante a festa, apareceu um corvo voando
muito alto por cima do palácio.
- Quác. Quác. Quác. Quác.
Era a feiticeira que não se atrevia a baixar o vôo.
Girassol e Violeta tiveram muitos filhos e foram
felizes para sempre.
Moral:
“A inveja é companheira da glória e da virtude. Ela procura destruir a virtude
e o mérito alheio”.
Direitos autorais: Esta obra, ou parte dela, pode ser reproduzida, desde que citada à fonte de origem.
Senhor, contando essa história agora pra minha filha, lembrei me de quando era criança que minha vó contava para mim... Voltei por alguns minutos no tempo... Que bom reviver esse momento, mesmo que em pensamentos.
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